Porto Alegre em Cena – La Douleur

laNa chuvosa noite de sexta-feira (11/09), a imensa fila que sinuosamente preenchia o átrio do Theatro São Pedro era um forte indício de quão esperada era aquela última apresentação de La Douleur.

Quando finalmente entramos, deparamo-nos com a atriz Dominique Blanc já no palco, de costas para o público e imóvel, integrada harmonicamente a um cenário minimalista, composto de uma fileira de cadeiras, de um lado do palco, e uma mesa com cadeiras e uns poucos objetos, do outro. O “vazio” daquele palco, também sem as tradicionais cortinas pretas que cobrem seu fundo (em função da projeção das legendas), precisava ser preenchido de alguma forma, e foi.

O belo texto de Marquerite Duras, escrito na forma de diário, relata os dias de angústia e dor (douleur) vividos por ela nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, enquanto espera por alguma notícia sobre seu marido, Robert L., preso em um campo de concentração nazista.

O comovente relato perpassa todos os seus pensamentos, suas fantasias, num exercício constante de imaginar o que possa ter acontecido a seu marido: ele poderia bater à porta a qualquer momento; poderia estar morto em uma vala (como milhares, e ainda assim sozinho); qual teria sido seu último pensamento… O que fica evidente é a aflição da espera, ela é a razão maior de seu sofrimento. Prefere a dor da certeza, pois esta apaziguaria a tortura do desconhecimento.

Na França libertada do jugo nazista, a vida vai voltando ao normal, as pessoas voltam a andar calmamente pelas ruas e o presidente, Charles De Gaulle, sente-se a vontade de proferir a frase que Duras classifica como criminosa: “Os dias de choro passaram, os dias de glória voltaram”. Não para milhares de pessoas.

Peregrinava à estação Orsay, onde regressavam os deportados, em busca de seus nomes. Divulgava-os através de um jornal aos familiares que, como ela, penavam a procura de notícias. Mas o nome que tanto esperava insistia em não aparecer.

Quando predominavam em seu imaginário as cenas e circunstâncias da morte de Robert L., eis que finalmente o telefone, que tantas vezes, sentada no divã, esperou tocar, toca. Recebe a notícia tão aguardada e já desacreditava, seu marido estava vivo, mas muito enfraquecido e doente.

Segue então o relato da espera pelo retorno do marido e a aflição pelas notícias nada animadoras sobre seu estado de saúde. O reencontro é marcado pelo choque de deparar-se com um homem transformado, tanto física como psicologicamente, só reconhecendo-o pelo sorriso em seus olhos.

Durante 17 dias, Robert L. lutou contra a morte. Ao final, a febre cede, a disenteria começa a dar sinais de recuo, seu organismo se recupera lentamente. E assim, termina o texto, não com um “felizes para sempre”, mas com o fim de dias de angustiante espera e a recuperação de uma vida já desenganada, que mesmo em deplorável estado, era o que Duras tinha de mais belo e mais amado.

Um maravilhoso espetáculo, brilhantemente protagonizado por Dominique Blanc e dirigido por Thierry Thieu Niang e Patrice Chéreau (que, aliás, estava no camarote ao lado do meu, pena o meu francês ser muito amador) que nos mostra como a tão propalada civilização européia, berço da racionalidade e da “raça superior” foi capaz de protagonizar cenas de pura perversidade e insensibilidade, demonstrada também pelos aliados.

Por: Aline Cadaviz

Foto: Divulgação

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