Porto Alegre em Cena – Le Grand Inquisiteur

Le Grand InquisiteurOs dias chuvosos marcaram essa primeira semana do Porto Alegre Em Cena. Mais uma vez, apesar das intempéries, o Theatro São Pedro estava lotado. Mais uma vez, Patrice Chéreau. Mais uma vez? Não. Todas às vezes são únicas, extraordinárias (mesmo que no sentido denotativo). E nesta temporada tivemos Patrice Chéreau em dose dupla: dirigindo o espetáculo La Douleur, apresentado semana passada neste mesmo teatro, e dirigindo e atuando em Le Grand Inquisiteur, peça extraída da obra “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski.

A história pode não ser novidade para alguns, tanto aqueles que leram a obra como quem assistiu à montagem na edição anterior do Em Cena. O fato é que, como muitos daquela imensa platéia, não tive a oportunidade de assisti-la ano passado, já que seus ingressos se esgotaram nos primeiros minutos de venda. Assim, mesmo que esse texto pareça piada repetida, permitam-me expressar minhas humildes impressões de um espetáculo tão aguardado.

Cenário simplista parece ser característico das montagens dirigidas por Chéreau. Assim como em La Douleur, no palco estão apenas uma ampla mesa e cadeiras, o resto fica por conta dos atores. Patrice entra sem cena sem figurino ou qualquer adorno em especial, apenas com o roteiro do espetáculo nas mãos, rasurado com diversos apontamentos. Sim, ele lê as falas. Não o tempo todo, mas com certa freqüência. Alguns comentários que escutei na saída do teatro falavam em despreparo (?!). Ora, convenhamos, despreparo não parece ser o melhor argumento para explicar a presença do roteiro em cena. Lembremos que a peça é uma leitura, o que justifica o texto em mãos. O que se deveria avaliar é a carga dramática que o ator/diretor emprega na leitura, e não se ele decorou todas as palavrinhas.

Leituras sobre a leitura à parte, vamos à peça: o texto começa falando sobre maldade e sofrimento. Crianças barbaramente maltratadas, despedaçadas por cães, cavalos açoitados incessantemente. O sofrimento é inerente à vida, mas quando atinge inocentes, é incompreensível.

Partindo dessa ideia, desenrola-se a Lenda do Grande Inquisidor. Na Sevilha do século XVI, centenas de hereges queimavam em fogueiras pelas praças da cidade, vítimas da Inquisição. Eis que, por entre sofrimentos solitários e a vida que prossegue normalmente, surge a figura de Cristo, logo reconhecida entre os populares. A multidão que se forma para vê-lo de perto e presenciar seus milagres chama a atenção do inquisidor local, um cardeal nonagenário que imediatamente ordena a prisão de Cristo.

No cárcere, o inquisidor logo profere: Jesus será executado na manhã seguinte. Diante do silêncio angustiante do prisioneiro, seu juiz faz revelações que, mesmo os mais rasos entendedores, sentir-se-iam atingidos em algumas de suas mais concretas convicções.

A figura do cardeal, enquanto representante da Igreja, expõe princípios da moral cristã de maneira clara e direta, evidenciando sua função controladora e ordenadora. Didaticamente, o texto explica como dogmas religiosos são forjados com o intuito de manter seus cordeiros obedientes e juntos ao rebanho.

Sendo o ser humano rebelde por natureza, seria necessário cercear sua liberdade, sendo esta perigosa para a manutenção da ordem. Daí é  feita a distinção entre o pão terreno (fé, mistério, obediência, servilismo, medo) e o pão celeste (liberdade, livre-arbítrio, amor). E deste pão terreno se alimentavam os homens na Espanha inquisitorial.

Diante da fragilidade e insignificância humana, o governo deveria ser exercido pelos fortes, por aqueles que se diferenciam da regra, àqueles que abandonaram Cristo para servir a ele (diabo). Seu governo se fundamentava em explorar as fraquezas mais manifestas dos homens: sua necessidade de crer veementemente em algo que explique, mesmo que metafisicamente, aquilo que ignora; sua ânsia de encontrar algo em que todos acreditam, de se sentir pertencente; sua acomodação; seu receio em tomar em suas mãos o destino de sua vida; seu medo de sofrer.

A resposta da Igreja a todas essas inquietações se resume ao milagre, ao mistério e ao domínio. Assim, guiando suas vidas e tomando decisões em nome de deus e dos homens, esta instituição garantiria a felicidade da humanidade. Uma felicidade cega, submissa como uma criança, livre das angústias mais prementes, perfeita.

Através da Lenda do Grande Inquisidor, Dostoievski explora a temática existencialista, criticando enfaticamente não apenas as religiões, mas a própria religiosidade, responsável por aprisionar a alma criativa e crítica dos indivíduos. Preceitos religiosos e morais são postos em xeque numa situação inusitada: durante o interrogatório do réu, quem confessa é o juiz. E suas confissões são nítidas, sem meias palavras, como um desabafo orgulhoso e triunfante.

Apesar de escrito há 130 anos, o texto impressiona por sua contemporaneidade, visto que nem toda racionalidade e conhecimento frearam o poder devastador do fanatismo religioso (dos homens-bomba à proibição do uso da camisinha) e a descrença na autonomia humana. Talvez parte do público tenha saído do teatro apenas satisfeito por ter assistido a uma peça internacional, criticando o “despreparo” de Chéreau, sem ser atingido por sua mensagem. Acontece. Mas entre o pão terrestre e o pão celeste, fico com o segundo.

Por: Aline Kassick Cadaviz

Foto: Divulgação

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