O espetáculo “Qualquer coisa de intermédio” de Adriana Calcanhotto

Adriana CalcanhotoTerça-feira foi mais uma noite especial neste 16° Porto Alegre Em Cena em virtude da apresentação de um projeto interessantíssimo, até o momento apresentado uma única vez, há mais de dois anos: o espetáculo “Qualquer coisa de intermédio” da cantora e compositora Adriana Calcanhotto. Nele a temática portuguesa daria a tônica do show, seja ela em forma de poesia ou canção. Originalmente foi baseada em textos do poeta português Mario de Sá Carneiro, mas que, para este festival, ganhou uma nova roupagem, ficando mais abrangente no seu sentido lírico e musical.

Tivemos no início da apresentação a leitura de um poema da época dos trovadores portugueses, mas em forma cantada e num estilo meio canto coral, que acabou por dar uma noção errada do que seria a apresentação. Confesso ter achado que seria algo extremamente cansativo, visto que aquele primeiro número teve quase dez minutos. Porém, mesmo continuando por terras portuguesas, a apresentação entrou na temática dos textos de Mário de Sá, que possuem uma aura muito pesada, sendo diretamente este aspecto refletido nas canções que deram corpo aos poemas, destacando-se a belíssima Quando eu morrer.

O público aplaudia todas as canções e reagia de forma contida, como quem já tivesse presenciado alguma apresentação da cantora e esperasse por uma de suas canções famosas, mas nesse momento não fazia a mínima ideia do que estava por vir, e de fato não poderia imaginar. Mesmo tendo sido divulgado que a cantora portuguesa Mísia iria fazer uma participação no show de Adriana, os presentes em grande parte, e aí eu me incluo nessa parcela, não faziam a mínima noção do poderio que tinha aquela voz. Ao som de O corvo, Mísia sobe ao palco do Theatro São Pedro e faz todos ficarem boquiabertos com sua exuberante voz. Essa música que originalmente é um fado se transformou, para essa apresentação, em um samba, e o resultado parece ter agradado a portuguesa, que ainda permaneceu no palco para cantar mais uma do seu repertório, Paixões diagonais e O outro, música de Adriana que contém no seu verso o título que dá nome ao espetáculo, e que foi sua primeira aproximação com a obra do poeta Mário de Sá Carneiro, há mais de dez anos.

O palco então foi deixado pelos músicos para que Mísia executasse à capela a triste Lágrima, composição famosa  da portuguesa Amália Rodrigues, levando os presentes a aplaudirem de maneira fortíssima o talento dessa cantora, até agora, pouco conhecida no Brasil. Por enquanto.

Quando Adriana Calcanhotto volta ao palco com os músicos, o clima do show começa a mudar gradativamente. Atravessando o Atlântico e vindo parar em terras brasileiras, tivemos uma música nova, mas que até agora só foi apresentada ao vivo na sua última turnê, Poética do heremita contou ainda com Adriana se arriscando em um cello, e o clássico Os argonautas, de Caetano Veloso, Que no verso “… navegar é preciso, viver não é preciso…” fez a transição para a temática “brazuca” da apresentação. Logo após tivemos Tanto mar, de Chico Buarque e o samba arrasta multidão Imperador do samba, imortalizado na voz de Carmem Miranda.

Era chegado o fim do show, mas ainda havia tempo para um bis, na verdade três. Começando pela única música que, diferente de todas as outras, não tinha nada a ver com a proposta do show, Três, do último álbum da cantora, seguida de O corvo, novamente com participação de Mísia, que desta vez até arriscou uns passinhos de samba junto com Adriana. E quando todos já aplaudiam de pé achando que o espetáculo findara, foram surpreendidos por mais uma canção, muito misteriosa, pelo menos pra mim, pois fui à procura de descobrir que música era aquela e não teve jeito, não achei nada. Seria uma composição nova?

Ah, e por falar em novidades: Adriana adiantou, em primeira mão, que tinha terminado a gravação de um segundo disco Partimpim dois dias antes desse espetáculo. Ela comentou que sua assessora de imprensa não gostaria nada daquele comentário, mas não teve jeito.

Ao final da apresentação todos pareciam ter saído de alma lavada daquela singular apresentação da cantora, mas é ela mesma quem melhor define esta noite: “Estamos muito felizes de ter recebido este convite do Em Cena para apresentar este espetáculo, pois passamos um bom tempo idealizando-o para apresentarmos uma única noite e depois tudo se acabar.” E nós, gaúchos, tivemos a oportunidade de presenciar um show belíssimo, que mesmo não contando com nenhum hit da cantora, soou em vários momentos bem mais espontâneo e envolvente que suas apresentaçõs habituais e ainda por cima conseguiu fazer com que os presentes pudessem sentir um pouco da atmosfera e riqueza que possui a música portuguesa, na voz de uma grande cantora brasileira.

Por: Ângelo Borba

Fotos: Luciano Lanes/PMPA

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1 Comment

  1. Guilherme Nervo

    Esse dia foi de uma embriaguez que remetia à rosas vermelhas e hortaliças azuis.
    Permanece agora o mistério da música qual o nome desconhecemos, rs.

    [Responder]

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