Na babilônia farroupilha, Steel Pulse em dose dupla

Na primeira apresentação em terras gaúchas, os regueiros do Steel Pulse realizaram um show pulsante, com perdão da redundância.

Depois de passaram por Haiti, Estados Unidos e, recentemente, o México, a banda encabeçada por David Hinds desembarcou no Brasil para cinco apresentações, sendo duas em Porto Alegre.

Criada em 1975, na Inglaterra, e com mais de 30 anos de carreira, os ingleses do Steel Pulse levaram um bom público ao bar Opinião. Aproximadamente, mais de mil pessoas fizeram-se presentes para cantar os sucessos do grupo de reggae inglês, mas, com cara, e alma, africana.

Assim, contrariando a pontualidade britânica, a banda subiu ao palco na madrugada de quinta, 00h11min, para exaltação do público.

Ao entrar em cena, no palco, o vocalista David Hinds chamava atenção pelos vastos, e grossos, dreads que carregava. No tamanho, algumas tranças chegavam quase ao seu joelho.

Na cabeça, além da cabeleira, David usava um boné, estilo axé, aberto no coco, na moleira, e utilizava óculos Ray-ban tradicional.

Além dele, o baterista, Wayne Clarke, o baixista, Amlak Tafari e o guitarrista solo, Clifford Pusey, o acompanharam usando óculos e, com isso, faziam jus à frase de Raul Seixas: “Quem não tem colírio usa óculos escuros..”.

Distribuídos pelo palco, à frente ficaram os dois remanescentes da formação original: David Hinds (vocal e guitarra base) e, ao lado, Selwyn Brown (tecladista e vocal). Contudo, pra minha surpresa, à direita do palco, ao lado da bateria, estava o grande figuraça da noite: Amlak Tafari.

Responsável pelos graves sonoros, ele ditava o ritmo da bateria e, conseqüentemente, da platéia. No embalo de danças cadenciadas, sincronizadas, ele se sobressaia com ajuda da iluminação do palco.

Amlak usava tênis vermelho, calça cinza camuflada, regata com as cores que simbolizam a África, e uma bandana vermelha que controlava os seus dreads. Tinha espírito de Sir, mesclado com a malandragem de um lord carioca e, ainda por cima, ficou na parte mais alta do palco.

Cheio de figuras peculiares, originais, a banda inglesa fez uma apresentação que, de tão intensa, me pareceu curta. Com 80 minutos de show, contando o bis, intercalaram sucessos da carreira, alicerçadas em onze álbuns, e divulgaram o mais recente trabalho, African Holocaust, de 2004, indicado ao Grammy do mesmo ano.

No set list do show, entre outras, as clássicas “global warning” “Chant a psalm”, “steping out”, “Back to my roots” e “African holocaust”, que dá nome ao álbum e conta, no cd, com a participação do marfinense Tiken Jah Fakoli. Todavia, no show, também não faltaram os sucessos como “taxi driver” e “reggae fever”.

No palco, ao todo, oito integrantes. Dois teclados, duas guitarras, baixo, batera e duas damas nos backing vocais. E elas se apresentaram descalças, indicando, simbolicamente, que o reggae raiz se faz com os pés no chão.

Composta por David Hinds (voz e guitarra), Bumbo ‘Selwyn’ Brown (teclado e voz) Sidney Mills (teclado), Amlak Tafari (baixo), Clifford Pusey (guitarra), Wayne ‘C Sharp’ Clarke (batera), Juris Prosper e Keysha McTaggartnos nos backing vocais, a banda prova que não é só de rock que se vive na Inglaterra.

Durante o show, disseminando carisma, e integrado aos gaúchos, o vocalista David Hinds fazia poses para fotos, ora com braços cruzados, cara de mal, ora retratando, com a mão, o gesto de “paz e amor”, típico dos hippies.

Apresentando um som pegado, com graves vibrantes, que ecoavam nas paredes e pilares do bar Opinião, o Steel Pulse mostrou que os mais de 30 anos de estrada fizeram bem.  E, segundo informações, a banda prepara um novo álbum para 2010.

Uma banda que possui, nas letras, um discurso afiado, contundente, seja denunciando o racismo, os problemas sociais, o extermínio humano na África, ou pedindo preservação do meio ambiente.

Se o Steel Pulse continua na ativa é porque suas preces ainda não foram ouvidas e, enquanto houver intolerância, desrespeito, injustiça, suas canções permanecerão vivas.

Inclusive, mais recentemente, se posicionando politicamente, os ingleses gravaram um single para o, então, candidato a presidência dos Estados Unidos Barack Obama.

Depois de um dia de tempo ruim na capital, a chuva deu uma trégua durante a noite e o reggae britânico do Steel Pulse lavou a alma dos porto-alegrenses presentes no Opinião.

Quem não foi no show tem a chance de ver, nesta quinta, o repeteco. Mais uma noite de reggae inglês com espírito libertário africano.

Já aqueles que não moram no Rio Grande do Sul, prestem atenção. Além da capital gaúcha, a banda faz show sexta, dia 20, no Rio de Janeiro, sábado, dia 21, em Salvador, e fecha a turnê brasileira no domingo, dia 22, em Brasília.

Quer dizer, encerrando o giro pelo Brasil, a capital federal receberá o reggae engajado, com graves retumbantes e teclados alucinógenos do Steel Pulse. Portanto, se estás na dúvida, parafraseio Roberta Miranda: “Vá com Deus..”.

Afinal, como canta David Hinds na música:  “..O reggae é o sentimento…. grande amor universal, o único remédio que você pode encontrar..”. Então, seguindo essa filosofia, no Brasil, até domingo, se possível, consulte-os.

Por: Silva Júnior

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