Vitor Ramil de volta às milongas e a Porto Alegre.

Vitor Ramil

13 anos após o lançamento de Ramilonga, Vitor Ramil volta à temática regional com seu mais recente trabalho, Delibáb, que teve seu lançamento na noite deste sábado no teatro do Bourbon Country. E não é que o clima estava mesmo propício para uma milonga? A temperatura estava amena, o tempo fechado e uma leve garoa caía de vez em quando sobre Porto Alegre. Só faltava agora Vitor fazer a parte dele.

Não vou me estender muito acerca do conceito do disco, já bem explorado pelas matérias publicadas antes do show em alguns veículos de informação. Creio ser necessário somente comentar, para quem ainda não sabe, que este trabalho tem uma temática muito próxima do disco acima citado, Ramilonga. Sendo Delibáb mais rígido no seu conceito de milonga, menos experimental e um pouco mais simples que seu irmão mais velho. Vitor musicou vários poemas de João da Cunha Vargas e Luiz Carlos Borges, conseguindo resultados muito interessantes em todas as suas empreitadas. Nestas bases é que se sustentou a apresentação.

O show conta com poucos recursos extras musicais, é apenas Vitor com seus violões de aço e o músico argentino Carlos Moscardini no violão de nylon, que foi o responsável pelos belos arranjos que se ouve no disco. Aliás, a escolha de Moscardini foi extremamente feliz e fundamental para as composições ganharem a devida atmosfera que necessitavam. Ainda para compor o ambiente, em cima do palco, dois tapetes e um pano de fundo em que eram projetadas algumas pinturas iluminadas de acordo com o clima da música no momento executada.

Todas as composições do disco novo foram tocadas. Algumas totalmente inéditas, outras, como é o caso de “Milonga de Manuel Flores”, agora cantada em espanhol e “Deixando o pago”, que ganhou um arranjo mais refinado do que o escutado em Ramilonga, já constavam em outros discos do cantor. Na primeira etapa do show ainda incluíram a maravilhosa “Querência”, também de João da Cunha Vargas, mas gravada no disco Longes.

Esbanjando simpatia e dialogando com o público durante todo o show, Vitor e Moscardini faziam um contraste muito salutar e enriquecedor para apresentação, com uma atmosfera ora bela ora densa das músicas apresentadas. Sobre as novas composições devo dizer que, sem exceção, são de um bom gosto extremo. Confesso que estava um pouco receoso sobre o que esperar deste novo trabalho. A chance de errar a mão ao transportar um poema para um corpo musical é muito grande, e no caso de Delibáb seriam 12 chances. Mas justiça seja feita: eu estava errado. É impressionante como Vitor desenvolveu ao longo do tempo uma habilidade impar em se tratando de musicar poemas. Dono de uma sensibilidade apurada sabe captar o sentimento exato de cada texto que deseja trabalhar. Os melhores exemplos da apresentação ficaram por conta de faixas como “Chimarrão”, que ganhou um arranjo impressionante de Moscardini no violão de nylon, por vezes soando como as melodias mais inspiradas de seu conterrâneo Atahualpa Yupanqui; “Milonga de los morenos”, que possui uma melodia deliciosa e simples que no CD contou com a participação especial de Caetano Veloso; e por fim, só para não alongar demais, pois todas as canções merecem destaque, chamo a atenção para “Mango”, poema de Vargas que ganhou ainda mais força na roupagem harmônica crua e ao mesmo tempo refinada do violão de Vitor.

Todos os poemas de Borges foram extraídos de seu livro “Para las seis cuerdas” e quando o autor falava sobre eles, tratando-os por milongas, sugeria ainda que, quando lidas, fossem imaginadas sendo declamadas por um violonista. O primeiro a encarnar esse músico mítico de Borges foi Vitor e posso apostar que os dois homenageados, Vargas e Borges, ficariam lisonjeados com o trabalho honesto e altamente cuidadoso que foi conferido às suas obras.

Ao término da apresentação tivemos uma homenagem a cidade de Porto Alegre, uma das mais bonitas, diga-se de passagem: “Ramilonga” transportou os presentes pelas ruas da capital em uma atmosfera melancólica e singular. Outro poema, mas dessa vez de Fernando Pessoa, também fez a alegria do público que cantou baixinho a letra de “Noite de São João” e para despedida a clássica “Semeadura”, cantada em português e espanhol e fechando de maneira bela e simbólica esta apresentação de Vitor Ramil na capital gaúcha. Uma linda noite, abrilhantada por dois músicos do mais alto gabarito e amparados pelas obras de dois grandes poetas. O lançamento de Delibáb não tinha como dar errado. Fenômeno!

Por: Angelo Borba

Fotos: Samuel Nervo

Related posts

1 Comment

  1. Pingback: Tweets that mention Vitor Ramil de volta às milongas e a Porto Alegre. | POA SHOW -- Topsy.com

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *