Segunda Maluca

A noite da última segunda-feira, em mais uma das edições da já clássica Segunda Maluca, o Bar Opinião recebeu três das mais promissoras e atuantes bandas da cena atual da cidade: Os Efervescentes, Vera Loca e Damn Laser Vampires. Além de oferecer uma opção de show para a noite da segunda, geralmente vazia e pouco movimentada, a intenção do evento era a de reunir bandas que dessem ao público uma idéia do “novo rock gaúcho”.
Sobre a proposta, várias coisas podem ser ditas: 1. a julgar pela linha retrô e, digamos assim, pela redundância dos estilos, poderíamos perguntar o que há de realmente novo trazido pelos conjuntos; 2. a julgar pela escassez do público – nem mesmo a frente do palco do Opinião estava lotada -, parece que os gaúchos não vêm mesmo se interessando por novidades, preferindo talvez outras opções ou mesmo aquelas que já conhecem há mais tempo; e 3. caberia perguntar também o que há de genuinamente rock em cada um dos conjuntos escalados.
De todo modo, a noite foi muito promissora e deu um bom panorama. Os conjuntos indicaram, de fato, aquelas que parecem ser as três principais tendências do que vem se fazendo hoje no Estado. De um lado, representados pelos Efervescentes, temos a linhagem mod, fortemente calcada em Beatles e The Who, que os gaúchos da Cachorro Grande, e mesmo antes deles o próprio Júpiter Maçã, já vêm fazendo há algum tempo (talvez até com mais qualidade). Em seguida, na linhagem da Vera Loca, temos um tipo de pop rock nos moldes do que Garotos da Rua já faziam, parecendo-se às vezes com Barão Vermelho fase Cazuza ou mesmo TNT dos anos 1980. Por fim, a Damn Laser Vampires, muito inspirados numa estética dos quadrinhos e de histórias de terror, movendo-se por sonoridades e climas góticos, de ecos londrinos, remetendo ao pós-punk, ao Bauhaus de Peter Murphy (que, aliás, passou por Porto Alegre há pouco tempo). A Damn Laser Vampires estaria indicando aqui os rumores mais undergrounds da cena gaúcha.

Os Efervescentes fizeram um ótimo show de abertura. A banda, formada por Daniel Tessler (vocal e guitarra), Beto Stone (bateria e vocal) e Eduardo Barreto (baixo e vocal), está muito afiada, tem uma pegada forte, as canções são boas, são fáceis e pegajosas, empolgantes e muito bem tocadas. Chama atenção a competência Os Efervecentesinstrumental do trio. O trio, aliás, contava com a participação de um tecladista. Além disso, todos eles cantam, alternam-se nos vocais, o que dá um toque melódico, uma variação melódica muito boa para a instrumentação vigorosa da banda. Nesse momento, a única nota ruim foi justamente o público. Pouquíssima gente estava no Opinião por volta das 23:15, quando a banda subiu ao palco (o show estava marcado para às 22h). Além disso, a banda tem preocupações com o figurino (os ternos e as costeletas), com a interação com a platéia e vai dando mostras de que não fica atrás – em termos de competência, seriedade, talento e profissionalismo – de alguns outros conterrâneos, tais como os já citados Cachorro Grande ou ainda Locomotores, Identidade, Cartolas, etc. Foi uma boa abertura, correta e muito precisa. Considerando então, mais do que o próprio tempo de estrada da banda, mas o estilo, a linhagem em que se insere, o “novo rock gaúcho” dos Efervescentes não é novo.
Em seguida, veio a Vera Loca. Fabrício Beck (Vocal), Diego Dias (Teclado), Luigi (Bateria), Mumu (Baixo) e Hernan González (Guitarra) fazem um bom pop rock, com muito estilo, refrões pegajosos, letras fáceis, que caem rapidamente no gosto do público (principalmente do público feminino ali presente). É inegável que há um certo exagero ou até uma boa dose de afetação na performance da banda (do vocalista, sobretudo). “As coisas que eu te disse ontem”, por exemplo, lembra muito o timbre de voz e as letras de Cazuza. Há até uma certa idolatria em torno do grupo. As músicas são boas, mas são interpretadas como se já fossem hits confirmados, garantidos já na história do rock gaúcho. Os músicos são bons. Entretanto, parece ter se perdido alguma coisa. Chamá-los de pop rock implica dizer também que, nessa dobradinha, é o próprio rock – a própria atitude rock – que perde força, que parece ter sido esquecida diante de tanto cálculo e correção, diante de tanto apelo pop. Na medida em que a banda é muito correta, seja nas letras, seja no visual, seja no comportamento no palco, seja nas composições, tudo se torna muito estilizado, tudo se torna clichê. Perde-se assim o que é o mais importante para o rock, que é algo como adrenalina, espontaneidade, imprevisibilidade e falta de protocolo. Antes de ser uma boa banda, a Vera Loca é um bom produto. Ou seja: o “novo rock gaúcho” da Vera Loca não é rock.
Muito disso (adrenalina e falta de protocolo, etc etc) foi resgatado então pelo trio Damn Laser Vampires. Os músicos – Ronaldo Selistre (vocais e guitarra), Francis K (guitarra) e Michel Munhoz (na bateria) – não são ruins, mas compensam a falta de um domínio técnico maior de seus instrumentos com muita criatividade e, sobretudo, jogando muito bem com as (ou dentro das) margens do gênero musical que tocam. Os arranjos são bem feitos, principalmente o modo como as guitarras vão compondo os climas adequados, intercalando frases, complementos aos riffs e às bases principais de cada canção. A ausência de um baixista, por exemplo, não chega a comprometer. Os vocais também são muito clássicos (dentro do gênero, não se pode esquecer). O público também teve uma participação mais ativa, pogando na frente do palco, entrando no clima gótico e divertido proposto pelo grupo. A Damn Laser Vampires é uma ótima banda dentro de um gênero fortemente marcado e fortemente identificado com o rock gótico inglês dos anos 1980. Ou seja: o “novo rock gaúcho” da Damn Laser Vampires não é gaúcho.

Nada mal para uma Segunda Maluca.

Por: Fabrício Nasser

Fotos: Adriano Braga

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