A apoteose de Oswaldo Montenegro

Oswaldo Montenegro

Nessa sexta-feira, 5 de março, o cantor, compositor, escritor, diretor de cinema e pintor psicodélico (de paredes), Oswaldo Montenegro, esteve em Porto Alegre para apresentação do seu show “Quebra Cabeça Elétrico”, o qual se tornou DVD em 2009. A proposta de Oswaldo nesse trabalho é homenagear músicos como Alceu Valença, Belchior, Wagner Franco, Chico Buarque, Caetano Veloso, entre outros.

Seguindo a estética do DVD, o show se inicia com “Agalopando” (Alceu Valença), e Oswaldo aproveita para entrar no palco em meio a atmosfera mística dos primeiros acordes da música. Em meio aos tecidos, e as luzes vermelhas e amarelas, a segunda música é “Não diga num blues” (José Alexandre/Mongol), deixando bem claro a musicalidade mais “rock n’ roll” deste projeto, em que Oswaldo toca guitarra e não violão.

Não perdendo a ordem das músicas feitas no DVD, entra Madalena Salles, para executar na flauta transversa a música “A Loucura Amarela”, imaginem de que cor o palco se encheu… Obviedades a parte, o show segue com a famosa canção de Belchior “A Palo Seco”. A versão de Oswaldo Montenegro ficou bonita, sem modificações expressivas (aliás, como todas as outras), porém, mais sentimentalista, e carregando sempre aquela estética apoteótica que o compositor colocou em todo seu show.

Ainda homenageando Belchior, toca-se a música “Na hora do almoço”, na qual se introduz um trecho de “Partido Alto” (Chico Buarque), essa sim ficou interessante. Madalena Salles não participa tanto com a transversa nesse espetáculo, ficando mais no teclado, porém, retorna a nos agraciar com seus sopros na música “Na primeira Manhã” (Alceu Valença).

Quebrando com a rotina, a banda toca “Do Muito e do Pouco” (Zé Ramalho), música que, acreditem, não está no DVD! Mas a minha alegria não deve ter sido compartilhada com o cantor que, pediu para a platéia cantar o refrão junto, porém a característica tímida do público porto-alegrense prevaleceu. O músico deve ter se sentido acuado, pois voltou a ordem cronológica do DVD tocando  a belíssima “A moça e o povo” (Alceu Valença), seguida pela não menos bela, “Pavão Mysteriozo” (Ednardo).

No embalo da beleza, da apoteose e do clima místico, são apresentadas ao público “Muito romântico” (Caetano Veloso), “Vapor barato” (Wally Salomão/Jards Macalé). Dando mais uma escapadinha no roteiro Oswaldo toca “Todo Mundo é lobo por dentro (Petulante)”, e tenta de novo animar o público a cantar o refrão, dessa vez já era possível ouvir um coro suave entre a platéia.

Na seqüência fica no palco só o cantor e o guitarrista Alexandre Meu Rei, para a execução de “Quando a Gente Ama”, “Aquela Coisa Toda”, e fechando o ciclo das composições próprias a bem conhecida “Lista”. Aos poucos, todos os músicos voltam ao palco para tocar “Deus lhe pague” (Chico Buarque), música que muitos podem pensar estar marcada no tempo, porém em épocas como a nossa, de ditaduras “invisíveis”, não há música mais atual que essa!

Se encaminhando para o final do show, ainda são apresentadas as músicas “Quebra Cabeça” (Paulinho Soares e Marcelo Silva), “Canalha” (Walter Franco) – e nessa o Montenegro conseguiu fazer o público perder a timidez e gritar numa forma de catarse, essa palavrinha mágica, que muitas vezes fica entalada na garganta depois que a gente lê o jornal pela manhã – “Travessuras”, “Lua e Flor”, “Estrada Nova” e finaliza com “Intuição”.

Quando eu achei que o Oswaldo tinha abandona o script, o pessoal pede um bis e o músico recita o poema “Metade”, com acompanhamento no piano. O poema foi seguido da belíssima “Bandolins”, a animada “Vamos Celebrar” e uma brincadeira com o público em que a música parava para que todos pudessem gritar bem alto o que quisessem.

Predileções artísticas a parte, Oswaldo Montenegro é digno do nosso reconhecimento, um artista de pensamento crítico aguçado, seu talento enquanto músico e instrumentista são inegáveis, e sua coragem em tentar levar a arte para além dela mesma, uma proeza, que não é feita por muitos numa sociedade que tem vivido a margem do silêncio.

Por: Samuel Nervo

Fotos: Jucinara Schena

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1 Comment

  1. Marcelo

    Eu sou fã do Oswaldo incodicionalmente. Talvez ele faça ou que muitos gostariam de fazer e não conseguem: “apenas o que gosta”. Isso levanta uma série de contradições entre os próprios músicos. Mas… ele está aí, fazendo o trabalho.
    Parabéns e Obrigado.

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