Porto Alegre Em Cena – Quartett

QuartettO espetáculo francês  “Quartett”, atração que encerrou a 16ª edição do Porto Alegre Em Cena, não teve simplesmente quase duas horas de duração, mas aproximadamente um ano. A montagem teve início na verdade há alguns meses atrás, quando a peça foi confirmada como sendo uma das atrações para a programação do festival desse ano. Pelo simples fato de reunir três reverenciados nomes da arte contemporânea (Heiner Müller, Bob Wilson e Isabelle Huppert), os ânimos de todos os apreciadores de performances de vanguarda estavam exaltados para a apresentação.

Quartett trouxe ao público gaúcho finalmente a oportunidade de assistir a uma obra assinada por Bob Wilson, diretor que também trabalha como coreógrafo, iluminador e sonoplasta. Wilson é conhecido por seus trabalhos em colaboração com Philip Glass em “Einstein on the Beach”, assim como com o poeta Allen Ginsberg e os músicos Tom Waits e David Byrne. Suas peças são respeitadas nos palcos do mundo inteiro como experiências inovadoras e de vanguarda. Além disso, o espetáculo trazia a beleza e talento da atriz francesa Isabelle Huppert, vencedora do prêmio de melhor atriz nos festivais de cinema de Berlim (2002), Cannes (1978 e 2001) e Veneza (1988 e 1995). Huppert é mais conhecida do público brasileiro por seus atormentados personagens no cinema, como a protagonista de “Madame Bovary” (1991) e “A Professora de Piano” (2001). A montagem de Quarttet foi feita sob encomenda do Odeon Théâtre de l’Europe, um dos mais importantes de Paris, onde fez temporada em 2006 e 2007.

Quartett é uma adaptação do dramaturgo alemão Heiner Müller ao romance de Choderlos de Laclos, “As Relações Perigosas”, obra que recebeu cinco adaptações para o cinema, entre elas a célebre versão de Stephen Frears, que conduziu as incríveis atuações de Glenn Close e John Malkovich em “Dangerous Liaisons” (1988). O texto foi encenado recentemente nos palcos brasileiros por Beth Goulart e Guilherme Leme.

Em Quartett, Heiner Müller centra foco nos jogos de sedução e poder promovidos pelos protagonistas, cujo objetivo é provocar a queda e a ruína de inocentes e virtuosos. A peça apresenta um duelo verbal entre dois cruéis libertinos, Marquesa de Merteuil (Huppert) e Visconde de Valmont (Ariel Garcia Valdès). Este embate transcorre através de uma disputa de diálogos ambíguos mergulhados em um jogo sexual que permeia a hipocrisia da luta de classes entre a aristocracia e a burguesia durante a Revolução Francesa. Os dois nobres acreditam que possuem o poder de mudar a vida das pessoas ao seu redor como se fossem Deuses. A vingança, o prazer e o prestígio próprio os movem em cena. Os personagens são figuras complementares e idênticas com seus discursos cínicos e escatológicos. A cena final, na qual Merteuil está sozinha e abandonada representa a decadência da aristocracia e do Antigo Regime.

Os personagens de Quartett desdobram-se em quatro figuras dramáticas, trocando de identidade e de sexo em um jogo surpreendente comandado de forma genial por Huppert e Valdès. Os dois intérpretes passam longe de uma representação realista, sendo absorvidos por um surrealismo que os libera para uma atuação sem fronteiras criativas. Ao lado desses incríveis performers, o elenco ainda conta com mais três artistas que causam bastante estranhamento com suas figuras passageiras e perturbadoras.

A montagem não difere a interpretação dos atores de outros elementos cênicos, reunindo todo o material apresentado no palco em um mesmo patamar, característica semelhante ao das performances artísticas. Gestos, efeitos visuais, figurinos, luzes, cenografia e sonoridades complementam e desenham as representações, desenvolvendo um espetáculo que nos remete aos nossos sonhos mais estranhos e indecifráveis.

As repetições das falas até a exaustão, os gestos que ganham sons aterrorizantes, as risadas descompassadas, os personagens que recebem a iluminação de uma determinada cor, as vozes demonizadas e os movimentos ora animalescos e ora delicados constroem uma verdadeira obra de arte. De acordo com a percepção do espectador, a montagem pode até ser assimilada como sendo uma grande brincadeira envolvendo recursos tecnológicos e a performance humana. Enfim, obra de arte ou grande brincadeira, Quartett é um produto degustado pelo público por sua absoluta fruição estética.

Isabele

Bob Wilson pinta um quadro que é construído sob os olhares da platéia através de performances, efeitos e contra-regragens. As mudanças de cenário, por sinal, são realizadas como sendo elementos do espetáculo, tornando-se fatores essenciais para o resultado final. Esse predicado, aliás, é característico das artes performáticas, cujo objetivo não é a obra finalizada, mas todo o processo de criação que a envolve. No caso de Quartett, o trabalho dos contra-regras faz parte da construção criativa da montagem. Esse atributo, assim como outras qualidades da encenação de Wilson existe desde a década de 60. Infelizmente alguns autores ainda chamam essa arte de revolucionária. A revolução talvez esteja presente nos olhares dos espectadores das casas teatrais. Com certeza, essa estética ainda é inovadora dentro de um edifício teatral, todavia nas artes essa chamada revolução se deflagrou há muito tempo.

O papel de Quartett possivelmente seja de levar essa revolução tardia a um público acostumado com uma linguagem mais tradicional. Outro grande mérito da obra certamente é seu forte apelo visual. Uma estética que ganha vida através de um bailar de cores e sons perturbadores permeados por um texto divertido e cruel que não se importa tanto com a emoção. Aliás, o objetivo da obra não é sensibilizar o público, mas presenteá-lo com sua distinta beleza. No entanto, eu sou um espectador que gosta de se emocionar.

A ausência de atributos que envolva mais a platéia deixam a obra muito distante do público. Sinceramente, esse tipo de espetáculo não é dos meus preferidos. Eu admiro a junção de tantos elementos que desenvolvem um pequeno caos de forma harmoniosa. Desordem que gera uma estética irreparável.

O poder visual das cores pode até nos levar para o campo dos sonhos, mas quando acordamos desse ambiente voltamos à realidade e nos demos conta que a emoção não existiu de verdade. Fomos enganados por tanta beleza.

Por: Yheuriet Kalil

Fotos: Divulgação

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