Jair Rodrigues

Jairo RodriguesNascido em 1939, aos 70 anos de idade e com 50 anos de carreira profissional, Jair Rodrigues apresentou-se no Teatro do Bourbon Country com o show “Festa para um Rei Negro”. O domingo, em Porto Alegre, anunciava mais um dia de frio rigoroso, onde a temperatura registrava nove graus às 19h50min, dez minutos antes do show começar. Apesar disso, o público compareceu em grande número para prestigiar o cantor paulista.

No teatro, Jair Rodrigues subiu ao palco às 20h15min, depois de um pequeno vídeo produzido pelo Festival de Inverno de Porto Alegre. Entrou com um casaco cinza e, após alguns passos, retirou o casaco, ficando com um terno vinho e destacado. Assim, solto, o simpático Jair Rodrigues começou sua apresentação sambando com maestria, com passos dignos de Fred Astaire.

Com seu jeito hiperativo, Jair começou o show com a empolgação característica, fazendo um pout-pourri de clássicos do samba, carnaval e cantigas de roda. Apresentou-se ao público com “bafo da onça”, interpretada por Elza Soares, emendando com “acorda, Maria bonita”, clássico do carvanal, “boi da cara preta” e finalizando a primeira canção com “aquarela do Brasil” de Ary Barroso.

Acompanhado dos competentes músicos Paulinho Dafilin, Marcelo Maita, Giba Favery e Carlinhos Creck, o paulista seguiu com “eu sei que vou te amar” de Vinícius e Tom Jobim, conquistando o público.

Na sequência, já com o público em suas mãos, Jair cantou “você abusou”, de Toquinho, fazendo todos os presentes cantar, em coro, o refrão da música: “você abusou, tirou partido de mim, abusou..”

Transportando o público para um lugar quente, reinventando a música popular brasileira, Jair Rodrigues apresentou os clássicos do samba e da MPB ao seu estilo.  Uma apresentação marcante e recheada de sucessos. Um show que emocionou o público, majoritariamente mais velho, que, entre uma canção e outra, entre um aplauso e outro, enxugava as lágrimas de alegria, provocadas pelas boas lembranças da vida.

Com domínio total do palco, do microfone, da platéia e tudo que havia no local, Jair continuou com “tristeza” e “não deixe o samba morrer”, da Alcione, sempre acompanhado pelo público participativo que cantarolava todas as músicas. Interagindo, brincando, sambando, Jair Rodrigues mostrou que a juventude é o seu ponto mais forte.

A mescla de samba e sucessos da MPB continuou, principalmente, nas músicas que marcaram época nos Festivais. Com isso, “romaria”, “caminhando e cantando”, “madalena”, “deixa a vida me levar” embalaram o público antes de seus maiores sucessos: “disparada”, canção com a qual venceu o II Festival de Música daRecord , em 1966, e “deixa isso pra lá”.

Em cada sucesso o público, acomodado nas cadeiras confortáveis do teatro, aplaudia o cantor com prazer. O prazer do reconhecimento, da satisfação de estar diante de um homem que representa a cara do povo brasileiro, um povo alegre, feliz e talentoso.

Jairo RodriguesO ponto alto do show foi quando Jair Rodrigues homenageou Elis Regina, com quem comandou um programa, O fino da Bossa. Fingindo estar conversando com a cantora, pelo menos com seu espírito, Jair relatou o dia, mês, ano e lugar onde encontrou Elis Regina pela primeira vez. Depois da rápida introdução, sempre com bom humor, pediu o aplauso do povo gaúcho para a pequena notável que, segundo ele, estava ali, ao seu lado, trazendo as boas energias da música. Terminou a homenagem cantando “arrastão” canção que Elis Regina defendeu e ganhou, em 1965, aos 20 anos, o I Festival de Música da Record.

Jair Rodrigues também é considerado, por muitos, como o primeiro cantor que gravou um rap no Brasil. Na música “deixa isso pra lá”, o cantor apresenta um rap sugestivo dizendo: “deixa que digam que pensem que falem/ deixa isso prá lá/vem pra cá, o que quê tem?/eu não estou fazendo nada e você também/ faz mal bater um papo assim gostoso com alguém?”.

Uma apresentação de quase 80 minutos onde o cantor, de Igarapava, interior paulista, mostrou que, na verdade, o nome do show deveria chamar-se “Festa de um Rei Negro”.

Depois da apresentação elétrica, característica própria de Jair Rodrigues, o público ficou com a certeza que a música transcende os anos, as décadas, e aflora, cada vez mais, a juventude que temos dentro de nós. Neste caso específico, dentro de Jair “Carisma” Rodrigues.

Um show emocionante, memorável e quente, apesar do frio, que, neste caso, ficou no lado de fora do teatro.

Por: Silva Júnior

Fotos: Karina Kohl

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