Porto Alegre em Cena – Simplemente el fin del mundo

Simplesmente el fim del mundoMais uma noite de chuva no Porto Alegre Em Cena. Chego ao teatro em cima da hora. Na fila, a produtora do espaço fala que algumas cadeiras se encontram no palco e pede para nos sentarmos ali. A maioria do público ignora a mensagem e se acomoda na platéia. Eu e outras seis pessoas sentamos nos assentos que se encontram no palco. Nesse local, quatro atores também estão sentados em cadeiras. Entretanto, elas possuem o encosto mais alto e um pequeno travesseiro para acomodar a cabeça. Em cima das cadeiras, lâmpadas em que o ator pode acender e apagar a luz através de uma corda. Isto é, os atores encontram-se “deitados” em suas camas, cada um em seu quarto. Eu sento ao lado do ator que representa Antonio. Estou ao lado de sua cama e me torno testemunha das frustrações daquele grupo de pessoas. Certamente esse é o ponto mais interessante do espetáculo: a ótica de assistir aos embates familiares do ponto de vista de um vizinho, de uma testemunha que está ao lado do ator. Imagino que quem estivesse sentado na platéia iria perder esse grande artifício do espetáculo.

Baseado na obra de Jean-Luc Lagarce, “Simplemente el fin del mundo” tem a direção de Manuel Enrique Orjuela Cores, que conduz o espetáculo sem demasiadas concessões ao público. O que se vê é um drama familiar naturalista. Com movimentos cotidianos e sem partituras, a obra tem um texto forte de falas rápidas e contundentes. Entretanto, a contundência se perde em vários momentos devido ao gestual em demasia por parte do elenco. Gestos, algumas movimentações e elementos do cenário sublinham a dramaturgia. Como a pequena cadeira preta na qual o protagonista Luis dá seus monólogos. Ela é pequena para evidenciar a sensação do personagem ao se expor naquele assento menor que as outras cadeiras. Ao longo do espetáculo, o protagonista vai tirando peças de seu figurino até se desnudar por completo. Através desse artifício, o diretor exagera tentando fragilizar uma figura que já demonstra fragilidade, já que Luis volta para o seio familiar por ter contraído uma grave doença. Dessa forma, a nudez sublinha uma fraqueza já demonstrada.

Um ponto interessante do espetáculo são as três dezenas de lâmpadas que decoram e iluminam o palco, no caso, a casa onde mora essa família. No entanto, elas poderiam ter sido mais utilizadas. Em síntese, a obra possui atuações sinceras e diálogos fortes, apresentando o estranhamento que pode existir entre parentes tão próximos. Um tema batido, mas com um texto que não consegue se tornar clichê. A dramaturgia frenética e compulsiva torna o espetáculo contundente. Todavia, é uma pena que o diretor não tenha encenado um espetáculo mais claro e objetivo.

Texto: Yheuriet Kalil

Foto: Divulgação

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