O projeto Unimúsica traz a Porto Alegre o cantor e compositor Lenine

O projeto Unimúsica já ganhou lugar de destaque na cena musical gaúcha por trazer grandes atrações, sejam elas conhecidas do grande público ou não, mas sempre com muita qualidade. Na noite de quinta-feira essas duas características se juntaram, materializadas em um único nome: Lenine.

O artista pernambucano desembarcou em Porto Alegre mais uma vez, em menos de um ano, para fazer uma apresentação muito diferente daquela feita no Bourbon Country em dezembro do ano passado. Naquela noite, a apresentação ficou por conta de Lenine acompanhado de sua banda, que divulgava o recém lançado disco Labiata.

Já na noite de quinta-feira, a temática era outra, e o que vimos foi um apanhado de sua carreira, em ordem cronológica, onde o cantor e compositor nos presenteou com uma apresentação bem mais intimista, onde, por vez e outra, no intervalo das músicas, fazia pequenos comentários sobre como se dera o processo criativo de vários dos temas apresentados.

Eram 19:20 quando Lenine se dirigiu ao palco do Salão de Atos da UFRGS para dar início a sua apresentação, acompanhado apenas de seu violão, uma garrafinha de água e sua estante com o roteiro que seguiria aquela noite.

Começa o show explicando que sua carreira solo teve início com o disco Olho de peixe e foi a partir dele que começou o set list. A primeira foi O último por do sol, composição que marca bem o seu estilo de compor nesse período, início dos anos 90, onde suas músicas eram marcadas com um toque mais nordestino, intensificado nas três que vieram depois, Miragem do porto, seguida de Olho de peixe e finalizando as canções do primeiro disco, Tuarenguê nagô.

Depois de um intervalo de cinco anos é a vez de O dia em que faremos contato, disco que, de fato, tornou Lenine conhecido nacionalmente e que começa a fazer uma ponte entre a música dita “nordestina” e outra mais urbana, com toques modernos e de outros estilos. Não que isso fosse algo inexistente em suas composições anteriores, mas a partir daqui fica mais nítido.

A ponte dá início à segunda etapa do show. Logo depois vem a música que mostrou Lenine para o grande público, Hoje eu quero sair só, que fez os presentes cantarem do início ao fim, mostrando ser esse formato (cantor e público) perfeito para esta música, resultando em uma interação natural entre ambos. Candeeiro encantado vem em seguida e também ficou muito legal, com uma levada bem marcada e Lenine tirando uns sons do violão como se fossem tiros de espingarda, ou alguma coisa do tipo. Terminando essa etapa, tivemos a música que dá nome ao disco, O dia em que faremos contato.

Mais dois anos e meio se passaram e era vez de Na pressão, disco de maior vendagem de Lenine e que confirmou o compositor entre os grandes nomes do cenário nacional. Essa etapa do show já começa com o seu clássico maior: Jack soul Brasileiro, muito bem recebida pelo público, que cantou entusiasmado, como a música pede. Dando uma acalmada no ritmo da apresentação, vem outra obra marcante, Paciência, que no formato voz, letra, violão e público, teve seu ponto forte. Meu amanhã e Relampiano também não passaram despercebidas.

Agora, já em 2001, foi a vez do lançamento de Falange Canibal, onde o conceito de experimentalismo foi levado mais a fundo. A primeira música escolhida para representar esse disco foi Sonhei, com seu compasso bem variado e que mostra a intimidade que Lenine tem com seu instrumento, seguida de O silêncio das estrelas, muito bonita, e Rosebund, que foi responsável por um momento de interação muito interessante, que preparou o terreno para O homem dos olhos de raio X chegar levantando os presentes de novo.

Nas transições entre um álbum e outro, Lenine fazia alguns comentários a respeito do disco. Como os dois seguintes eram gravações ao vivo, In cite e Ácustico MTV, Lenine explicou que o grande tempo entre esses dois discos é fruto do seu objetivo maior em fazer música: viajar pelo mundo tocando-a. E acrescentou que eram discos ao vivo, mas com algumas músicas inéditas, como a maravilhosa Do it, tocada com a mesma energia registrada no CD, seguida de Virou areia e terminando com uma composição do acústico, Lá e cá.

Chegando ao término da apresentação e com 20 músicas já tocadas, foi a vez do filho mais novo se fazer presente, Labiata seria o último álbum da noite. Este disco, que talvez traga as músicas mais densas e pesadas da carreira do compositor e que mais tiveram seus arranjos adaptados para esse show. Ótimos exemplos são as três canções executadas na sequência final do show, a começar por Magra, com seu ritmo meio hipnótico, É o que me interessa, que ao vivo ficou belíssima, e fechando com a mais famosa e trilha da novela global (que aliás eu nunca entendi o motivo, haja visto que a letra não tem nada a ver com a personagem da qual ela é tema) Martelo bigorna, que deu término a cronologia de discos lançados até agora pelo pernambucano.

As passagens de Lenine por terras sulinas é tão rara, que o público não parou de chamá-lo ao palco para o tão famoso bis. É claro que ele voltou, mas avisando que os discos tinham acabado, e que não tinha mais repertório, sendo essa a melhor piada da noite. Veio então Leão do norte, que fez o pessoal levantar das cadeiras e se embalarem ao ritmo desse frevo do disco Olho de peixe. Após, tivemos uma embolada entre público e cantor, que de fato foi a despedida da noite.

Os gaúchos agradecem ao projeto Unimúsica por trazer este e outros grandes artistas num formato mais intimista e próximo do público. E vale lembrar que o ingresso para as apresentações era um 1kg de alimento, valor simbólico se comparado ao imenso talento desse artista que se chama Lenine.

Por: Ângelo Borba

Fotos: Samuel Nervo

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