Diogo Nogueira: “Tô fazendo a minha parte”

Diogo Nogueira

Na linguagem do ritmo, Diogo Nogueira seria um dos representantes da nova guarda. Ele tem o samba no sangue, correndo nas veias, e é discípulo de uma escola recheada de notáveis.

Assim, na sua passagem por Porto Alegre, o cantor também fez questão de relembrá-los.

Entretanto, como diria Lulu Santos: “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite..”.

Acontece que, ontem, no impecável teatro do Sesi, na Av. Assis Brasil, os gaúchos já sabiam o que esperar.  E as mulheres, em maior número, estavam mais ansiosas, no aguardo.

Em Porto Alegre, o anoitecer despontou com temperatura na casa dos 18 graus. Isso, claro, sem considerar o vento minuano, malandro, valente, sempre presente nos altos da zona norte.

Filho de João Nogueira, cantor e compositor, Diogo Nogueira relutou um pouco antes de enveredar na carreira artística. Antes de priorizar a música, o carioca foi centroavante do Cruzeiro de Porto Alegre e, segundo ele, só largou o esporte devido uma contusão no joelho.

Então, para sorte (ou azar) dos zagueiros, o carioca trocou o gramado pelos palcos. Substituiu os dribles pelos passos de dança. Pendurou as chuteiras para empunhar o microfone. Mudou de profissão, mas, continuou com a mesma função: levantar a torcida, “reger” o público.

No palco Diogo Nogueira joga em casa, é o mandante. Além disso, na platéia, traz consigo os fãs do pai, os mais experientes, vividos, apreciadores do samba raiz de antigamente.

Por isso, na noite de ontem, o público no teatro do Sesi contemplava todas as faixas-etárias. Aproximadamente 1.500 pessoas acomodaram-se nas cadeiras do teatro para prestigiar o cantor.

Então, às 21h15min as cortinas se abriram. No vasto tablado do teatro, uma banda com oito integrantes, todos com a mesma roupa. Vestiam camisetas pretas com listras brancas, que simulavam suspensórios.

Os músicos estavam distribuídos entre contrabaixo, cavaquinho, violão, surdo, tan-tan, pandeiro, bateria e flauta. No lado direito, do palco, estava posicionada a percussão e a bateria enquanto, no outro lado, ficavam os instrumentos de cordas e a flauta.

No pano de fundo, fotos do cantor em alguma praia carioca traziam o clima da Guanabara ao palco gaúcho.

Assim, para vibração do público, sobretudo, o feminino, Diogo Nogueira surgiu no palco todo de branco. Sapato, calça, camiseta e blazer.

A primeira música do show foi “Deus é mais” e logo emendou com “Presente de Deus”.

Depois das músicas, Diogo cumprimentou os presentes e falou da satisfação de estar em solo gaúcho. Em contrapartida, ouvia gritos histéricos de “caso contigo” ou frases do tipo.

Notava-se, ali, um certo descontrole emocional, porém, saudável, das fãs-admiradoras.

Na conversa com o público, disse que “tudo que fazia na vida era com muito amor, carinho e fé em Deus..”. Foi à deixa da próxima canção, chamada “fé em Deus”.

Na medida em que o show avançava, o público se soltava. Alguns trocaram o conforto das poltronas pelos espaços livres, nos corredores que davam acesso às fileiras. Outras pessoas dançavam sentadas, no balanço dos troncos, no vai-e-vem dos braços, e na ginga da mente.

Na platéia, cerca de uma dezena de mulheres permaneciam em pé, localizadas nas laterais do palco, com máquinas fotográficas em punho, esperando a aproximação do cantor.

A batucada rolava solta até que o carioca questionou: “Quem conhece João Nogueira?”.

Diante de uma saudosa reação da platéia, principalmente, da velha guarda, Diogo cantou sucessos do pai, como “Poder da criação”, “batendo a porta” e “nó na madeira”.

Desenvolto no palco, transitando por todos os lados, ele fazia o meio de campo com os presentes.

Na seqüência do show, pediu as palmas do público e cantou “Tô te querendo”, música nova que estará no próximo cd.

No entanto, antes de cantá-la, pediu à produção que desligasse o ar-condicionado do palco. Alegou que estava muito frio e que, assim, poderia perder a voz. A partir disso, o show começou a ficar mais quente, em todos os sentidos..

Acompanhado de uma baita banda, com destaque para Vitor Neto (flauta), Henrique Garcia (cavaquinho), e Cacau de Castro (surdo e voz), Diogo cantou “ex-amor”, de Martinho da Vila, e “Deixa eu te amar”, de Agepe.

Nessa altura do campeonato, o público extravasava, cantava o refrão de peito aberto, em coro: “Deixa eu te amar/faz de conta que sou o primeiro/Na beleza desse teu olhar/Eu quero estar o tempo inteiro..”.

Aproveitando o clima de entrega, cumplicidade, ele prosseguiu com “Tô fazendo a minha parte”, do álbum que leva o mesmo nome.

Na letra: “Quem sabe o que quer nunca perde a esperança não/Por mais que a bonança demore a chegar/A dificuldade também nos ensina/A dar a volta por cima/E não deixar de sonhar..”.

No entanto, havia algumas surpresas. Depois da música, na platéia, uma jovem esticou os braços e gritou “Eu quero dançar com você..”.

Para surpresa dos presentes, pelo menos a minha, o cantor traçou um diálogo com a jovem e, inclusive, a convidou para subir ao palco. Ela prontamente foi.

Então, no palco, quando começou a dançar, ela deu uma aula de dança. A jovem rodava seu vestido vermelho com maestria, sensualidade e extrema competência.

Para os homens que ficaram escutando a histeria das mulheres, pelo cantor, a dançarina serviu como um colírio para os olhos..

Todavia, depois da dança, Diogo Nogueira confidenciou que estava tudo combinado. Tratava-se de uma dançarina profissional, carioca, chamada Carol e aluna da Academia de Dança de Carlinhos de Jesus.

Após essa revelação, outra “surpresa” foi apresentada. O cantor convidou o público a se “teletransportar” à Lapa, berço da boemia carioca.

Nesse momento, o pano de fundo do palco começou a mudar. As fotos da praia foram trocadas por imagens de prédios antigos do bairro carioca, além dos tradicionais arcos da Lapa.

Então, para minha surpresa, o cantor saiu do palco e foi trocar de roupa. Contudo, ao invés de trocar-se na coxia, ele trocou-se atrás do pano de fundo que, neste momento, ficou transparente.

Ou seja, o público via a sombra do cantor trocando de roupa, entre as ruas e prédios da Lapa.

Obviamente os gritos femininos tomaram conta do teatro. Foi a primeira vez que vi algo do tipo em um show de música.

Enquanto a cena se desenrolava, na música, a banda acompanhava o flautista Vitor Neto que puxava um chorinho na sua flauta doce.

Logo, quando voltou, com outra roupa, calça cinza, camisa azul e colete escuro, Nogueira puxou um samba de gafieira.

Paralelamente, convidou para retornar ao palco a bela dançarina, Carol, e seu parceiro de dança, Sandro.

Assim, a atmosfera da Lapa nascia em “Malandro é malandro”, “Sou Eu”, composição que Chico Buarque fez para Diogo, “Não dá” e “Amor imperfeito”, outra canção que estará no novo cd.

O casal de dançarinos rodava pra lá, rodava pra cá, dava piruetas no ar, isto é, causava inveja naqueles sem flexibilidade no quadril.

Em certa altura, o cantor foi reconhecer o terreno. Desceu do palco e foi ao encontro do público que, entre fotos, e abraços, tinha o artista ao seu lado.

A função ainda continuou com um pout-porri de Zeca Pagodinho em “Eu prefiro acreditar”, “Coração em desalinho” e “Deixa a vida me levar”.

Quando terminou de cantar, Diogo fez uma justa homenagem. Um dos grandes momentos da noite.

Na platéia, com a família, curtindo o show, estava Paulo Paixão. O preparador físico da Seleção Brasileira de Futebol. O único profissional, acho, que foi bicampeão da Libertadores, e do Mundo, com a dupla Grenal.

Ao identificá-lo, o sambista carioca pediu que Paulo Paixão ficasse em pé e, assim, o mestre da preparação física foi aclamado, ovacionado, reverenciado por todos os presentes. Bela cena de valorização do trabalho, reconhecimento. Justíssima homenagem ao preparador físico do Grêmio.

Na parte final do show, Diogo Nogueira ainda resgatou clássicos da Sapucaí. Cantou sambas enredos que marcaram época e entraram para a história.

Iniciou com “exaltação a Mangueira”, depois emendou com “Aquarela do Brasil”, da Império Serrano, e terminou com “É hoje”, da União da Ilha.

No bis teve “Espelho”, “Pedras que cantam”, interpretada pelo Fágner, e “Vou festejar”, clássico na voz de Beth Carvalho.

Um show vibrante, contagiante, e com, aproximadamente, 1h45min de duração.

Diogo Nogueira faz parte da nova guarda do samba, que inova, cria, porém, sem deixar de relembrar, e resgatar, os mestres do passado.

Os grandes professores que sustentaram e consolidaram esse ritmo que é a alma do Brasil.

Artistas que, muitas vezes, passam a vida no anonimato, sem conseguir degustar o bônus do reconhecimento.

Diogo Nogueira alia a essência do samba, a raiz da cultura, com o marketing do bom moço, de bom partido..

Enfim, se nos gramados da vida a trajetória é curta e, muitas vezes, desafortunada, traiçoeira, nos palcos da música o cantor tem uma estrada promissora pela frente.

E, também, possui uma grande vantagem: Não terá nenhuma torcida contra.

A apresentação do sambista fez parte do projeto Samba no Teatro no qual, desde já, cumprimento os idealizadores. O Brasil é o país da cultura popular.

Portanto, nada mais correto, justo e recomendável que ela esteja no teatro, disseminando-se, integrando-se com outras expressões artísticas, fazendo essa miscigenação cultural.

O show teve promoção da rádio Cidade FM e do jornal Diário Gaúcho, apoio Lojas Multisom e realização Opinião Produtora.

Por: Silva Júnior

Fotos: Jacqueline Oliveira

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1 comentário

  1. Christiane

    Bom dia Silva Jr,
    gostei da matéria, mas gostaria de fazer uma correção.
    a daçarina que sobbe ao palco com o Diogo Nogueira chama-se Carol Vila Nova, e ela é professora da Academia do Carlinhos de Jesus, e não aluna como saiu na matéria.
    Obrigada.

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