“Vamo fazer barulho POA..”

D2

Na última sexta, 12 de março, o bar Opinião recebeu uma pista, consistente, para aqueles que estavam à procura da batida perfeita. Uma apresentação de quem, como poucos, domina o chão onde pisa.

Em Porto Alegre, a sexta-feira se anunciou com clima agradável, céu limpo, e temperatura registrando 22 graus, às 21h25min.

No entanto, o horário marcado para o início do show, às 21h, era incomum para o bar, sobretudo, se tratando de uma sexta-feira. Infelizmente, ainda não temos uma cultura de shows cedo.

Mesmo assim, espero que a Opinião Produtora não se desestimule com a iniciativa, pelo contrário. Penso que shows de música, que são apresentações de arte, exposições de cultura, devem, sim, ocorrer em horário nobre.

Porém, desacostumado com a mudança, o público começou razoável, mesmo que tenha aumentando no decorrer da apresentação.

Dentro do Opinião, aproximadamente 800 pessoas fizeram-se presentes para conferir o início do show.

Fruto de São Cristóvão, zona norte do Rio de Janeiro, o rapper Marcelo D2 é o estereótipo do cidadão carioca, o malandro esperto, desenvolto, boa praça, que parece viver na base da camaradagem.

Talvez, por isso, nem foi preciso muita divulgação para o seu show. Até quinta retrasada, início do mês, ninguém sabia que ele viria. Pelo menos, não havia nada marcado na agenda.

Porém, para sorte dos presentes, Marcelo D2 não só veio como trouxe, também, sua banda e o espetacular Fernandinho BeatBox.

No seu estilo habitual, Marcelo D2 apareceu no palco do Opinião às 22h25min. Ele usava chapéu preto, camiseta cinza, calça jeans e tênis.

Depois de saudar os presentes, disse que estava ansioso esperando o momento de começar o show. Após a confidência, lançou o seu, já consagrado, jargão “Vamo fazer barulho, por…”

Junto com o ele, uma banda composta por quatro integrantes: guitarra, baixo, bateria e DJ.

Dividindo o palco, ao seu lado, o fenômeno das cordas vocais: o paulistano Fernandinho BeatBox.

Assim, o show começou com “A arte do barulho”, música que leva o mesmo nome do cd, e “gueto”, do álbum Meu Samba é Assim.

Animado, agitado, D2 interagia com a platéia. Na verdade, bastou entrar no palco para ter o público em suas mãos.

Na seqüência do show, para vibração geral, cantou “desabafo”. No refrão, os gaúchos substituíram a carioca Cláudia no refrão.

Apesar de, no começo do show, o público ser razoável, os que ali estavam vieram com vontade, dispostos a cantar..Tanto que cantavam, e participavam, em todas as músicas.

A apresentação prosseguiu com “1967”, do seu primeiro álbum solo, e “Pode acreditar (Meu Laiá Laiá)”, do álbum Arte do Barulho.

Durante a canção, enquanto D2 regia o público, no refrão, Fernandinho BeatBox reproduzia o som de um trombone. Nesse embalo, depois da música, o rapper carioca apresentou, oficialmente, seu parceiro ao público.

O paulistano foi anunciado, por D2, como o “extraordinário”. E, sem dúvidas, é.

Fernandinho BeatBox arranca da garganta, literalmente, todas as batidas possíveis. Sons que vão de percussão, bateria de escola de samba, passando pelo grave de um baixo, house music, até trompete e trombone.

Durante o carnaval, com certeza, ele poderia comandar uma bateria de escola de samba sem nenhum integrante. E ninguém sentiria a falta de componentes.

Então, para sua performance, a banda descansou por alguns minutos.

Junto com o percussionista vocal, Marcelo D2 abriu um leque de improvisos, antigos sucessos, e justas homenagens.

Com um copo de cerveja em mãos, ele ficou observando Fernandinho BeatBox brincar. Para mostrar suas habilidades, ele fez a introdução de clássicos do rock, como “Come As You Are”, do Nirvana, “Smoke On The Water”, do Deep Purple, e “Seven Nation Army”, da banda The White Stripes.

Simplesmente espetacular.

Ainda no medley, com BeatBox puxando a frente, D2 cantou um trecho de “Sunday Bloody Sunday”, da banda U2. A improvisação terminou com “Billie Jean”, de Michael Jackson, e um “Michael..U-hu..” fanfarrão, do bem-humorado paulistano.

Ao final, o carioca pediu para “fazer barulho”, porém, nem precisava. Diante da atuação de Fernandinho BeatBox, fazer barulho era pouco..talvez o mínimo.

Todavia, a participação estava apenas começando. Na continuação, o paulistano incorporou uma festa rave ambulante, com batidas dance, para vibração de todos.

Mostrando que é quase um comediante, terminou o improviso pronunciando “Ronaldo”, para gargalhadas extasiantes do público.

Logo em seguida, junto com a banda, emendou um medley de clássicos do sambista carioca Bezerra da Silva. Fernandinho fez as cuícas e repiques, e D2 cantou “malandragem dá um tempo”, “A semente” e “Cocada Boa”.

No improviso, freestyle, ainda sobrou ritmo, e fôlego, para “Vou Festejar” cantada por Beth Carvalho.

No palco do Opinião, o samba carioca recebia uma justa homenagem. O ritmo brasileiro foi invocado, celebrado e sacramentado, no melhor estilo.

Com isso, na pista, ou no mezanino, os presentes extravasavam, entrando no espírito da brincadeira. Afinal, quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé, já diria Moraes Moreira.

Voltando para suas canções, Marcelo D2 cantou “A maldição do samba” e “A procura da batida perfeita”.

Em seguida, o carioca relembrou o passado. Há 15 anos, em 1995, despontava no cenário musical brasileiro a banda Planet Hemp. Ou seja, junto com Bnegão e Cia, D2 lançava o seu primeiro disco, denominado Usuário.

Portanto, era o momento propício para um resgate histórico. E, desse jeito, foi feito.

Em um medley, o rapper relembrou clássicos da banda como “Mantenha o Respeito”, “dig dig dig”, “Quem tem Seda”, “021” e “Queimando tudo”.

Além disso, teve um trecho de “Samba Makossa”, de Chico Science, onde, no final da música, ele pediu para o público “fazer barulho” em homenagem a Jovelina Pérola Negra, sambista carioca e grande influência na carreira do cantor..

O show ainda contou com “Qual é”, um dos seus maiores sucessos, e “loadeando”. Na canção, Marcelo D2 convidou uma fã para subir ao palco e fazer às vezes de seu filho. Então, uma jovem, chamada Bruna, teve a oportunidade de cantar e dividir o palco com seu ídolo.

Diante desse clima de festa, comemorações, o carioca também cantou trechos de “No More Trouble” e “Exodos”, de Bob Marley.

Já na parte final do show, D2 recebeu outro rapper convidado e, também, cantou “Nega do cabelo duro”, outro clássico de sua antiga banda, Planet.

Antes de cantar a música, ele perguntou se havia alguma gaúcha, na platéia, que soubesse dançar o samba.

Para seu espanto, surpresa, e conhecimento, cerca de vinte e cinco gurias subiram ao palco.

Uma invasão feminina, de prendas farroupilha, na cadência do samba. E ali elas ficaram, entre passos de samba, frevo, rebolation, abraços e poses para fotos com o cantor.

Enfim, passava da meia-noite e Marcelo D2 prosseguia comandando a bagunça. Uma apresentação com cerca de duas horas de duração.

A exposição da arte do barulho e outras coisas mais..

E, nessa altura do campeonato, mais de 1.000 pessoas presenciavam a mistura da batida perfeita..

Aos 42 anos de idade, com 15 anos de carreira comercial, 4 discos lançados com o Planet Hemp, 5 álbuns na trajetória solo, e vários prêmios recebidos, Marcelo D2 segue na ativa, com o discurso autoral, afiado, engajado e, principalmente, expondo suas opiniões.

Um artista que “não se vendeu” para o sistema, como muitos previam, pelo contrário, soube usar a seu favor.

Procurando a batida perfeita, ele resgatou o samba raiz das profundezas do esquecimento. Trouxe o samba para a juventude, com outra roupagem.

Por isso, pode, também, ser considerado um dos responsáveis por essa nova onda de jovens cantando samba.

Além disso, através do seu canto, Marcelo D2 tem muitas coisas para falar, muitas feridas para cutucar, calos para pisar, falsos moralismos e hipocrisias para desmoralizar ou, pelo menos, confrontar.

E, culturalmente falando, essas atitudes são positivas, ainda mais nas artes, como a música, pois, diante do confronto é que surgem as reflexões.. E, sem contraditório, não há reflexão.

Então, “ Deixa, deixa, deixa ele dizer o que pensa dessa vida..ele precisa demais desabafar..”.

O show teve apoio da rádio Ipanema FM, Pop Rock FM e Lojas Trópico. A realização foi da Opinião Produtora.

Por: Silva Júnior

Fotos: Fabiana Menine

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