Natiruts Reggae Power…

Criada em 1996, em Brasília, Distrito Federal, a banda Natiruts fez uma apresentação em grande estilo e para um grande público.

No bar Opinião, o reggae do planalto central foi cultuado em uma celebração musical. Uma cerimônia com a presença de, aproximadamente, 1.500 fiéis, entre devotos, devotas e simpatizantes.

Antigamente chamada de Nativus, até ser obrigada a trocar de nome, devido um processo movido por um grupo regionalista, os brasilienses apresentaram aos gaúchos um show que teve de tudo, dos antigos sucessos, quando a banda ainda carregava o nome Nativus, até o seu mais recente trabalho, denominado “Raçaman”.

Procedentes da babilônia política brasileira, o grupo veio a Porto Alegre com o aval de ser uma das mais tradicionais bandas do gênero no país.

Porém, antes do show, às 23h25min, a movimentação na Rua José do Patrocínio dava um panorama do espetáculo. Em grande número, o público predominantemente jovem dirigia-se a casa de shows para prestigiar o evento.

Por isso, logo cedo, longas filas foram formadas na bilheteria e na entrada do bar.

O tumulto na entrada do Opinião demonstrava que, também, haveria certo atraso no início da apresentação, marcada para as 23h..

Assim, aos poucos, os presentes foram adentrando ao recinto e preenchendo os espaços vagos.

Quando o relógio marcava 00h05min, o bar estava completamente lotado e o público já demonstrava toda sua ansiedade. Impaciente, aos gritos e assobios pediam a presença da banda.

Na frente do palco, uma cortina preta tapava a visão de todos que, logo, não imaginavam o que estava por detrás. Na frente do pano, um telão exibia vídeos de surf e anunciava as próximas atrações da casa de shows.

Paralelamente, no mezanino, o sistema de ventilação trabalhava “a milhão” para amenizar o calor que emergia das cinzas, da última brasa.

De qualquer maneira, à noite representava uma despedida. Tratava-se do último calor de verão já que, no sábado, começa oficialmente o outono.

Ou seja, de certa forma, o público também participava de um rito de passagem.

Portanto, a derradeira sexta-feira da estação despontou com uma novidade. Ganhou de presente, da quinta-feira, um show. Uma celebração no último dia de alvorecer do verão.

Então, na sexta-feira, 19 de março, às 00h25min, o telão foi suspenso, as cortinas foram abertas e, ovacionados pelo público, a banda do Distrito Federal ingressou no palco do bar Opinião.

Na composição do grupo, dez músicos entre backing vocal, guitarra solo, guitarra base, baixo, bateria, trompete, trombone, percussão e teclado.

Acompanhando o espetáculo, na cenografia do show, destaque para o “pano de fundo” que simulava grandes azulejos brancos, com desenhos circulares estilizados em formato de leme, lua, sol, entre outros, criando um enorme mosaico.

Também havia peças brancas, circulares, penduradas no teto, deixando um clima esotérico, místico, no ar. Belo cenário.

Puxando a frente do grupo, o vocalista, guitarrista e compositor da maioria das músicas, Alexandre Carlo surgiu calçando tênis branco e vestindo calça jeans, camiseta e boné preto.. Foi direto ao microfone.

A apresentação dos brasilienses iniciou com as canções do álbum “Raçaman”, como a música que leva o mesmo nome e “groove bom”.  Quase sempre acompanhado pelas vozes da platéia, a banda seguiu o show com “naticongo”..

Com isso, depois das três primeiras músicas, o vocalista falou com o público gaúcho pela primeira vez.

Após o discurso habitual, de agradecimentos e cordialidades, relembrou um show realizado no Auditório Araújo Vianna. Aos porto-alegrenses, também pediu que, em solidariedade, mandassem “energias positivas” para o Chile e o Haiti.

Logo em seguida, com sua guitarra, puxou um dos primeiros sucessos da banda.

Na pista do bar, os fãs vibraram quando identificaram os acordes de “presente de um beija-flor”, do primeiro álbum, Nativus, de 1997.

Com intensa participação do público, seja nas palmas, na histeria, no gogó, ou no suingue, os brasilienses tinham domínio total da situação.

O percussionista Denny Conceição, por exemplo, refletia o espírito da banda. Era só alegria. Tocava seu tambor, agogô e Xequerê com um sorriso largo no rosto.

Ele interagia, ritmicamente, com o baterista, Juninho, e o baixista, Luis Maurício. Os dois últimos, junto com Alexandre, remanescentes da formação original.

Aliás, falando em sonoridade, vale ressaltar a qualidade do áudio, com ênfase no microfone do vocalista, que permitiu, ao público, uma total compreensão das letras e discursos.

Também é necessário mencionar a iluminação que, quando contrastada com os azulejos cenográficos, trazia percepções diferentes do mesmo objeto.

Quer dizer, diante dessa junção de fatores, a sensação era que, nas dependências do bar, havia uma conspiração cósmica, uma fumaça de luz, descarregando bons fluidos aos presentes.

A apresentação continuou com “verbalize”, outra música cantada em coro, do álbum que leva o mesmo nome.  Em seguida, do disco Raçaman, teve “glamour tropical” e “arco-íris e planetas”.

Em determinados momentos, apesar de certa timidez, Alexandre deixava a guitarra de lado e, como se fora um mestre de cerimônia, comandava a platéia.

Assim, em outro momento de enorme vibração, relembrou mais um clássico da banda em “quero ser feliz também”.

Na canção, sintonizados com o cantor, o público assumiu os vocais no refrão. Em alto e bom som desabafou:  “Quero ser feliz também/ navegar nas águas do teu mar/desejar para tudo o que vem/Flores brancas, paz e Iemanjá..”.

Nessa altura, as vozes femininas, nitidamente, destacavam-se na multidão. Neste caso, elas eram o décimo primeiro jogador… ou, melhor, cantor..

Do disco Povo Brasileiro, a banda apresentou a canção “palmares 1999”, música que fala sobre o alagoano Zumbi dos Palmares, líder negro de todas as raças.

Na letra, uma provocação aos opressores: “A cultura e o folclore são meus/Mas os livros foi você quem escreveu/Quem garante que palmares se entregou/ Quem garante que Zumbi você matou”..

A passagem da banda por Porto Alegre teve ainda “leve com você” que, no final, teve um trecho de “Purple haze”, de Jimi Hendrix, e “espero que um dia”, do álbum denominado Qu4tro, de 2002.

Na parte final do show, a banda ainda resgatou clássicos da carreira como “Natiruts reggae Power”, “eu e ela” e “liberdade pra dentro da cabeça”.

Intercalando os sucessos com as novas canções, os brasilienses mostram que possuem um público cativo. Uma relação de sucesso, e reconhecimento, que perdura por mais de uma década.

No ano em que completa 50 anos, Brasília pode orgulhar-se de muitas coisas. Entre elas, principalmente, de seu povo honesto, imigrante, trabalhador, criativo, que, literalmente, ergueu com os braços a capital do país.

Por outro lado, se na política do cerrado reina a picaretagem, a tramóia, as falcatruas, com ou sem arruda, nos palcos culturais a capital federal forma grandes artistas constantemente.

No avião de concreto, de Niemeyer, surgem, a cada dia, diversas bandas, de todos os estilos, como o Natiruts, mostrando o talento do cerrado central brasileiro.

Filhos ilustres do lago Paranoá, frutos artísticos de uma árvore contraditória, porém, efervescente.

Natiruts representa um estilo nativo, de berço jamaicano, porém, com forte influência orgânica, da terra, e das raízes culturais brasileiras.

O show teve promoção da rádio Pop Rock FM, apoio das Lojas Multisom e realização Opinião Produtora.

Por: Silva Júnior

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6 Comments

  1. Ica

    Meu Deus, isso foi um retrato muito fiel do que foi o Show! Palmas para Silva Junior, que eu não conheço mas acabo de respeitar!
    Cheguei a me emocionar ao ler este artigo!
    Parabéns!

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  2. Heloisa

    Faço minhas as palavras de Ica! Parabéns Silva Junior, lendo isso parece que eu estava lá denovo, fiquei toda arrepiada! foi o melhor show deles dos últimos tempos, na minha opinião. Estou torcendo para que eles voltem logo né! hehehe

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  3. Carolina

    “Ou seja, de certa forma, o público também participava de um rito de passagem.” Certamente, Silva Júnior! Esse espetáculo foi, sem dúvidas, a melhor forma de receber o novo ano astrológico, que então se anunciava, bem como o outono 🙂
    Momentos como esse são sempre uma graça! Fico feliz em lembrar dessa noite… it’s the Reggae Power!

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  5. marcia carvalho

    Gostei muito sobre essa reportagem sobre o show do natiruts em brasilia.No entanto faço reverencia ao comentario sobre o percussionista DENNY CONCEIÇAO pois o cara é gente boã,e um super, mega musico.

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