Entrevista: Hibria

Hibria no Japão

Que banda gaúcha se apresentou em cinco países diferentes no ano de 2009? Qual foi a única banda brasileira a se apresentar no festival Loud Park, no Japão? Que banda brasileira foi convidada a abrir um show do Megadeth? A mesma banda que abrirá o show do Metallica em Porto Alegre.
Hibria, um dos maiores nomes do Metal Nacional falou com exclusividade ao PoaShow.

POA SHOW – Gostaria de começar perguntando sobre as tão comentadas viagens do Hibria que aconteceram em 2009 pela Ásia e pelo Canadá, sendo um dos poucos, senão o único, artista brasileiro a se apresentar duas vezes no Japão no ano de 2009. Como foi?

Diego Kasper – A gente lançou nosso primeiro CD, DTR, em 2004 no Japão e a partir dali a gente começou um relacionamento com a nossa distribuidora de lá. Esse disco teve uma repercussão legal na mídia especializada. Saiu uma resenha na revista Burrrn! que deu uma nota excelente pra ele e, a partir dali, com todo o trabalho da gravadora, mais a aceitação da imprensa, o CD caiu nas graças do público e o CD ficou por seis semanas no site HMV (www.hmv.co.jp)  em primeiro lugar na categoria Heavy Metal. Mas, até então, a gente era uma banda de apenas um CD. Quando lançamos o segundo CD em 2008 (The Skull Colectors) ele teve um desempenho bastante parecido com o primeiro e aí então começou a se pensar num lance de turnê. Aí então a nossa distribuidora, através de uma empresa que organiza shows e a partir de então os caras entraram em conversação pra que a gente conseguisse viabilizar. Tudo culminou com os shows que a gente fez em Maio, o primeiro dia 19 em Osaka em uma casa relativamente grande, um local onde rolam outros shows internacionais e pra nossa grata surpresa foi um dia de casa muito cheia. E foi do caralho também porque a gente estava no centro comercial e cultural de Osaka, andava na rua e era reconhecido. Então isso também foi uma coisa muito legal.

Iuri Sanson – No primeiro dia que a gente saiu do Hotel pra conhecer a cidade um pouco, fomos procurar um restaurante para jantar e logo nas duas primeiras quadras passou um pessoal, olhou e perguntou “Hibria?”. Aí vieram conversar, tirar foto, pedir autógrafo… muito legal. Na ida a gente encontrou com dois grupos de pessoas que vieram falar com a gente e na volta também. Isso já fez com que a gente tivesse uma prévia do que seria o show no dia seguinte. Aí o sangue começou a bombar, toda aquela coisa, uma preparação bem legal. Aí depois que a gente fez esse show em Osaka que teve uma repercussão muito legal…

Diego Kasper – E não tinha nenhuma outra banda, era um show exclusivamente nosso… E é legal também que antes de subir no palco a gente não tinha visto como é que estava a casa. E antes de começar o show estava um puta silencio. A gente pensou que estava vazio o lugar. E quando a gente entrou vimos que estava cheio. É que lá o pessoal tem outra relação com o espetáculo. Não sei o que é, se o público se concentra antes do show, sei lá, mas é um lance de os caras ficarem mais na expectativa… Durante as músicas eles batem cabeça, gritam, curtem, mas quando a música termina e as palmas acabam…

Iuri Sanson – Prestam atenção no que a gente está fazendo ou naquilo que eu estou falando.

Diego Kasper – Não sei se é o lance de querer entender… Não que eles não entendam, mas a língua dos caras é tão distante que talvez acabe complicando. Mas eles querem entender, eles estão a fim de sacar o que o cara está dizendo pra poder interagir.

Iuri Sanson – Outra possibilidade que talvez explique o silêncio é que quando a ente chegou em Osaka, foi bem no pico da gripe suína, e Osaka era a cidade mais afetada pelo vírus no Japão. E era engraçado porque a gente via o pessoal batendo cabeça, se encostando, mas com a máscara!  (risos) Foi isso que a gente pensou também depois conversando no backstage e no hotel.

Diego Kasper – Isso foi legal também, que além de ser somente a nossa banda, teve o lance da epidemia que a gente achou que poderia afetar. A gente começou a ficar com medo. Ainda bem que não afetou e foi do caralho.

POA SHOW – E os outros shows no Japão?

Abel Camargo – Depois rolou Tókio, dia 20 de Maio, em um lugar bem maior, mas também com casa cheia. Também só o Hibria, nenhuma banda de abertura.

Iuri Sanson – A gente ficou sabendo que foram quase mil pessoas.

Abel Camargo – E muitas bandas de mais estrada, com mais CDs, tocaram nos mesmos lugares e não tiveram tanta galera assim no show. Isso foi um passo para a gente voltar em Outubro e tocar no Loud Park. Dois shows no Japão, os dois lotados e com grande repercussão na mídia especializada e entre o público. Depois de Tókio rolou Taiwan, que a gente não sabia muito o que esperar. Sabia que no Japão iam ser os dois shows mais fortes, Tókio ia ser o show mais importante, o show mais esperado, com toda a mídia, Young Guitar, Burrrn, toda a galera mais influente, mas também rolou bem legal Taiwan.

Diego Kasper – O lance do Japão acabou alavancando outros shows. A gente pensou que já que iríamos estar lá mesmo, deveríamos fechar outras datas. De antemão a gente conseguiu fechar mais três datas na Ásia que foram Taiwan, Hong Kong e Seul. Três shows do caralho. Não foi a mesma coisa que no Japão, afinal de contas nesses lugares a gente não conta com a mesma estrutura, mas a gente sentia que tinha muita gente que conhecia nosso som, muita gente chegou com o CD pra autografar. Teve uma sessão de autógrafos em Seul que foi demais. A gente tocou com bandas locais também, o que a gente curtiu muito, e fomos muito bem acolhidos. E o calor da galera durante o show foi demais.

Abel Camargo – O Hibria foi headliner e contou com bandas de abertura locais.

Iuri Sanson – É importante também a preocupação de cada local. Cada produtor se preocupou que a banda se sentisse bem antes, durante e depois do evento. E o que a gente percebeu também é que o público, tanto no Japão quanto nos outros países, sabia cantar as letras das nossas músicas do começo ao fim. E isso chegou até a assustar um pouco, principalmente para mim, que fico com o microfone, encarando mais a galera. Eu não podia errar a letra de jeito nenhum, porque eles conheciam as letras. Isso foi muito legal pra nós, pela primeira vez em um país tão distante, no outro lado do mundo, literalmente, ver a galera cantando.

POA SHOW – E quanto ao Canadá?

Diego Kasper – O Archon Legion, uma banda de lá, já tinha entrado em contato com a gente. Só que chegar no Canadá é uma coisa complicada pra fazer uma turnê. Então aproveitamos que a gente estava indo pra Ásia e conseguimos voltar pelo Canadá. Como a passagem era de três pontos a gente conseguiu fazer isso. A partir daí tínhamos treze shows marcados, mas dois, infelizmente, não conseguimos fazer porque nossa van quebrou. Não sei se chegaram a ser mais de seis mil quilômetros, mas pelo menos cinco mil e quinhentos eu tenho certeza que foram. Foi de ponta a ponta. Mas lá as rodovias são melhores, tem um limite de velocidade maior, se não me engano, e a gente tinha o conforto do Motor-Home, então a gente não sentia tanto. A banda conseguia jogar carta, beber, conversar…

(neste instante Marco Panichi chega para a entrevista)

Diego Kasper – Então foi isso, a gente pode dizer que viu todas as paisagens do Canadá, a tour começou lá na ponta britânica e terminou em Quebec. Alguns lugares mais, outros menos, mas a gente curtiu pra caralho fazer isso. Conhecemos bandas locais lá também.

POA SHOW – Vocês foram headliners lá?

Diego Kasper – Nós fomos.

Iuri Sanson – Foi bem legal também porque tocamos em grandes cidades como Victoria, Toronto, Quebec, Montreal, Vancouver… cidades grandes. Foi bem legal pra nós tanto em termos de experiência quando pra conhecer mesmo. Mas no Canadá a gente foi pra divulgar bastante o nome da banda. Cada show a gente se apresentava com estruturas bem diferentes do que na Ásia. Eram clubes menores, bares menores, mas sempre tinha gente suficiente pra fazer bastante barulho e bater cabeça com a gente.

Diego Kasper – Na verdade a gente tem uma noção de como a gente tem público em cada lugar pelos acessos ao nosso site. O Canadá é um dos lugares que temos mais acessos, mas é uma coisa dispersa em um território gigante, enquanto na Ásia a concentração é muito maior. Então por isso é mais tranqüilo juntar mais gente lá do que no Canadá. Mas como porta de entrada a gente entrou com o pé direito e foi do caralho.

POA SHOW – E a segunda vez na Ásia?

Marco Panichi – Uma coisa legal foi achar uma galera foi já sabendo o que esperado do Hibria ao vivo, que já tinha visto o show em Maio, mas, ao mesmo tempo a gente se apresentando pra um público novo que não tinha ido ao show. A gente tocou no Loud Park pra treze, quinze mil pessoas, e o nosso show em maio ficou na faixa de mil. Foi muito mais gente conhecendo a banda ali que não teve oportunidade antes. E, obviamente, tocar numa estrutura como a do Loud Park, com as bandas que estavam lá, onde você tinha uma ampla gama de publico, foi uma coisa de consolidação. E depois veio o show de abertura do Megadeth, que pra nós foi importante como fãs. Ta, ok, abertura de banda grande, legal. Mas foi dois dias depois do Loud Park, já não tem mais aquela coisa de “to abrindo pra uma banda” ou “publico diferente”. Na verdade a gente estava era no tesão do quão fã a gente era dos caras, de conhecer o Dave Mustaine. Foi o que pegou mais, pelo menos pra mim. E estar com os caras ali do lado foi legal.

Diego Kasper – Foi legal que a gente tocou com a produção do Megadeth ali, e o acesso aos caras depois também foi fácil depois, foi tranqüilo. Não é aquela coisa de uma fila enorme e não tem tempo pra falar com a banda de abertura. A gente conseguiu falar e tirar foto com todos os caras, eles foram gente fina pra caralho. Isso também nos surpreendeu positivamente. A gente pensava que pra eles seria apenas mais uma banda de abertura. Pra nós é o Megadeth, pra eles é só uma banda de abertura. Mas, no entanto, os caras nos trataram muito bem. Eles viram o show, falaram do show. Foi muito legal. A gente tocava cover de Megadeth há muitos anos, então estar lá naquele momento com a banda foi espetacular.

Marco Panichi – Também tem aquele lance de que os caras são os caras que a gente cresceu vendo na MTV.

POA SHOW – Mas nem tudo foram flores na carreira do Hibria. Provavelmente vocês passaram por dificuldades desde a formação do Hibria. Quais foram as principais dificuldades que vocês enfrentaram até que a banda chegasse a esse patamar?

Abel Camargo – Na minha opinião o mais difícil é conciliar os interesse da galera mesmo. Todo mundo tem suas atividades fora da banda, outros trabalhos. Todo mundo tem a sua vida particular, mas a banda é algo importante para todos, então a gente consegue se organizar.  Quando a gente tem que fazer uma turnê, a gente consegue juntar cada um, ficar fora um tempo, voltar, continuar trabalhando… Se não tem nenhum show marcado. Beleza. Vamos ensaiar igual, vamos compor, divulgar a banda. Acho que essa é a parte mais difícil.

Marco Panichi – Esse é um ponto, mas eu não sei qual é o pior, esse ou quando a banda não tem um espaço pra tocar, ou o espaço não é legal.

Iuri Sanson – Eu ia dizer isso… Não sei se hoje mudou muito isso, mas no início uma das grandes dificuldades que a gente tinha era um lugar pra tocar. O que a gente mais queria era ter um lugar pra tocar ao vivo e mostrar o som. Um dos lugares que dava espaço em Porto Alegre era o glorioso Bar João, a gente tocava algumas vezes por ano lá. Hoje não sei como está…

Diego Kasper – Eu diria que é o ranço da mídia de massa com relação a alguns gêneros musicais em privilegio de outros. Pra nós, pelo que a gente vê depois de tocar tanto tempo e ter uma trajetória, não é fácil ir pro exterior, não é fácil fazer uma turnê, fazer, por exemplo, o que a gente fez em 2009 e ter muito pouca chance de mostrar isso em uma mídia um pouco mais ampla. É muito legal o lance das mídias alternativas, que ainda que não atinjam uma massa, atingem um publico grande. Como elas chegam nesse publico, acabam apoiando e abraçando essa causa, mas a gente tem dificuldade em entrar em mídias mais massivas. Não sei se é questão de gênero ou qual é o lance…

Abel Camargo – Acho que é gênero. Fizemos duas turnês no Japão, tocamos no Loud Park, fomos a única banda brasileira a tocar no Loud Park. Éramos os representantes do Brasil. E uma banda daqui, uma banda gaúcha, uma banda de Porto Alegre. Poderiam botar pelo menos uma notinha.

Marco Panichi – Vejo como uma questão do estilo que pega. Um cara que está começando uma banda em qualquer outro estilo tem mais espaço do que uma banda de Metal que está começando.

POA SHOW – Recentemente apareceu uma página do Hibria no Descyclopedia. Vocês viram isso? E o que vocês acharam?

Iuri Sanson – Muitas bandas já estiveram no Descyclopedia, acho que é só mais uma pro pessoal ler um pouco e dar umas risadas… (risos) Eu ri, cara… (risos) Tinha umas coisas muito engraçadas, mas não cheguei a ler tudo.

Abel Camargo – Segui o principio “falem bem, falem mal, falem da gente”. Beleza. Pra mim passou batido.

Marco Panichi – Eu li. Não deixa de ser conseqüência do fato de a banda ter uma exposição maior. Muitas bandas maiores já acabaram nesse tipo de lugar… não deixa de ser, de certa forma, elogioso. Mas os caras detonaram muito mais o DragonForce do que o próprio Hibria.

Eduardo Baldo – Não vi, to sem Internet. (risos)

POA SHOW – Vocês já estão preparando um novo disco?

Iuri Sanson – A gente tem projetos. Já temos alguns bons projetos do que deve ser nosso terceiro CD. Posso dizer que tem uma música pronta e uma segunda quase acabando, mas ainda sem letras. Só estrutura. A gente já tem um direcionamento pro disco e esses projetos seguem esse direcionamento. Mas ainda não temos nada pronto para apresentar como uma prévia do novo álbum do Hibria.

POA SHOW – E daqui para frente, quais são os planos da banda?

Marco Panichi – Agora é pensar no terceiro CD e fazer mais shows no Brasil, que é nosso principal desejo.

Diego Kasper – Desejo e desafio.

Marco Panichi – Desejo e desafio, muito bem colocado.

Iuri Sanson – A gente está com alguns planos que ainda não podemos falar, mas que assim que se concretizarem nós divulgaremos nas mídias e no site da banda. Mas o grande foco que a gente tem é divulgar a banda, ao vivo, no Brasil. Pelas dimensões continentais do Brasil é difícil realmente a banda se deslocar do sul do Brasil para outros lugares por questão de custos e tudo mais. Mas a gente está buscando parcerias para ver se nesse ano a gente vai para o nordeste. Ano passado a gente quase foi, estávamos com oito shows marcados e na última hora teve que ser cancelado.

POA SHOW – O que a banda tem escutado ultimamente? Que bandas fazem parte do universo musical da banda e até que ponto influenciam no trabalho de vocês?

Diego Kasper – Tenho escutado muitas coisas que não tem conexão uma com a outra. A gente vive numa época em que o acesso a música é muito fácil e eu acho que não usar isso sendo músico é uma coisa muito limitadora. Eu pessoalmente continuo ouvindo Soilwork pra caralho. Arch Enemy é outra banda que todo mundo na banda curte.

Iuri Sanson – Das bandas que tocaram no Loud Park as que a gente não conhecia a gente buscou conhecer… até mesmo bandas como o Papa Roach… Bandas que não tem muita ligação com o Metal. Mas dentro do Metal a gente vem escutando o Soilwork e o Arch Enemy.

Diego Kasper – Um show que eu curti pra caramba foi o Rob Zombie. Não só musicalmente, mas a interação do cara com a galera, trabalhando com projeções de vídeo e tudo mais…

Abel Camargo – Essa semana eu viajei muito no instrumental. Voltei a escutar muito Steve Vai. Mas também Soilwork, Arch Enemy…

Marco Panichi – Acho que o que eu mais escutei ultimamente foram as coisas novas do Metallica, que eu não ouvia desde o Load. Estou fazendo uma descoberta ao contrário.

Eduardo Baldo – Unânime é Soilwork, ouço bastante… Mas eu estou ouvindo muito o Infectious Groove. E quero ir atrás do Suicidal Tendencies.

Nota da Redação: A entrevista foi concedida uma semana antes do anúncio oficial do Hibria como banda de abertura do show do Metallica. Concordamos em não tocar no assunto, visto que não havia nada confirmado até então.

Publicações Relacionadas

3 Comentários

  1. L E O

    AHUE!

    Muito bacana! ^^

    Agora eu quero saber se o Abel já vendeu o ingresso dele pro Metallica. Hehe! Eu lembro de ter encontrado ele na fila no dia em que começaram a vender os ingressos. 😛

    [Responder]

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *