A MPB rica e misturada de Vanessa da Mata

Vanessa_da_Mata2Um dia antes das comemorações do dia 20 de setembro, data do início da revolução farroupilha, há 174 anos, os gaúchos, que lotaram completamente as dependências do teatro Bourbon Country, se renderam diante de uma forasteira, a mato-grossense Vanessa da Mata.

Quando o ponteiro marcou 21h10min, após uma breve apresentação da banda, dos técnicos e de todos que trabalharam no show, feita por uma voz invisível, as cortinas do teatro se abriram. Com isso, a primeira surpresa agradável foi o cenário. Espetacular.

Enraizados no palco, do chão até o teto, galhos secos traçavam um panorama interiorano, rural, da mata nordestina. Eram três ramos de galhos, um de cada lado e outro no meio do palco. Nas suas ramificações, rosas amarelas brotavam na natureza seca. E a iluminação do show destacava ainda mais o cenário que já estava bonito.

Contudo, a maior surpresa estava no palco. Vanessa da Mata surgiu com um vestido longo, amarelado, combinando com as rosas do cenário. Seus pés estavam descalços, o que anunciava que ela queria estar à vontade. Um buque de flores, no pedestal do microfone, dava o toque final na paisagem. A cantora entrou e foi direto ao microfone para começar o show do álbum “Multishow ao vivo”.  Iniciou com “Baú”.

Na seqüência, sem pestanejar, cantou “Vermelho”, um belo reggae.  A iluminação, que começou no roxo, na música, obviamente, mudou para um tom avermelhado, trazendo outra cara para aqueles galhos secos, deixando o palco mais quente, sensual.

Além disso, a iluminação vermelha combinava com seu batom e a rosa, da mesma cor, localizada na orelha esquerda da cantora.  Bela música que, no final, teve um pouco de Bob Marley em “Satisfy my soul”.

O show estava apenas começando e o público, que lotou cadeiras, mezanino e afins do teatro, parecia hipnotizado diante da menina de Alto Garças, interior do Mato Grosso.

A terceira música, na corrida, foi “quando um homem tem uma mangueira no quintal”. Na canção, no trecho em que diz: “..E nessa boa moita/assanhada demais”, a cantora mexeu nos seus cachos e sorriu para o público, mostrando sua graciosa malícia.

Sem parar para conversar com a platéia, Vanessa bebeu um pouco de água e emendou mais uma, um carimbó dançante, ritmo do norte do país, onde, no meio da música, chamou o público nas palmas e foi inteiramente correspondida. Dançava no ritmo da música e rodava o seu vestido amarelo, como seu fosse uma típica baiana.

Antes da quinta música, mais solta, Vanessa da Mata falou com o público pela primeira vez. Ela agradeceu os responsáveis pelo teatro, o público presente, e disse que estava feliz por apresentar seu show novamente em Porto Alegre.

Em seguida, anunciou a sua banda composta por Donatinho, nos teclados, Kassin, no baixo, Gustavo Ruiz, na guitarra, e Stephane San Juan, na bateria.

Depois dos aplausos do público, continuou a conversa dizendo que sempre cantava, muito, apenas suas canções nos shows e que, nesta apresentação, iria aproveitar para homenagear outros compositores.

Dessa maneira, cantou uma música de Fernando Catatau chamada “Perfume barato”. Prosseguiu cantando “A lua e eu”, composição de Cassiano, sendo aplaudida logo no início, nos primeiros versos, quando o público reconheceu a música.

Sentindo-se confortável no palco, em “Ainda bem”, Vanessa sentou no chão e pediu que o público cantasse. Num ambiente intimista, ficou observando os presentes cantarem a música que é uma parceria com Liminha.

Já em “Amado”, outra do álbum Sim, base deste cd ao vivo, o público continuou fiel, cantando, e a mato-grossense se deslocava soberana no palco do Bourbon Country. A apresentação ainda teve “fugiu com a novela”, “pirraça” e “Joãozinho”, essa última, do seu segundo cd. Uma versão bem-humorada da mulher que alisa o cabelo e sofre com as conseqüências climáticas..

Encaminhando-se para o final do show, Vanessa cantou “Eu sou neguinha?” e “Último romance” composição de Rodrigo Amarante, ex- Los Hermanos e, atual, Little Joy. Depois, agraciou o público com “Boa sorte/ Good luck”, onde o músico Donatinho, com ajuda de seu teclado eletrônico, fez às vezes de Ben Harper.

No final da canção, brincou com seu tecladista, dizendo que tinha vontade de colocá-lo em um vidrinho e levá-lo para casa.

Em “Ilegais”, Vanessa pegou um apito muito louco e fez até solo com ele. Diria até que é um mini-mini saxofone ou trompete, ao gosto do cliente. A cantora terminou, antes do bis, pedindo que o público ficasse em pé para cantar “Não me deixe só”. Eram quase 22h30min quando ela encerrou, com o bis, uma apresentação impecável. Foi aplaudida de pé.

Um cenário espetacular, uma banda de qualidade e uma cantora com voz afinada, doce, no agudo, e no melhor sentido das palavras. Showzaço. Com tudo isso, o público, majoritariamente adulto, com certeza saiu do teatro rendido diante da forasteira, em plenos festejos da revolução farroupilha.

De qualquer forma, uma coisa é certa: De cantoras talentosas o Brasil está bem servido. E atenção Brasília-DF: dia 26 de setembro é com vocês a parada. Vanessa da Mata faz parte da turma que representa a nova música popular brasileira. A nova geração, simples e sofisticada, rica e misturada.

Por: Silva Júnior

Fotos: Karina Kohl

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4 Comments

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  2. Silva Júnior

    Queria fazer um pequeno registro: Esse é o quinto show que tenho o prazer de relatar para os leitores do site, amantes da música. Antes havia sido The Wailers, Skatalites, Jair Rodrigues, Céu e, agora, Vanessa da Mata.

    Sempre fui bem recebido nos lugares onde aconteciam os shows e isso, claro, se deve ao reconhecimento e competência do site.

    Fico feliz em participar desse espaço, talvez, o único no Brasil, de resenhas “pós-show” para contar como ocorreram as apresentações para aqueles que não foram e eternizar na memória, para os que foram, esse momento.

    Parabéns ao POASHOW pela originalidade e ousadia. Tenho certeza que falo em nome de todos que participam dessa grande ideia. Parabéns e vida longa..para sempre.

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