Um Espetáculo de Centenário

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Caprichosamente marcado para uma quinta-feira, 17 de dezembro, três anos após a maior conquista esportiva do clube, o Beira-Rio se transformou em uma grande quadra de samba a céu aberto.

Uma comemoração sem precedentes no Brasil.

Aproximadamente, mais de 40 mil pessoas fizeram-se presentes no estádio do colorado para prestigiar os shows das bandas gaúchas Ataque Colorado, Nenhum de Nós e as atrações especiais: Fafá de Belém, cantando “vermelho”, mais Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo e Monobloco.

Contudo, vamos por partes.

A quinta-feira amanheceu com sol e calor em Porto Alegre. Embora seja primavera, foi um típico dia de verão, com temperaturas chegando aos trinta graus.

O início do show do centenário estava programado para iniciar às 17h30min, porém, os portões do Beira-Rio abriram cedo, 13h00min, para recepcionar os grandes responsáveis por essa festa: os torcedores.

Assim, com uma pontualidade impecável, no horário marcado subiram ao palco os integrantes da banda Ataque Colorado. Nessa altura, o público ainda era tímido.

Na seqüência, às 18h00min, a banda Nenhum de Nós fez sua apresentação relembrando os clássicos da longa trajetória, mais de 20 anos. Por volta das 19h15min, no lado de fora do estádio, os torcedores chegavam em grande número. Parecia final de campeonato.

Camisetas vermelhas predominavam na extensão da Avenida Padre Cacique e Borges de Medeiros.  O trânsito começara a ficar engarrafado.

Quando entrei nas dependências do estádio, às 19h50min, Fafá de Belém soltava a voz no clássico “vermelho”, do Boi Garantido de Parintins e música adotada pelo colorado. No entanto, peguei a cerimônia no final.

No gramado, o grande destaque era o palco. Ele dava mostras do que viria pela frente. Uma mega estrutura montada no círculo central.

O palco era grandioso, hexagonal, vazado, ou seja, chamava atenção pela dimensão e tecnologia, pois, qualquer colorado, da superior as sociais, tinha uma visão privilegiada dos artistas. Ele impressionava.

Em cima da estrutura, seis telões transmitiam todos os detalhes da festa. Além disso, um placar luminoso também repetia frases gloriosas.

ZecaPagodinho

Zeca Pagodinho

Desse jeito, às 20h20min, o sambista surgiu para iniciar a batucada carioca. Vestia calça branca e camisa vermelha florida. Começou o show com “deixa a vida me levar”.

Embora o som, potente, não tivesse 100% sincronizado, devido à grandiosidade do estádio, isso não impedia a festa do público. Os colorados cantavam as músicas junto com o sambista.

Com um repertório ancorado nos sucessos, a apresentação continuou com “seu balance” onde, no meio da música, para os aplausos do público, Zeca pegou uma bandeira colorada.

Depois da quarta música, falou pela primeira vez. Fez elogios ao estádio e à torcida. Em seguida, cantou “Faixa Amarela”.

Já anoitecia quando o sambista puxou “vai vadiar”, outro clássico de sua carreira. Considerado um dos maiores interpretes de samba do país, Zeca Pagodinho embalava o público na cadência do ritmo carioca.

Continuou com “Patota do Cosme” e “jura”. Em determinado momento, vestiu um chapéu do colorado entregue pelo público.  Qualquer ação nesse sentido arrancava vibrações.

A apresentação, de uma hora, ainda teve músicas feitas em parceria com Jorge Ben, “Ogum”, e seu Jorge.

Completamente à vontade no palco, como se estivesse no quintal de sua casa, Zeca prosseguiu com “maneiras”. Na música, tragando um cigarro, anunciava: “Se eu quiser beber eu bebo/ se eu quiser fumar eu fumo/eu pago tudo que eu consumo com suor do meu emprego..”.

Nessa altura, o gramado do Beira-Rio, palco de inúmeras batalhas futebolísticas, tornara-se uma pista de dança, praticamente, uma roda de samba com 25 mil pessoas. E tinha mais chegando.

Na parte final do show, mais dois sucessos: “coração em desalinho” e, encerrou sua participação, às 21h20min, com “verdade”.

Zeca saiu de palco aplaudido com méritos. Até porque tudo era alegria. Um belo show apesar do delay que, em determinados momentos, atrapalhou o sambista. Porém, nada que estragasse a festa do nativo de Xerém.

Antes do show da Ivete Sangalo, os presentes foram comandados pelo DJ Finna que trazia versões mixadas dos cânticos colorados. E o público continuava chegando ao estádio.

Pouco tempo antes do show mais esperado, os mestres de cerimônia, Renata Fan e Thedy Corrêa, com discursos inflamados, massageavam o ego colorado.

Auxiliada pelo vento, as bandeiras coloradas tremulavam.

Contudo, chegara o momento mais aguardado pela maioria dos presentes: o show de Ivete Sangalo. A segunda apresentação após o nascimento do filho Marcelo.

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Ivete Sangalo

Às 21h42min a baiana apareceu.  Diante de, aproximadamente, 40 mil pessoas, Ivete Sangalo surgiu trajando um vestido branco com corpete.  Ao vê-la, o público entregou-se de corpo e alma.

E quem disse que ela estava fora de forma? Quem disse deve ser cego, surdo e deveria ficar mudo.

Transbordando energia, e com seu carisma habitual, a cantora começou o show com “Dalila”. Nos primeiros versos da música já tirou os calçados.

Em excelente forma, ela dançava, pulava, transitava por todos os lados, ora falando para os colorados que ficavam no lado da arquibancada superior, ora para o lado da social.

Na seqüência de “Dalila”, transportou os gaúchos para o carnaval baiano, ao seu modo. Emendou com a marchinha de carnaval “allah-la-ô”, de Haroldo Lobo.

Estava eufórica. Sem parar, cantou “levada louca” e “empurra-empurra”. Antes da quinta música, parou para falar com o público pela primeira vez.

Agradeceu o carinho de todos que pediram, junto à direção, sua presença na festa. Também avisou que pretendia emagrecer dois quilos na apresentação.

Após a conversa, continuou o show com “Berimbau metalizado”. Visivelmente, Ivete Sangalo foi o show mais aguardado pelas 40 mil pessoas presentes no estádio. Entre eles, um em especial.

Seu Jadir Silveira, 52 anos, tinha uma missão difícil. Permanecia imóvel, estático, mesmo diante de tamanha energia e agitação da cantora baiana. Acontece que Jadir, fã declarado de Ivete Sangalo, era um dos seguranças contratados pelo Inter.

Foi um dos poucos presentes que permaneceram quietos no estádio.  Mas confessou que vontade não lhe faltava.

Dona de uma resistência aeróbica privilegiada, Ivete tinha o público em suas mãos. Transbordava simpatia. Depois de “abalou”, emendou “festa” e “poeira”.

Com certeza foi o ponto mais vibrante do show do centenário.  Sem dar descanso, seguiu com “não quero dinheiro”, de Tim Maia.

Então, a cantora resolveu falar.

Ao observar a platéia, falou que o Inter era um time da família, haja vista a diversidade do público, de crianças de 3 anos até jovens de 70.

Comentou que, na adolescência, seus pais, desde cedo, lhe ensinaram o valor do esporte. Disse:

– O esporte é saudável, pois, faz bem pra mente e pro físico, transforma a criança em homem com princípios e valores….

Também confessou ao público sua alegria de ser mãe, inclusive, dizendo que, por ela, “paria todos os dias”.

Depois das palavras, sempre com bom-humor, Ivete foi aplaudida pelas 40 mil pessoas.  Então, anunciou uma surpresa. Chamou três torcedores que assistiam ao show, no gramado, para subir ao palco. Assim, junto com eles, cantou o hino colorado.

Na parte final do show, brincando dizia que voltaria ao Beira-Rio para fazer a festa de reforma do estádio, de lançamento de uniforme, troca de gramado… Completou colocando sua casa, na Bahia, à disposição dos colorados.

Deixou claro que estava lisonjeada pelo convite e que não imaginava uma festa tão grande e contagiante. Relatou que sabia da grandeza do clube, mas não esperava um ambiente tão acolhedor e carinhoso.

Entretanto, antes de despedir-se, foi protagonista do momento mais emocionante da festa centenária. Ocorreu em “Se eu não te amasse tanto assim”.

Na balada romântica, somente com o auxilio do teclado, o público assumiu os vocais da música.  No final da canção, emocionada, Ivete não segurou as lágrimas.

Por alguns segundos, as palavras sumiram. Depois retomou o embalo. No final da música, disse que estava muito feliz com o nascimento do filho.

Ivete Sangalo, a mulher mais valorizada da música brasileira, ainda cantou “Na base do beijo”, sua música mais recente, “Pererê”, “Canibal” e “País tropical”, do mestre Jorge Ben.

A baiana encerrou a passagem por Porto Alegre às 23h15min. O sucesso de Ivete Sangalo não está somente no talento musical, mas, sim, no poder de cativar as massas. É um dom, sem dúvida.

Ela conversa com intimidade, sedução, tudo de uma maneira simples, trivial, autêntica, sincera.  A simplicidade no trato é a sua maior nobreza.

O show da baiana foi o mais demorado da noite, teve 1h30min de duração. E depois de Ivete tinha o Monobloco.

Nesse meio tempo, Renata Fan e Thedy Corrêa retornaram ao palco. Tentaram, sem sucesso, reanimar o público. O furacão baiano havia enfraquecido as energias de muitos que, após o show, nem ficaram para ver próximo show.

Portanto, os apresentadores se despediram do público. Renata Fan, radicada em São Paulo, foi a mais incisiva, passional.  Inclusive, exigiu que, em 2010, os jogadores do colorado honrem a camisa do clube centenário.

Ainda pediu títulos e reafirmou seu amor pelo clube.

Monobloco.

Com uma percussão típica de escola de samba, os cariocas subiram ao palco às 23h35min. Encabeçado por Pedro Luís (de Pedro Luís E A Parede), o bloco carnavalesco ressuscitou os colorados.

Reinventando as músicas, no ritmo da batucada, começaram com “Isso aqui tá bom demais”, clássico do forró, de Dominguinhos. No palco, os três intérpretes se espalhavam pela grandiosa estrutura. Na roupa uma homenagem. Todos usavam camisetas do Inter.

Assim, seguiram o show com “frevo mulher”, do paraibano Zé Ramalho, e “coisinha do pai”, de Jorge Aragão.

O show teve também “vou festejar”, cantada por Beth Carvalho, “alagados”, do Paralamas do Sucesso, “Gostava tanto de você”, do Tim Maia, e “descobridor dos sete mares” de Lulu Santos.

Tudo, claro, através da malemolência do samba e a pulsação dos surdos, tambores e tamborins cariocas.

O problema foi que, depois de Ivete Sangalo, a energia colorada ficou reduzida. Mesmo assim, um bom público prestigiou o BaitaBloco carioca.

O show acabou 00h35min. Uma festa colorada, centenária, onde a pontualidade foi uma virtude destacada.

Nas arquibancadas do estádio, a alegria prevalecia. Para Rogério Alves, 37 anos, o show foi “maravilhoso, digno de um clube com a estrutura do Inter”. Ao seu lado, o filho Roger, 8 anos, acompanhava o pai.

Com um copo de refrigerante na mão, atento aos detalhes, o guri contou que era sua primeira visita ao estádio.

Contudo, para 2010, Roger já havia escolhido o presente que gostaria de ganhar: queria o título da Libertadores.

Mas ele não está sozinho nessa. Ieda Lessa quer o mesmo. Ela chegou junto com o marido às 17h00min e só sentou nas cadeiras, das sociais, após o show da baiana.

Quer dizer, passou todo o tempo, no gramado, dançando com a jovialidade que o mundo lhe dera.

Junto com o marido, Ieda é sócia do clube há 15 anos. Estava impressionada com a festa colorada, com a estrutura montada, a segurança e o clima familiar.

Fez questão de parabenizar a direção pelo espetáculo proporcionado ao torcedor colorado. Afinal, sem torcida, não haveria nada disso.

E, assim como o pequeno Roger, de 8 anos, Ieda Lessa, 70 anos, deseja um 2010 com títulos, vitórias e, quem sabe, uma nova festa em dezembro de 2010.

As diferentes gerações comemorando o centenário e almejando o futuro.

Por: Silva Júnior

Fotos: RobertoVinicius

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