Sunsplash One Life Festival

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Na última terça, dia 26 de janeiro, as portas do Teatro se abriram para a música popular mundial.

A chuva deu sinais que viria, porém, o céu iluminou-se com as estrelas da noite e a lua guiou um grande público às dependências do Bourbon Country. A temperatura amena, se comparada com a parte da tarde, registrava 24 graus naquela noite.

O evento tratava-se do Sunsplash One Life, o mais tradicional evento de reggae do mundo. Criado nos anos 70, na Jamaica, e depois de muitas idas e vindas, sobre os diretos da marca, o festival continua divulgando o reggae mundo afora.

Na capital gaúcha, as atrações foram: Representando a América Central, os jamaicanos do Wailers que, ano passado, estiveram aqui e, da mãe África, o marfinense Alpha Blondy, estreante em solo gaúcho.

Devido alguns problemas técnicos, o show começou com atraso. A banda de apoio de Bob Marley subiu ao palco perto das 22h. Assim como no ano passado, Aston Barret trazia na bagagem o peso de ser um dos fundadores do grupo, em 1969.

Todavia, no vocal, uma surpresa. O vocalista não era o mesmo do ano passado, Elan Attias. Outro cantor ficou encarregado, com a difícil missão, de assumir o posto do gênio jamaicano.

Antes de começar o show, um áudio de Bob Marley, com o tradicional cântico rastafári, trouxe a lembrança do passado e, também, fez um prefácio, transcendental, do que viria pela frente.

No Teatro, bem mais de 1.000 pessoas aguardavam com ansiedade o começo do festival. O público era predominantemente jovem, porém, havia alguns mais experientes, na casa dos 40 e 50 anos. Contudo, estes ocuparam os camarotes, as galerias e a platéia alta.

Já no palco, Aston Barret vestia chapéu, camisa xadrez, bermuda jeans e calçava coturno. Ficou postado no lado esquerdo do palco, perto da bateria.

Ao todo, oito integrantes representavam a banda, e a história do reggae. Baixo, guitarra solo, guitarra base, bateria, teclado, o novo vocalista e duas backing vocais.

Além de Barret, no lado direito do palco, destacava-se o guitarrista solo Audley “Chizzy” Chisholm. Com perfeição, extraía melodias, realizava solos, e fez a guitarra falar em “live up yourself”.

No outro lado, na frente da caixa de som, praticamente colado nela, Aston Barret arrancava com perícia os graves de seu baixo.

Era como se a vibração do som, saído de seu baixo, retumbasse na caixa de som, corresse nas veias, pulsasse no peito, e ditasse o ritmo de seu coração.

A apresentação teve, na primeira parte, “natural mystic”, “waiting in vain” onde, no final da música, teve uma homenagem ao cantor Michael Jackson, “Is this Love” e “Them belly full”.

Naquele momento, o novo vocalista interagia com a platéia, sempre conversando em inglês. Por isso, enfrentou alguns contratempos de compreensão por parte do público.

De qualquer maneira, falando na obra musical, bastava começar uma música que o público cantava o resto. E foi assim em “trenchtown rock”, “Stir It Up”, “I shot the sheriff” e “Jamming”.

Visualmente, Aston Barret ainda diverte-se no palco, ditando o ritmo do baterista. Essa é uma turnê de celebração de seus 40 anos na frente da maior banda de reggae da história. Onde tudo começou.

Na parte final, os jamaicanos tocaram “Three little Birds”, “one Love” e encerraram com “keep on Moving”. Como sempre, se tratando dos Wailers, uma apresentação sólida, consistente, ancorada nos sucessos do maior astro da música popular mundial.

Até o dia 13 de março, com fôlego, os jamaicanos passam por cidades de Santa Catarina, São Paulo, Argentina e, também, realizam 15 shows na América do Norte.

Tudo em 45 dias, mostrando que o discurso de Bob Marley ainda segue atual, ativo, e na estrada. Como sugere a última música: Keep on Moving.

Desse modo, ovacionados, às 23h20min, deixaram o palco e a certeza de que serão, sempre, bem-vindos pelo público gaúcho.

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Alpha Blondy

Após 40 minutos de espera, entre troca de instrumentos e ajustes finais, às 00h05min, surgiu Alpha Blondy no palco do Teatro do Bourbon Country. Com uma big banda, composta por doze pessoas, entre metais (sax,trompete e trombone) baixo, guitarra (solo e base), teclado, bateria e vocais, o marfinense mostrou todo seu ritmo aos presentes.

Durante a introdução, antes da aparição de Blondy, a banda tocou, até, um pouco de Led Zeppelin, em “Black dog”.

Quando surgiu no vasto palco do Teatro, Alpha Blondy fazia a prece que antecede a primeira música: “Jerusalém”.

Desenvolto, ele transitava por todos os lados e fazia pose para os fotógrafos que se aglomeravam diante do palco.

Ao contrário dos Wailers, que tocam tal qual a gravação original, o cantor africano constrói e desconstrói as músicas no ato. Em algumas canções, ele faz releituras, tornando-as “inéditas”, e com cerca de dez minutos de duração.

Contudo, Alpha Blondy dita seu ritmo e realiza com maestria, habilidade, “sensibilidade artística”. Ele brinca diante de sua enorme discografia que inclui, aproximadamente, vinte álbuns.

No palco, hiperativo e risonho, cativou o público pela alegria demonstrada. O marfinense usava chapéu branco, camisa cinza, calça jeans e sapato bege. Aparentemente, no estilo, lembrava Milton Nascimento, na década de 70,80.

O show prosseguiu com sucessos como “sweet Fanta Diallo” e “masada”, cantadas em coro pelos presentes.

Por diversas vezes o cantor deixava o palco, como se fosse ganhar fôlego e energia na coxia. Relacionava-se por gestos com o público. Gesticulando, sempre se deslocando pelo palco, não parava quieto.

A qualidade do som estava perfeita, tanto na parte técnica, quanto na habilidade dos músicos. Os sopros dos metais complementavam as canções, contrabalanceando com os graves do baixo e da bateria.

Com versões extensas, porém, intensas, dinâmicas, Alpha Blondy ainda apresentou “cocody rock” e “politiqui” para vibração dos presentes. Talvez, o ponto alto do show.

Diante de uma banda afinada, tarimbada, ele fez o que quis. Inclusive, discursou para os presentes. Cumprimentou os porto-alegrenses e falou de sua veneração pelo Brasil, dizendo que gosta muito do nosso país.

Junto com os Wailers, o cantor fez, e ainda fará, shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis. Foi sua primeira passagem por Porto Alegre.

Ainda no discurso, citando Barack Obama, o marfinense pediu esforços para a paz mundial, providencias para o continente africano e responsabilidade ambiental às grandes potências mundiais.

Alertou para descaso no continente africano, onde a história da humanidade começou, lembrando que, ainda, existem pessoas morrendo de fome, sendo cobaias do homem.

Mencionou a tirania de alguns governantes, clamando por justiça e paz em países como Sudão, Angola e sua pátria, Costa do Marfim. Enfim, na retórica, o cantor africano transpareceu tudo aquilo que é exposto nas letras de suas músicas.

Um discurso pacificador, de união, paz e amor. Ao final, foi aplaudido pelo público que, como eu, (acho), entendeu apenas algumas palavras das tantas que foram pronunciadas pelo cantor marfinense.

Desse jeito, quando o relógio marcava 01h05min, encerrou a apresentação, e complementou a fala, com “peace in Libéria”.

Embora estivessem “anestesiados” com mais de duas horas e meia de reggae, o público pediu bis. E foi atendido.

Então, um dos responsáveis pelo Festival subiu ao palco e, um a um, apresentou os integrantes da banda que, com isso, retornaram para a saidera.

Na medida em que regressavam, construíam “heathen” de Bob Marley. Paralelamente, foram sendo apresentados aos gaúchos.

Quando voltou ao palco, Alpha Blondy estava com uma camiseta branca e usava chapéu preto. Demonstrando satisfação, agradeceu Porto Alegre e finalizou a noite com a versão reggae de um clássico do rock: “I wish you were here”, da banda inglesa Pink Floyd.

No final, aplaudido pelo público que compareceu em grande número, finalizou com um “oubrigado Porto Alegre”.

Uma noite de música, celebrações, reflexões. Um show que não faz parte do Fórum Social Mundial, mas, pela mensagem que passa, com certeza, poderia fazer.

Uma aula de reggae que, sem dúvida, é a música social e popular do mundo.

Sobre a estrutura do Teatro, sensacional, como sempre. O show teve ingressos na base de R$ 100,00. Quer dizer, com um pouco de atraso, nada mais é do que o reggae invadindo a babilônia. Diriam os mais fundamentalistas.

Entretanto, o reggae como arte, mensagem cultural, linguagem social, está acostumado a romper barreiras, quebrar rótulos, preconceitos. O mais importante é espalhar a mensagem para quem deseja ouvir.

E, neste quesito, Alpha Blondy e The Wailers se encarregam de fazer.

O evento teve patrocínio das lojas Trópico, TAM e Cultura Inglesa. A promoção é da rádio Itapema FM e realização Opus Produções.

Por: Silva Júnior

Fotos: Rafael Jacques (Opus)

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