Nei Lisboa

Nesta última semana Nei Lisboa chegou à casa dos 50 anos. E resolveu, pra nossa alegria, compartilhar esta marca nos brindando com duas apresentações muito especiais no Teatro do CIEE. A temática do show era sua versão mais “lado B”, num formato de apresentação mais intimista, só com voz e violão.

Como já é sabido para quem acompanha a cena musical gaúcha, Nei Lisboa nunca foi um músico de grandes hits radiofônicos, mas tem seu lugar de relevância garantido na história da música sulina. Aqui vão alguns dados que constam no currículo do Nei: teve uma composição sua gravada por Caetano Veloso, o qual sempre teve um faro certeiro no que se trata de revelar ou popularizar talentos pouco lembrados ou em ascensão (como foi o caso de Adriana Calcanhotto e Cazuza); foi um dos casos raríssimos de artistas que receberam um CD tributo ainda em vida e, segundo me consta, o único no Brasil.

O caso é que Nei está se modernizando, mais em forma do que conteúdo, e ainda leva um público fiel para seus shows, que adorou a idéia de uma apresentação recheada de grandes clássicos que não costumavam fazer parte do repertório das apresentações de Nei. Muitos dos que ali estavam, e já haviam presenciado outros shows do cantor, nunca tiveram a oportunidade de escutá-los ao vivo.

A apresentação inicia com “Mundo Seus”, do mais recente trabalho, “Translucidação” de 2006, e que junto com o disco anterior, “Relógios de Sol”, seriam a tônica do Show, compondo mais da metade do repertório. Seguiu a apresentação com “O Mundo em Seu Lugar”, que teve direito até a uma explicação da inspiração para a letra, que faltou no release de lançamento do álbum na época.

Algumas curiosidades foram sendo reveladas por Nei entre uma composição e outra, como o caso de “Doody II”, que na época do lançamento do disco do qual ela faz parte, “Pra viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina”, datado de 1983, foi lançada com a grafia errada, para corrigir foi feita uma errata que constava no encarte do LP, só que a correção também saiu incorreta. Anos mais tarde a cantora carioca Simone Capeto gravou um disco só com músicas de Nei Lisboa e a inclui no repertório, mas em dúvida sobre a forma correta de escrever o nome da faixa, ligou para o autor a fim certificar-se sobre a sua grafia. O CD foi lançado e pela terceira vez “Doody II” saiu com o nome errado.

Voltando ao show, mesmo contendo no seu set list composições mais complexas e outras meio esquecidas ao longo da carreira, ainda faltaram os seus, digamos, “clássicos lado B”. Como: “Dirá, Dirás”, “Verdes Anos”, “Maracujás” e “Noites Como Essa”, mas aí ele teria que fazer um show de 3 ou 4 horas. Em se tratando de composições antigas tivemos uma grata surpresa, “Society Assassinato”, de 1993. Fora isso a noite foi mesmo recheada de músicas mais novas, mas não menos belas, como é o caso de “Bom Futuro”, sendo uma das mais bonitas da noite, e que foi executada de maneira muito parecida com a gravação original, e o formato voz e violão caiu como uma luva para essa música, que tem uma linda letra.

Chegando ao fim do show, tivemos para seu encerramento um bis aberto a sugestões do público, e que pra mim teve um sabor especial. Pedi pra que tocasse uma música que considero um de seus pontos altos como compositor, “Rima Rica, Frase Feita”. Sendo prontamente atendido e com direito até a explicação da sua origem. Pra finalizar de fato, um “pot pourri” com seus clássicos “lado A”, que obviamente contou com o entusiasmo da platéia.

Todos os presentes saíram com um sorriso de orelha a orelha por saberem que presenciaram uma apresentação digna de um artista quem tem um vasto repertório de muita qualidade e que pode se dar ao direito de fazer uma apresentação sem ter que recorrer aos seus sucessos, e mesmo assim levar um grande e fiel público às duas apresentações neste formato. Que venham mais comemorações dos seus 50 anos, sejam elas “lado A” ou “B”. Agora é só esperar pela “C”, porque se tiver, vai estar todo mundo lá de novo.

Por: Angelo Borba

Foto: Samuel Nervo

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1 Comment

  1. Pedro Capeto

    Grande Nei! Adoraria ter estado no show. Aliás, O Nei me faz ter a impressão de ter nascido no Rio (de Janeiro) errado…

    [Responder]

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