Paul Di’Anno

Em geral, o final da tarde e a noite de domingo são extremamente chatos e entediantes (enquanto Patrícia Poeta e Zeca Camargo apresentam o Fantástico na televisão). Felizmente, não foi assim no último domingo, dia 12 de julho, no Bar Manara, em Porto Alegre. Antes das 21h, a banda Save our Souls já mostrava seu metal melódico ao público que começava a chegar para ver (rever, na verdade) a performance de Paul Di’Anno, ex-vocalista do Iron Maiden, na capital gaúcha. Di’Anno seria, de fato, a salvação da noite.Os gaúchos do Save Our Souls (S.O.S.) fizeram um show de abertura não mais do que razoável. O show começou relativamente no horário, com pouco atraso. O metal melódico do conjunto tem leves toques sinfônicos, sobretudo em função dos teclados em alguns momentos e das vocalizações de Melissa Ironn. A vocalista, na verdade, destaca-se à frente da banda, embora tenha se mostrado um tanto tímida e tenha até se equivocado nos tons muito agudos de algumas músicas. Fundada em 2007, a banda fez um show morno, e precisa ainda de mais experiência e mais estrada. Legal, por exemplo, foi a cover de Pantera que fizeram. Aliás, como a própria vocalista declarou, entre uma música e outra, as covers são justamente o forte da banda. Por pedido da produção do evento, no entanto, foram incluídas músicas próprias no show. Talvez isso tenha apressado o contato da banda com o público e mesmo o processo de apresentação de um trabalho autoral mais maduro. De todo modo, os ânimos já começavam a esquentar.

Em seguida, veio a Scelerata, continuando a preparar os ânimos para o show de Di’Anno logo em seguida. Os músicos da Scelerata são muito bons. A banda não contou com seu vocalista antigo, Carl Casagrande. No lugar dele, tocou um vocalista convidado, Dan Rubin, vocalista da banda Magician. O set foi curto e muito bom, mostrando muita maturidade, muita competência técnica e presença de palco. Grande destaque deve ser dado à cover de “Master of Puppets”, do Metallica. Dan Rubin, assim como os demais músicos, demonstrou boa capacidade de interação com o público. As músicas foram muito bem executadas. Ao todo, cerca de seis ou sete canções. O power metal melódico do conjunto tem influências e ressonâncias de Helloween, Angra e do próprio Iron Maiden. O serviço estava então completo: estavam dadas todas as senhas possíveis para o que viria em seguida. A Scelerata continuaria no palco como banda de apoio do cara mais esperado da noite.

Visualmente, Paul Di’Anno é hoje, aos cinqüenta e poucos anos, uma espécie de Schrek, um ogro extremamente simpático e espontâneo. O cara é puro carisma, é a encarnação da memória recente do metal. Não foram poucos os momentos inesquecíveis: a abertura do show, com “Wrathchild”, mais à frente “Killers”, “Murders in the Rue Morgue”, “Remember Tomorrow” e “Running Free”, que encerrou o espetáculo. No bis, apenas duas músicas. O show encerrou-se, definitivamente, com “Blitzkrieg Bop”. O cara ainda continua muito bem, cantando bem, alternando os tons agudos com as vocalizações mais guturais. Há inclusive a incorporação de um tom mais crossover, aproximando-se muito do hard-core. Aliás, Di’Anno vestia uma camiseta dos Ratos de Porão, evidenciando também o quanto vem inserindo-se na cena da música pesada no Brasil. Di’Anno disse que teve ainda uma esposa brasileira, dois filhos brasileiros, mas que ainda não aprendeu a falar português. Fez brincadeiras com os seus músicos, sobretudo com o guitarrista Renato Osório. Dedicou, inclusive, uma canção ao gordo jogador de futebol Ronaldo Nazário.

Di’Anno parecia estar à vontade. A própria banda lhe dava também muita segurança para soltar-se e divertir-se ao longo do show. As músicas foram, enfim, executadas muito fielmente às gravações originais. Some-se a isso a energia e a vitalidade da execução ao vivo, a boa fase da Scelerata e ainda mais: um Di’Anno empolgado, sem nada a perder, como se estivesse curtindo ainda os bons tempos e as ótimas composições dos primeiros anos do Iron Maiden. Uma fórmula enfim praticamente infalível!

A nota ruim fica por conta da sonorização do show. A todo momento acontecia alguma coisa com o som, sejam as caixas que começavam a apresentar algum tipo de ruído (como se o som do palco estivesse alto demais), seja o microfone principal, do próprio Di’Anno, que dava pane, era jogado ao chão e substituído por outro de qualidade inferior. A precariedade do som do evento, portanto, era visível. De todo modo, nada que comprometesse o brilho da noite.

Embora não tenha se tornado um rockstar no nível de seus ex-colegas de Iron Maiden (que hoje possuem até um avião particular, pilotado por Bruce Dickinson, o atual e mais conhecido vocalista do grupo), é inegável que a trajetória de Di’Anno é muito admirável. À margem do glamour, da fama (e do dinheiro também, claro) que cerca seus antigos companheiros de banda, Di’Anno mantém-se firme, em forma, próximo de seu público e de seu passado, tocando sem ilusões e sem pretensões maiores em lugares pequenos, às vezes até precários. Fazendo muito com pouco, parece não haver nada que o faça parar, desanimar ou desistir. Num determinado momento do show, ele disse: “we never die”. Tomara que seja assim mesmo.

Por: Fabrício Nasser

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2 Comentários

  1. Leonardo Jensen Ribeiro

    Paul Di’anno é “coisa pra gente grande”. Não basta conhecer o Iron Maiden para entender a sua grandeza e importancia na banda, se os shows não lotam, e são em locais pequenos, é uma pena, mas ali com toda a certeza só estão pessoas que sabem o que ouvem e porque ouvem, e que além de conhecer profundamente o estilo, entendem o verdadeiro sentido de Heavy Metal!!!

    Paul Di’anno é uma lenda. E assim sempre será.

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