Zé Ramalho

Zé Ramalho canta Dylan… Pelo menos era o que dizia o cartaz.

Um dos maiores nomes da música brasileira, Zé Ramalho, sempre foi considerado pelos seus fãs, como uma espécie de “visionário” e ele próprio nunca fez muito esforço para se livrar deste tipo de identificação. Ano passado lançou um disco em homenagem a Bob Dylan, o qual sempre foi referência para a carreira de Zé. E se analisarmos este aspecto de forma um pouco mais profunda, veremos que as similaridades são muito grandes. Bom, esse antigo projeto finalmente foi lançado e acabou gerando uma porção de críticas, para o bem e para o mal, acho que na verdade mais para o mal, mas nada que o próprio cantor não esperasse. O simples fato de traduzir 11 canções de um dos maiores ícones da música mundial e lançá-las em um disco, por si só, já seria motivo para controvérsias, sendo o tradutor em questão o próprio Zé Ramalho, a coisa ainda aumenta de figura. Apesar do público dos dois não serem antagônicos, estão longe de serem uma unanimidade. Era uma tarefa difícil, neste caso, agradar a Gregos e Troianos. Coragem o Zé teve…
As críticas negativas acabaram se sobressaindo durante a turnê. O que elucida isso muito bem foi o repertório do show apresentado na capital na noite de sexta-feira, dia 27 de março. Das 18 músicas apresentadas, menos de um quarto da apresentação foi composta de versões para as músicas de Dylan, por isso o nome da matéria. Zé optou por fazer um show que agradasse seus fãs antigos, que em sua maioria, tinham torcido o nariz para seu último trabalho, e não causasse aborrecimento a quem tinha ido ver seus grandes sucessos. A apresentação começa pontualmente ás 21h, já muito bem embalada por Disparada, de Geraldo Vandré, que é clássico incontestável da música popular nacional. Segue com Do Muito e Do Pouco, parceria com Oswaldo Montenegro. Estas duas sendo as poucas surpresas do show, que depois teria seu curtíssimo momento Bob Dylan. Aqui abro um novo parêntese: Quando ouvi o disco, confesso que senti um pouco de estranheza, mas tirando alguns preconceitos musicais muito comuns, e entrado na viagem a qual o Zé Ramalho se propôs, o material acaba se mostrando mais entendível, ganhando sentido.
A tradução das letras de Dylan para o português, é uma ótima oportunidade para criar o interesse de um público que desconhece este gênio da música. Mas a maioria do público não aprovou as traduções, o que acabou se refletindo nas míseras quatro canções apresentadas naquela noite, começando por Ta Tudo Mudando, seguida de O Vento Vai Responder e a já consagrada na voz de vários outros artistas, Negro Amor. Todas elas recebidas de forma meio fria pelos presentes, o que fez Zé se adiantar e avisar que aquele “momento Dylan” seria breve.
A partir de então não faltaram clássicos do compositor Paraibano, Avôhai, Vila Do Sossego, Chão De Giz, sendo esta um dos momentos mais bonitos do show. Passando por Garoto De Aluguel e o seu maior clássico, Admirável Gado Novo. Logo após, o público ainda pode conferir mais uma versão de Bob Dylan, que há muito já é cantada por Zé Ramalho, trata-se de Batendo na Porta do Céu, que agradou a maioria. Pra finalizar, tivemos mais clássicos: Frevo Mulher, Banquete dos Signos e A Terceira Lâmina formaram a despedida, que, como todo mundo já sabia, não era definitiva. Ao som de “Volta, Volta!”, Zé, de maneira rápida, até de mais, diga-se de passagem, retorna para o Bis, que contou com Sinônimos e, para finalizar a apresentação, Vida de Viajante(Aquela do seriado Carga Pesada).
Foi com um ar de frustração que terminou a apresentação de Zé na capital gaúcha, pelo menos para mim, que esperava um repertório mais balanceado. Mas a maioria dos presentes saiu de alma lavada, mais contentes ainda pela ausência das músicas que eu senti falta. Como eu disse no inicio: não se pode agradar a Gregos e Troianos.

Por: Angelo Borba

Fotos: Fabiana Menine

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