Mallu Magalhães, Identidade e Cachorro Grande

A noite de quinta-feira no Teatro do Boubon Country começou com o lançamento do PARC – Porto Alegre Rock City – projeto da Coca-Cola que tem como principal objetivo promover o Rock and Roll na cidade mais Rock do Brasil. Trata-se de um concurso de bandas cuja premiação é um projeto de band coaching onde um músico consagrado e um produtor darão todo o apoio e atenção para oito bandas selecionadas por um juri competente e rigoroso. As bandas selecionadas participarão de encontros exclusivos onde os jovens terão a chance de trocar experiências, saber mais do meio artístico/musical, além de receberem dicas sobre técnicas utilizadas nos palcos e estúdios Bacana, não? Seria, não fosse o detalhe de que o projeto é voltado exclusivamente para bandas formadas por jovens de 13 a 19 anos. Fica o elogio por um projeto tão interessante e a crítica construtiva de que existem muitas bandas competentes precisando mais desse apoio do que essa fatia de bandas em estágio pré-embrionário que ainda tem muita garagem pela frente. Todos os detalhes podem ser conferidos em www.cocacolaparc.com.br
Pouco depois das 22h, anunciada como “O maior fenômeno do Brasil”, sobe ao palco Mallu Magalhães. Fenômeno da internet, amada pela geração digital, detestada por muitos, a menina prodígio foi ao microfone: “Oi, meu nome é Mallu… eu vim aqui pra tocar pra vocês…” E começou com “You Know You’ve Got”, ótima música, cantada por Mallu de forma impecável. Cercada de uma banda competente e concisa, com um guitarrista de muito bom gosto, um tecladista criativo e uma cozinha impecável, Mallu é muito bem assessorada nos quesitos musicais. E foi só. O restante do show deixou muito a desejar. Até seus hits de propaganda de celular “Tchubaruba” e a bela “J1” foram tocadas e cantadas pela menina de maneira pouco abaixo do aceitável. Apresentou uma música nova, mas sem o potencial pop daquelas que tornaram seu Myspace o mais acessado do Brasil. Muita gente observava o show apenas por curiosidade, outros, que nem isso tinham, preferiram ficar no bar.
Mallu desafina e sai do tom com certa frequencia. O que é inaceitável em qualquer vocalista se torna tolerável e até mesmo bacana na menina, visto que todos são complacentes com o fato de “ela só ter 16 anos”. E é por isso que não existe muito sentido e validade em elogia-la ou critica-la. Não se elogia uma artista que não está pronta e está longe de estar, ao mesmo tempo que não é ético malhar uma artista que não está pronta e está longe de estar.
O sucesso de Mallu Magalhães é explicável apenas pela sua idade, fofura e total falta de eloquencia. Sua dificuldade em se comunicar, e seu ar infantil e dócil é interpretado por seus admiradores como qualidades singulares de uma artista sem precedentes na música brasileira. Mallu é um produto da indústria musical moderna onde a música está em segundo plano.  Foram 80 minutos de show, o mais longo da noite.
Com metade das condições técnicas, metade do tempo disponível e muito mais que o dobro de energia e disposição, a Identidade, banda que vem conseguindo alguma visibilidade nos últimos anos em Porto Alegre, subiu ao palco perto da meia noite e mostrou muito bem a que veio. Com simplicidade e sem rodeios, mandaram seu Rock and Roll recheado da influência sessentista dos Rolling Stones, personificadas principalmente no vocalista Evandro Bittencourt e  no guitarrista Lucas Hanke, destaques da banda no que se refere a presença de palco. Com alguns “hits” no underground, como “Lia” e “Lucy Jones”, alguns presentes cantaram com a banda. O destaque musical ficou por conta de “Antiguidades Versus Modernidades”, faixa que dará nome ao terceiro álbum da banda. Com uma trinca de metais convidada da banda “Família Sarará”. Quero chamar a atenção para essa música. Poucas vezes uma banda em ascenção apresentou, em Porto Alegre, uma música tão forte. “Antiguidades Versus Modernidades” merece ser conhecida por todos, e pode abrir muitas portas que ainda estão fechadas para a Identidade. O ponto negativo ficou pela comparação infeliz de Mallu, Identidade e Cachorro Grande com, respectivamente, Bob Dylan, Stones e Beatles, feita ao microfone por Lucas. Mas o show foi tão bacana que o saldo se manteve positivo.
Por fim, a atração de fundo: A maior banda gaúcha da atualidade subiu ao palco perto da uma da manhã. Chagaram com uma quebradeira sem tamanho, em um acorde que se prolongou por quase um minuto. Foram ovacionados e mandaram de cara o hit “Você não Sabe o Que Perdeu”, do disco “Pista Livre” e, talvez, o maior sucesso da Cachorro. De cara a voz suja e agressiva de Beto Bruno chamou a atenção por estar ainda mais suja e agressiva. Emendaram “Hey Amigo” e “Que Loucura”, do segundo álbum, o comercialmente renegado,  “As Próximas Horas Serão Muito Boas”. Um início arrebatador para um show que não foi diferente.
A partir dali, pudemos apreciar uma banda relativamente jovem, com cerca de 10 anos, com apenas 4 álbuns, mas com uma série de hits que já fazem parte do repertório do rock gaúcho e até mesmo nacional. “Sexperienced”, “Sinceramente”, “Bom Brasileiro”, “Você Me Faz Continuar” e muitas outras agitaram o Teatro do Bourbon Contry em uma proporção muito maior que as atrações anteriores. Outro destaque foi “A Alegria Voltou”, música nova, cantada pelo baterista Gabriel Azambuja e com o canhoto Beto Bruno na guitarra. Ótimo som, diga-se de passagem.
O show da Cachorro Grande, banda que a cada dia ganha mais fãs e mais críticos, provou por A + B que faz Rock and Roll com muita competência e merece, sim, seu lugar de destaque no cenário nacional.
Enfim, foi uma noite que apresentou um projeto para o que há de mais novo e moderno, coroada por artistas totalmente “vintage”, cada um com seu estilo, proposta e grau de competência. O tempo vai nos mostrar no que isso tudo vai dar.

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine

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1 comentário

  1. Mo Hoffeder

    Pelo que me consta na ocasião do show da Mallu, a banda passou por problemas técnicos de audio,. O retorno do palco era mínimo e o show acabou antes do esperado.

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