Mart’nália é casa cheia…de samba

Porto Alegre, 12 de novembro de 2009. Essa data vai ficar marcada como o dia em que a capital gaúcha virou a capital do samba. Filha de um dos maiores sambistas do Brasil, Martinho da Vila, e da cantora Anália Mendonça, Mart’nália reflete nitidamente a alegria do povo carioca. Nascida, e criada, na zona norte carioca, em Vila Isabel, bairro tradicionalmente boêmio, a cantora fez uma apresentação espetacular no bar Opinião, em Porto Alegre.

Antes de começar o show, por volta das 23h25min, cerca de 1.500 pessoas, que praticamente lotaram as dependências da casa, já estavam no clima. A casa do rock gaúcho, do reggae, na madrugada de sexta, transformou-se em um grande salão de gafieira, samba de partido alto, samba de breque e todas as denominações possíveis. Ou seja, o bar Opinião virou um grande barracão de zinco.

Com um carisma natural, sem esforço, Mart’nália, 44 anos, embora, em espírito, pareça bem menos, subiu ao palco às 23h55min, acompanhado de sua banda, uma mini escola de samba. Foi ovacionada como há tempos não via no Opinião.

No total, 10 músicos transmitiam toda energia do estilo musical oriundo dos morros cariocas, sobretudo, a malemolência da Vila Isabel.

Mart´nália surgiu calçando sandálias, vestindo bermudão escuro e usando uma camisa branca. Não falou nada com o público e começou o show cantando “Sei lá…a vida tem sempre razão”, música gravada, anteriormente, por Tom Jobim. A canção também é tema de abertura da novela Viver a Vida, da rede Globo.

Na seqüência, transbordando simpatia, convocou os gaúchos a sambarem e emendou com “don’t worry, be happy”, do mais recente cd, denominado Madrugada. O público fiel, rendido, entregue, cantava todas as frases, sem parar, disfarçando, inclusive, o problema técnico no volume do microfone da cantora, que não estava 100% nítido.

Porém, nessa altura, esse detalhe pouco importara. O público, cantando, compensava qualquer pormenor.

Assim, o show da sambista prosseguiu com “Pra Mart’nália”, composição de Fred Camacho e Jorge Agrião, que diz o seguinte na letra: “O samba corre em minhas veias/ O samba é a minha escola/ Se levo um samba do Candeia/ Ou do Paulinho da Viola..”.

E alguém duvidaria disso?

Sentindo-se à vontade, Mart’nália tocava percussão e se deslocava pelo palco, interagindo com a platéia. Dona de um sorriso fácil, escancarado, a cantora tinha o público em suas mãos, mesmo sem falar muito nos intervalos entre uma canção e outra.

Na seqüência do show, intercalando as músicas de sua carreira, composta por 7 discos, mais o cd mais recente, Madrugada, de 2008, a carioca cantou “cabide”, composição de Ana Carolina, e levou o público ao ápice. O piso, do segundo andar do bar, tremia enquanto os inúmeros casais dançavam no embalo do pandeiro swingado da cantora.

A passagem da cantora por Porto Alegre ainda teve, entre outras, “pretinhosidade”, “tava por aí”, “deu ruim”, “ela é minha cara” e “tom maior”, música do pai, Martinho.

Já na madrugada de sexta, Mart’nália sambou com duas músicas de Vinícius de Moraes.

Em uma delas, “garota porongondon”, enquanto ela cantava a letra “Vê só como ela dança bem/ Vê só que samba bom/ Eu acho que ela tem – tem/Muito porongondon”, uma das backing vocais incorporou uma típica passista de escola de samba, arrancando suspiros da parte masculina e a seguinte pergunta de Mart’nália, após a música:

– Ela tem ou não tem forrobodó?

Respondendo à cantora, os gaúchos, e gaúchas presentes ratificaram, através das palmas, cada passo de samba apresentado no palco do Opinião. Assim, com uma apresentação grandiosa, vibrante, contagiante, Mart´nália encerrou o show, após os bis, perto da 1h30min da madruga.

Infelizmente, por um problema de atenção, não consegui pegar o nome dos integrantes da banda na totalidade. Então, para não cometer injustiças, falo em nome de todos: que baita banda.

Quatro percussionistas, duas backing vocais, um contrabaixo, uma guitarra, um violão e no “abre-alas” a simpatia em pessoa: Mart’nália. Uma banda que parece uma escola de samba itinerante, reduzida, com uma cozinha tradicional, com tambores, tamborins, timbau, surdo, e tudo que um samba de raiz tem direito.

A temperatura que, no lado de fora do Opinião, era de 23 graus, lá dentro, chegava aos mil. Um show quente, literalmente.

Com uma baita apresentação, e um bom domínio de palco, a sambista carioca mostrou que representa, com orgulho, e méritos, a cara do povo brasileiro. Afinal, como diria Jorge Ben: “Ser simpático é tudo que você precisa para sua vida ser mais simpática. Salve simpatia..”.

E, neste quesito, Mart´nália é doutora, com PHD do mais alto gabarito.

O show terminou em uma sexta-feira 13 que, neste ano, em Porto Alegre, vai significar alegria, simpatia e sorte. Uma casa cheia de samba e a madrugada da filha do samba.

Por: Silva Júnior

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