Porto Alegre em Cena – Neva

nevaNo pequeno Teatro do Sesc, repleto naquela última apresentação da peça  Neva (12/09), presenciamos o desenrolar de uma polêmica. O público que saía da sala se dividia entre elogios e críticas ferozes. Não percebemos críticas com relação à técnica, à direção ou à atuação dos três atores, mas sim à mensagem transmitida pelo texto. De fato, um tema muito inquietante, principalmente para a classe teatral.

O negro e o vermelho monopolizaram o palco, representando bem o clima que se desenrolaria ali em cima. Sarcasmo, desdém, inveja e ressentimento permeiam os intervalos do ensaio de três atores na São Petersburgo de 1905, às margens do Rio Neva. Seus jogos interpretativos exaltam um mundo próprio, fechado, em que disputas de vaidades são os laços que os ligam, numa valorização extrema da importância de sua arte, alheia aos conflitos prementes do mundo extramuros.

Olga Knipper é uma atriz consagrada internacionalmente, extremamente dedicada ao teatro e que vive uma crise: seu marido, um grande diretor teatral, está internado em um sanatório alemão, definhando em virtude da tuberculose, muito longe dos holofotes do teatro. Essa situação, na visão de Olga, macula a sua imagem de atriz perfeita. Ela se alimenta de representações sobre todas as coisas, inclusive sobre como teria sido a cena de quando recebeu a notícia da morte do seu marido.

Acompanhada de outros dois atores, Alexander e Masha (que vive ouvindo os insultos de sua companheira mais experiente), travam longas discussões sobre técnicas teatrais, ao mesmo tempo em que a Rússia passava por um período de crise social, em que as pessoas lutavam pelo seu direito de poder sobreviver, diante da enorme repressão czarista.

Tudo na peça é representação, por mais redundante que esse comentário pareça. O espectador nunca sabe o que vai se revelar no diálogo seguinte, se a platéia responderá com risos ou olhares sério. Somos levados a crer, de forma magistral, diga-se de passagem, que estamos diante de um simples ensaio de uma peça, onde os atores representam sem nenhum compromisso, inclusive entre eles.

O texto evolui em forma de uma comédia inteligentíssima, até que, chegando ao final do espetáculo, depois de muitos risos, o clima se torna tenso em virtude da veemente discussão sobre a iminência de uma revolução popular. Este tema, que até então foi tratado superficialmente entre os diálogos nos intervalos do ensaio, toma vulto e explode diante da omissão e alienação de Olga e Alexander. Neste ponto, somos surpreendidos com o monólogo de Masha. Aquela que, até o momento, era subestimada pelos companheiros de palco surpreende tanto a eles quanto ao público pela lucidez de seus pensamentos e por sua compreensão do contexto único que viviam.

As críticas mordazes que Masha lança sobre seus companheiros não afetam apenas a eles, mas a toda uma classe artística que, de tão absorta em seu universo teatral, de aplausos e egos inflados, desconhece ou prefere não se envolver em questões que exigem ações práticas, tomadas de posições e riscos àquilo que mais veneram: a sua imagem. Em resumo, a peça, nos seus últimos minutos, dá uma guinada de 180º, enfocando no poder transformador que alguns membros da classe artística acreditam possuir pelo simples fato de subirem ao palco, esquecendo que a vida de verdade nas ruas, das pessoas de carne e osso obedece a uma lógica muito mais cruel do que os jogos de cena. E é justamente esse questionamento que a peça traz que provocou, e ainda vai provocar, muita polêmica e divisão de opiniões por parte do público. Aqueles que acreditam que a arte, sozinha, vai ser responsável por uma grande transformação social, se sentem ofendidos. Já a outra parcela de espectadores, da qual fazemos parte, fica muito surpresa por esta crítica vir de cima do palco, e é isso que torna a peça fantástica e, acima de tudo, lúcida.

Por: Aline Cadaviz e Angelo Borba

Foto: Divulgação

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