Porto Alegre em Cena – Kiss Bill

kiss BillPor que fazer isso com Bill?

Quando um espetáculo é convidado para abrir um grande festival de teatro, inúmeras expectativas caem sobre ele. Ainda mais quando ele pretende ser uma paródia de um aclamado filme como “Kill Bill” e uma homenagem a um dos cineastas mais representativos do cinema independente norte-americano como Quentin Tarantino.

Esperando Kiss Bill

Os ânimos da platéia do Teatro do Bourbon Country estavam exaltados com a expectativa da estréia do espetáculo canadense. A montagem é da companhia Pigeons International e conduzido pela diretora e coreógrafa portuguesa Paula de Vasconcelos. O objetivo da obra é representar um pouco do universo do cineasta Quentin Tarantino: A violência sangrenta, a verborragia, a cultura pop, a referência oriental e a cronologia fragmentada que permeiam todos os filmes do diretor. Todas essas características eram fatores que esperávamos assistir em “Kiss Bill”. Na obra de Vasconcelos até podemos perceber tais elementos, todavia eles estão presos dentro de uma redoma de ingenuidade que em nada lembra Tarantino.

Logo de início, o espetáculo apresenta um divertido diálogo entre o personagem Quentin Tarantino e sua secretária a respeito de seus milhares de compromissos agendados. Ok… Até aí qualquer profissional requisitado poderia ser substituído pela figura de Quentin. Enfim. O humor da conversa é quebrado pela primeira coreografia. Na trilha sonora, claro, músicas do filme. Essa seqüência sintetiza como serão as próximas cenas da primeira parte do espetáculo. Sim, a obra se divide em duas peças distintas. Essa divisão é interessante e representa uma forte referência à fragmentação dos filmes do cineasta. Todavia, o sarcasmo ingênuo e as quebras do primeiro ato são totalmente diferentes da linearidade e classicismo estético do segundo ato. Aliás, o segundo ato em nada lembra Tarantino.

Apontamentos Fragmentados

A obra apresenta partituras e coreografias que nos despertam a sensação de que já vimos àquilo anteriormente em algum outro espetáculo de dança. A trilha sonora infelizmente é repetitiva, causando a impressão de que a companhia tinha apenas algumas músicas como fonte de criação sonora. O “Don’t Let Me Be Misunderstood” de Santa Esmeralda, por exemplo, repete-se em duas ocasiões já no início do espetáculo, enquanto outras preciosidades da trilha do filme sequer são lembradas. A luz na maioria das vezes é geral e sem graça. O jogo de sombras da cenografia da primeira parte é pouco explorado. Os bailarinos no palco em alguns momentos parecem perdidos em um universo que se esforça em ser sarcástico. Durante as quase duas horas de espetáculo – que parecem durar uma eternidade – Vasconcelos tenta imprimir uma ironia que não parece natural. Ao final da exibição, os bailarinos e o intérprete de “Bill” parecem arrastar-se e o público aguarda efusivamente o tal “kiss” do título, fator que denota o término do espetáculo… Em outras palavras: ir embora.

No final, o que se leva é a tentativa da representação através da dança e do teatro de um dos filmes mais destacados do cinema autoral norte-americano. Em tempo, o ponto mais alto do espetáculo infelizmente é apenas o cenário exuberante e o número de canto a capela de Sylvie Moreau com “Bang Bang (My baby shot me down)”. Era isso.

Por: Yheuriet Kalil

Fotos: Angela Alegria / PMPA


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