Porto Alegre em Cena – Antes do Café

Antres do CaféNo domingo à noite (20/09) dispensamos as enfadonhas comemorações farroupilhas para celebrar o teatro, novamente. Para esta última apresentação da montagem de Antes do Café, de Eugene O’Neil, dirigida por Celso Frateschi, o público preencheu sinuosamente o saguão de acesso ao Teatro Bruno Kiefer.

Parada na fila, a observação do local se tornou inevitável, chamando a atenção à iluminação direta, além das mesas, cadeiras e molduras dispostas em cada uma das extremidades daquele saguão. O que a princípio causou estranhamento parecia se justificar pela presença de duas galerias de arte no mesmo andar. Talvez fosse uma exposição de arte contemporânea… Mas não era.

Próximo à hora do espetáculo, se misturam ao público algumas figuras exóticas, sorridentes, misteriosas. Logo percebemos se tratar de atores, mas a compreensão do que realmente acontecia só fomos ter dentro da sala. O fato é que a peça começou a se desvelar ainda do lado de fora, na fila, em contato direto com o público.

Os dois primeiros atos representados no átrio marcaram o distanciamento e o conseqüente conflito entre dois modos de vida: o boêmio, poético e despreocupado e o ressentido, desiludido e apegado à realidade material. Homem e mulher. Marido e esposa. Entre eles nenhum diálogo, apenas uma contenda unilateral tão pungente quanto o silêncio.

A distância entre o casal se reflete em discussões sobre a desocupação do marido e suas traições. Neste caso, a traição abrange vários níveis de suas vidas, não se restringindo apenas às relações extraconjugais. Estas são conseqüência da desilusão, da quebra de promessas, da convivência que descortina faces, da perda de esperanças, da quebra de sonhos. Essa sim é a principal traição. E ela ocorre em ambos os lados, num choque violento entre pontos-de-vista quanto ao modo de vida, ali exposto na forma do antagonismo entre a labuta mourejada e a convivência entre copos e poesias.

Nesta comédia dramática com toques de tragédia havia apenas dois personagens no palco, mas quatro atores em cena. O papel feminino foi representado por três atrizes que ora prosseguiam ou entrecruzavam as falas, ora executavam a mesma fala com interpretações distintas. No entanto, a percepção que o público tinha era de que se tratava de uma única mulher, ensandecida pela sua relação marital e que, no ápice de sua fúria, parece se multiplicar por três. Uma situação bem, conhecida por qualquer casal.

A figura feminina predomina a maior parte do tempo, reclamando e cobrando compulsivamente, enquanto o marido permanece calado, visível apenas através dos comentários jocosos que permeiam o monólogo. Sua presença só é ressaltada no primeiro e no último ato, quando manifesta seus pensamentos (e, de certa forma, suas justificativas).

O papel feminino, marcado pela histeria e pela amargura de uma vida sofrida, contraposto pelo desapego e pela liberdade masculina, não explicita, necessariamente, características inerentes a cada gênero. Antes disso, revelam os conflitos de prioridades diante da conjuntura econômica da época (década de 20, Estados Unidos, crise econômica) e levam os expectadores a conhecer os argumentos e aflições dos dois lados, não caindo em determinismos do tipo “bom” e “mal”. São pessoas enfraquecidas pela rotina e pela falta de perspectivas que exteriorizam suas frustrações de modos distintos, cometendo atos puramente humanos e levando o público a se reconhecer em alguns momentos.

Uma temática densa que, pelo menos em alguns pontos, se assemelha a situações enfrentadas por cada indivíduo, ressaltando que sempre poderíamos ter feito tudo diferente.

Por: Aline Kassick Cadaviz

Fotos: Angela Alegria POA Em Cena/Divulgação PMPA


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1 Comment

  1. Sylvia

    Oi Aline
    que bom que tem gente séria comentando teatro.

    Gostariamos de colocar a crítica do espetáculo no nosso site do Ágora Teatro.

    Muito obrigada.
    Um abraço e fico aguardando a tua resposta

    Sylvia Moreira

    [Responder]

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