Titãs

Quarta-feira, 8 de abril, noite de receber um dos ícones do chamado “Rock Nacional”: Titãs. Divulgando seu último álbum, “MTV Ao Vivo”, a banda que mais encolhe no Brasil (eram 8 na época de Arnaldo Antunes e foram reduzidos a 5 com a saída de Nando Reis e a morte de Marcelo Frommer) se apresentou no Teatro do Bourbon Country.
Sem atração de abertura, a banda inicia o show pontualmente as 21h, como é de praxe no TBC, com o riff de introdução de “Diversão” enquanto as cortinas se abriam. Era o início de uma noite que de nostalgia e, como a canção mesmo diz, diversão. Em seguida, “Flores” e uma versão competente de “O Portão”, um clássico dos anos 60 interpretado por Roberto Carlos que ficou muito bem na voz de Branco Mello. O primeiro de vários covers daquela noite. Após o primeiro cover, a primeira surpresa: “Mentiras”, do disco “Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas”. Música que nunca foi hit, “Mentiras” foi bem escolhida pela densidade de sua letra, mas, infelimente, foi anunciada por seu intérprete Sergio Britto de forma infeliz: “Sei que muita gente aqui não deve se lembrar dessa música, nem sequer conhecer… ‘Mentiras'”. Ok, não deixa de ser verdade, a sentença foi comprovada pela reação fraquíssima do público presente, porém a atitude foi, certamente, arrogante com quem conhece o trabalho da banda e conhecia a canção. Neste caso, este redator incluso.
Após “Go Back” e “Provas de Amor”, que não obtiveram uma resposta muito superiora a “Mentiras”, um sorridente e carismático Paulo Miklos ganha a galera com louvor: “A gente sempre quis fazer parte do Rock Gaúcho. Mas pra isso a gente tinha que ser gaúcho. Aí a gente resolveu que ia fazer Rock Gaúcho. E depois a gente chegou a conclusão que pra fazer Rock Gaúcho a gente tinha que ser gaúcho. Eu não estou puxando o saco de vocês… DEMAIS. Mas aí, pra compensar, a gente resolveu ser gaúcho essa semana!!!”. (N do R: A tour RS veio de Pelotas para POA e ainda passaria por Muçum, Marau, Nova Prata e Tapera). Inevitavelmente, o coro de “Ah, eu sou gaúcho” tomou conta do TBC.
Os músicos contratados Lee Marcucci (baixo) e André Fonseca (guitarra) deixam o palco, enquanto Miklos assume a guitarra e Branco Mello o baixo.
A belíssima “Epitáfio”, não poderia ficar de fora. Interpretação sublime, tanto de Sergio quanto do público. Um Hit, em todos os sentidos da palavra.
O mesmo pode ser dito, sem alterações, sobre “Pra Dizer Adeus”. Sergio Brito, então, surpreende cantando, sozinho, os primeiros versos de “Eu Nasci há 10 mil anos atrás”. A surpresa, obviamente, vem pelo fato de esse clássico ter sido regravado muito recentemente pelo inimigo intimo da banda, Nando Reis. Mas tratava-se apenas de uma forma de homenagear Raulzito e introduzir “Aluga-se”, um dos pontos altos do show.
Miklos vai ao microfone novamente, desta vez para protestar. “Nossos excelentíssimos senhores senadores agora tentam parar a imprensa, o quarto poder. Agora, pergunta só por escrito e resposta em no mínimo uma semana. Aí da tempo de varrer tudo pra debaixo do tapete… Para esses senhores, ‘Vossa Excelência'”. A veia punk da banda se potencializou a partir daí, naquela que para parte do público foi a melhor parte do show: “Bichos Escrotos”, “Cabeça Dinossauro”, “AA-UU”, e “Polícia”. Uma quebradeira desenfreada, protagonizada por músicos taxados de velhos por seus detratores, porém que ainda demonstram um vigor juvenil ao executar esse tipo de música.
Voltam ao palco Lee e André para “A melhor banda de todos os tempos da ultima semana”. Música fraca, mas que ganhou porte ao vivo, surpreendentemente. Após “Domingo” e “Lugar Nenhum”, novamente Sergio Brito decepciona. Após um segundo coro de “Ah, eu sou gaúcho”, Sérgio rebate: “Acho bacana esse orgulho que vocês tem de ser gaúcho, assim como eu sou carioca, mas moro em São Paulo e passei metade da minha vida no Chile. Mas isso não tem importância, somos todos de lugar nenhum”. Nova infelicidade por parte do tecladista, ainda mais frente ao público mais bairrista que existe.
O encerramento não poderia ser diferente, com os clássicos que faltavam: “Homem Primata” e “Sonífera Ilha”, recentemente ressuscitada por ser trilha de novela. Intervalo para o Bis e o retorno, para o que não precisava ter acontecido.
Após um show que pode ser classificado como quase impecável e que deixou a imensa maioria muito satisfeitos, os Titãs quase põem tudo a perder. Iniciam o Bis com uma versão bastante discutível de “Loirinha Bombril”, dos Paralamas. Primeiramente, essa escolha foi errada, visto que os Paralamas tem uma imensa gama de músicas que podem ser mais bem aproveitadas pelos Titãs do que essa que, aliás, já é uma versão. A escolha do cantor também não acertada, visto que, pelo menos no imaginário deste redator, ficaria melhor na voz de Paulo Miklos do que de Branco Melo. Em seguida, “Marvin”. Nada contra “Marvin”. É ótima, um clássico. Mas, até ali, os Titãs haviam ignorado completamente todas as canções cantadas por Nando Reis. Não fizeram falta nenhuma, nem Nando nem as músicas que ele cantava. Foi desnecessária. E, por fim, a previsível e manjadíssima “É Preciso Saber Viver”, de Roberto Carlos.
O público dos Titãs tem se mantido o mesmo, pelo que pudemos constatar naquele show. É um público que envelhece com a banda e os Titãs tem dificuldade em hangariar novos fãs. A maioria dos presentes tinha mais de 30 anos. Essa é a única explicação plausível para a escolha do Bis. Felizmente, em razão do show excelente e da surpresa que contarei a seguir, isso não desabonou o show em nada.
Após exatos 90 minutos, bem como previa o release do show, a banda deixa o palco. Mas, volta pela segunda vez e, aí sim, surpreende positivamente com “O Pulso” e “Comida”. Verdadeiros fãs foram a loucura. Todos foram embora muito satisfeitos e surpresos com o bis “de verdade”.
O único ponto a lamentar, e aqui exponho minha opinião pessoal, é o fato de a banda ignorar totalmente o disco “Titanomaquia”. Mas aí, talvez já seja pedir demais.

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine

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2 Comentários

  1. Marcelo

    Olá

    Sou do interior do Rj e fã da banda desde 1988.

    Adorei a forma como descreveu o show e fez a crítica.

    Não foi grosseiro e parcial, foi de um profissionalismo brilhante.

    Senti como estivesse no show e concordei com suas críticas.

    Parabéns !

    Abraços

    Marcelo

    obs: Anotei a ordem das músicas, pois a banda irá fazer um show em minha cidade no dia 9 de maio, aproximandamente 21 anos depois do primeiro show aqui realizado.

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  2. Maicon Duarte da Silva

    É uma pena mesmo os Titãs não tocarem músicas do titanomaquia e do disco tudo ao mesmo tempo agora, fui ao show do dia 07/04 no theatro guarany em pelotas, o repertório é o mesmo, show perfeito,sou fã titânico desde 1987 e inclusive a RBS TV fez uma matéria comigo como o fã n°1 da cidade, muito legal.
    Os Titãs me receberam rapidamente e pude falar com todos.
    Abração…

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