Espetaculation

Porto Alegre, 10 de março de 2010. Essa data ficará na história. Uma noite de amor à arte, uma verdadeira celebração da música reggae. Em poucas palavras, esta seria a melhor definição para o que ocorreu ontem, no Pepsi On Stage, em Porto Alegre.

Retornando à capital gaúcha, os californianos do Groundation deram uma aula de música. Uma palestra em acordes, ritmos, letras, melodias e virtuosismo.

Liderados por Harrison Stafford, ex-professor de História da Música Reggae, na Universidade de Sonoma, Califórnia, o grupo norte-americano não deixa dúvidas: o novo reggae passa por eles.

Depois de sair dos bancos acadêmicos, Stafford conseguiu, definitivamente, escrever sua banda na história do reggae. Passou de professor coadjuvante a mestre protagonista, comandando um doutorado musical em inovação, criatividade e competência.

A partir de então, há necessidade de atualizar os livros.

No entanto, antes de começar o show, a capital dos gaúchos recebeu uma chuva refrescante, bem-vinda, miúda, que caiu de mansinho, bem devagar.. Foi o suficiente para amenizar a temperatura que, por volta das 22h, registrava agradáveis 23 graus.

Durante a noite, na Avenida Severo Dullius, 1.995, em frente ao aeroporto Salgado Filho, muitos jovens direcionavam-se ao local indicado. Entretanto, a viagem era outra. O destino final era o Pepsi On Stage.

As escalas, na medida do possível, eram feitas nos ambulantes que vendiam água, cerveja, cachorro quente e, até, churrasquinho de gato-bovino..

Dentro da casa de shows, cerca de 2.500 pessoas fizeram-se presentes para uma noite que reuniu o reggae roots, tradicional, do Israel Vibration e o reggae contemporâneo, jazzístico, requintado, do Groundation.

E começou cedo.

Por volta das 23h, os norte-americanos foram os primeiros a subir no palco para iniciar a viagem. E, logo cedo, já decolaram.

No palco, nove integrantes: Harrison Stafford (vocal/guitarra), Ryan Newman (baixo), Marcus Urani (teclados), David “Diesel” Chachere (trompete), Kelsey Howard (trombone), Paul Spina (bateria), Kerry Ann Morgan e Kim Pommel (backing vocais) e Bem Krames (percussão).

Puxando a frente, com seu carisma peculiar, Stafford usava calça marrom, camisa preta e uma bandana vermelha. Comandava toda função.

No repertório do show, alguns sucessos como “something more”, “Jah Jah Know” , “Congress man”, “Babylon rule dem” e “Freedom taking over”, além de canções do novo disco.

Todavia, falar em Groundation, sem mencionar virtuosismo, é difícil. Em cada música, um solo diferente.

Foi assim com Bem Krames que, em certa altura, durante mais de dois minutos, destruiu sua percussão, no bom sentido, com batuques enlouquecidos, sincronizados, levando o público ao delírio.

Era vibração geral, tanto do público, quanto dos músicos..

O mesmo ocorreu com Kelsey Howard, no trombone, e David Chachere, no trompete. Dos metais eles tiravam sopros alucinantes, melódicos, envolventes, sobretudo, em “something more” e “babylon rule dem”.

Nos vocais, as jovens Kerry Ann Morgan e Kim Pommel estavam eufóricas, com destaque para a segunda, que dançava sem parar. A coreografia era livre, ou melhor, elas estavam pautadas pelo ritmo do momento.

A impressão que dava era que a banda brincava de fazer música. Tocava sem regras, de peito aberto, com a alma livre. E isto é arte, a real definição de música.

Por isso, em cada canção, diversos solos, levando cada música para uns 7 ou 8 minutos de duração.. pura criatividade e habilidade musical.

O show ainda contou com “Here I Am”, música do novo álbum, que leva o mesmo nome, e “Soul Rebel”, de Bob Marley.

Esse novo álbum, segundo os próprios integrantes, é uma declaração de presença, ação e comprometimento com o mundo. Um grito de alerta para os perigos do alvorecer de século 21.

A banda californiana apresentou-se durante 1h30min. No entanto, passou rápido demais.

Desse modo, às 00h25min, enaltecidos pelo público, encerraram com “Undivided”, música gravada junto com Don Carlos, ex-integrante da banda Black Uruhu. A canção teve um “solo-vocal” do próprio Stafford.

Os californianos mal haviam se despedido e, aos gritos do público, voltaram para o bis. Foram reverenciados, ovacionados, venerados através de muitos aplausos, e gritos, que, praticamente, tomaram conta do Pepsi On Stage.. Altos decibéis de reconhecimento..

Com isso, fecharam a passagem por Porto Alegre com “punky reggae party”, música de Bob Marley que fala, na letra, sobre as semelhanças entre os punks e os regueiros.

Na parte final da música, Marcus Urani protagonizou um solo espetacular. Com um semblante simples (pois usava boné, camiseta, bermuda e chinelo de dedo), Urani parecia transformar-se em um polvo, com oito braços, quando começou a tocar. Tirou sons inimagináveis de seu teclado. Um baita tecladista.

Quer dizer, tratando-se de Groundation, um final monumental, apoteótico. E não poderia ser diferente.

Até o baixista, Ryan Newman, no clima, não se acanhou e tirou uma foto do público, após a música.

Depois da apresentação, ficou uma certeza: seria difícil superar, ou surpreender os presentes.. Todavia, faltavam os jamaicanos, ou seja, os pais do gênero musical.

Israel Vibration

Depois de 30 minutos de espera, lá estavam eles. Ao todo, nove integrantes, entre guitarra base, guitarra solo, baixo, teclado, bateria e vocais.

Entretanto, a entrada no palco foi feita gradativamente.

Criada no final dos anos 70, a Israel Vibration é liderada por Cecil “Skelly” Spence e Lascelle “Wiss” Bulgin, velhos amigos de infância.

Ambos se conheceram devido uma fatalidade: a poliomielite.

A poliomielite surge através de uma infecção causada por um vírus que ataca as células nervosas do cérebro e, também, na espinha dorsal, parte que controla os movimentos voluntários, como o caminhar.

Uma doença complicada, que traz seqüelas irreversíveis..

Porém, ancorados pela fé, e com muita força de vontade, vontade de vencer, os dois amigos enfrentaram a doença. Procurando uma cura espiritual, eles decidiram criar a banda Israel Vibration e, assim, espalhar suas mensagens de paz, justiça e amor à vida pelo mundo.

Mais do que músicos, eles são exemplos de vida.

Agora, voltando ao show, era 01h10min quando os integrantes da banda entraram no palco. Guitarra base, guitarra solo, baixo, teclado e bateria. Todos acima dos 50 anos.

O mais animado era o guitarrista solo. Assim que entrou, ele tomou a iniciativa e começou a interagir com o público.

Porém, faltavam os amigos Skelly e Wiss. Na espera, diante do palco, diversas pessoas focalizavam os músicos através do ângulo de suas câmeras digitais.

Havia uma grande expectativa.

Na banda de apoio, destacava-se o baixista, vestido com uma roupa predominantemente branca, com listras em vermelho e preto. Ele praticamente abraçava o seu baixo, chamando-o para dançar.

Sobressaia-se, também, o guitarrista base, vestido todo de preto, e com a cara do Morgan Freeman.

O quinteto iniciou o show com “freedom sound”, música dos conterrâneos do Skatalites.

Pouco a pouco, foram surgindo o restante da banda. Primeiro surgiu as duas backing vocais. Então, para vibração dos presentes, entraram no palco os dois amigos.

Vestidos da mesma forma, com camisas e calças azuis, os guerreiros jamaicanos caminhavam lentamente, com o auxilio de suas muletas.

Cecil “Skelly” Spence tinha maior facilidade na caminhada e Lascelle “Wiss” Bulgin, nitidamente, mais dificuldade.

Uma imagem que retrata o poder de transformação gerado pela arte, neste caso, a música.. A vitória da vida.

Skelly transparecia felicidade e utilizava a muleta como “escada” para passos de dança. Destilava, para o público, toda sua malemolência. Nesse embalo, foi direto ao microfone, localizado no centro do palco.

Ao seu lado, em outro microfone, mais à esquerda, ficou o parceiro Wiss. Perfeitamente planejado, eles se revezavam para cantar.

Cada um cantava duas músicas e, após, sedia o microfone central para o outro. Desse jeito, calmamente, eles trocavam de lugar.

Entre as músicas apresentadas, “Back Stabba”, “ Rudeboy Shufflin”, “Feelin’Irie”, e “Cool and Calm”.

Durante a apresentação, Skelly demonstrava mais entusiasmo. Ele interagia, cantava, pedia que o público cantasse.

O seu parceiro de banda, Wiss, era mais contido, embora, diversas vezes, tenha levantado grandes coros.. como fez em “Vultures”.

O único problema era quando eles dialogavam com a platéia, tranquilamente, em inglês. Por isso, algumas vezes, não foram correspondidos em determinadas canções..

Porém, o público, hipnotizado, estava anestesiado diante dos representantes da história da música reggae. Mais uma banda clássica que desembarcara em Porto Alegre.

Outro momento marcante da noite ocorreu em “Ball of fire”, onde Skelly pediu para todos erguerem seus isqueiros, celulares e câmeras digitais..

As luzes do palco foram diminuídas e o clima ficou perfeito para o canto de Cecil “Skelly” Spence. Aliás, a iluminação e o sistema de som estavam condizentes com o espetáculo.

Skelly também fez o público vibrar em “The same song”, um dos mais consagrados clássicos do Israel Vibration..

Enfim, terminaram a apresentação, às 02h40min, com um “Oubrigado Porto Alegre”.. Assim como fez a banda Groundation que agradeceu o público na língua nativa..

Um show para coroar o gênero musical jamaicano que, graças a Bob Marley, se espalhou pelos quatro cantos do planeta. Um estilo que ganhou o mundo e, nas mãos de Groundation, reinventa-se.

A turnê brasileira de Israel Vibration e Groudation ainda irá passar por Florianópolis, Salvador e São Paulo. Então, fique ligado.

Um novo reggae, em movimento, em transformação, como tem que ser. Porém, sem nunca esquecermos a origem: A terra onde brotou a semente; E a raiz, roots, onde floresceram os frutos.

O show contou com a promoção da rádio Ipanema FM e realização Opinião Produtora.

Aos interessados:

Durante o show, duas novas atrações foram anunciadas pela equipe Opinião:

Em Abril, Ponto de Equilíbrio, juntamente com Don Carlos, lançando o novo cd.

Em Maio, direto das Ilhas Virgens, Bambu Station..

Por: Silva Júnior

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