Maria Gadú em Porto Alegre

A quinta-feira começou ranzinza na capital farroupilha. Embora o calor estivesse acima da média para a estação, o céu nublado denunciava as pegadas do tempo. Desse modo, pouco a pouco, as nuvens foram encobrindo o céu dos gaúchos até que a chuva veio medrosa, porém, refrescante. Nessa combinação climática, a temperatura foi caindo gradativamente.

Assim, às 22h50min, o termômetro da Av. Borges de Medeiros registrara 17 graus, fora o vento miúdo.

Todavia, para abrilhantar à noite, São Pedro colaborou. A chuva deu uma trégua, as estrelas apareceram e, no céu, as três Marias puderam acompanhar, do alto, o deslocamento da quarta, no caso, Gadú.

Aos 23 anos, a cantora mostra que, musicalmente falando, há esperança na nova geração..Para quem nunca tinha visto seu show, como eu, ficou a agradável surpresa de assistir uma baita cantora, autêntica, com qualidade, personalidade e, sobretudo, muito talento.

Nascida em São Paulo, mas, radicada no Rio de Janeiro, Maria Gadú ganhou destaque nacional com “shimbalaiê”, executada, literalmente, na novela Viver a Vida, da rede Globo.

Falo isso porque nas novelas, geralmente, as músicas são tocadas por 30 segundos, no máximo. Desse modo, os trechos que simbolizam lugares, identificam personagens ou anunciam momentos, se repetem incessantemente.

Foi o que ocorreu com “shimbalaiê” que, para muitos, chegou a “enjoar”. Logo, causou equivocadas objeções ao trabalho da cantora. Porém, para as pessoas que rotulam Maria Gadú somente por essa música, vos aviso: ela é muito mais, e o melhor ainda está por vir..

Acontece que, por outro lado, foi justamente à novela que abriu as portas da fama e, conseqüentemente, do reconhecimento para a cantora. Uma oportunidade que, provavelmente, será lembrada saudosamente por ela, daqui muitos anos.

Agora, voltando ao show, quando os ponteiros marcavam 23h24min Maria Gadú subiu ao palco do Opinião. Utilizava um boné e vestia camiseta regata, cor preta, calça jeans e tênis. Também usava óculos.

Entrou e, como de costume, foi sentar-se em um banquinho de bar, localizado diante do pedestal. Trazia consigo o violão.

Ao pegar o microfone, saudou os presentes e começou a apresentação com “encontro”.

Outra surpresa da noite foi ver a participação do público. Aproximadamente 1.200 vozes cantavam verso a verso, sem parar, mostrando total conhecimento das músicas da paulistana.

Entre eles, muitos casais, jovens, senhores e senhoritas prestigiavam a cantora.

Quando terminou a primeira música, os gritos da platéia mesclavam-se com os aplausos e assobios. No palco, visivelmente feliz pela recepção, Maria Gadú exibia um sorriso largo, pleno, porém, tímido.

O show continuou com “bela flor” e “shimbalaiê” que, tocada na íntegra, arrancou muitos aplausos e, nas cordas vocais do público, decibéis de reconhecimento.

Acompanhando a cantora uma banda composta de cinco músicos, entre baixo, teclado, percussão, bateria e guitarra. Por problemas técnicos, de audição, não consegui pegar o nome dos músicos na totalidade, contudo, saúdo todos destacando o baterista, João Viana, filho do Djavan, e o guitarrista Fernando Caneca.

Dando continuidade, Maria Gadú cantou “tudo diferente”, bela canção de André Carvalho, que está no seu cd.

Nos versos, o público cantava: “Todos caminhos trilham pra gente se ver/todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu/ eu ligo no sentido de meia verdade/metade inteira chora de felicidade..”.

No final de cada música, sistematicamente, Maria Gadú sorria timidamente e, em seguida, voltava-se para sua banda e os aplaudia. Dividia o prestígio com os músicos.

Mais tarde teve “Dona Cila” e “lanterna dos afogados”, música dos Paralamas do Sucesso.

Logo após, para delírio do público, principalmente, o feminino, cantou “A história de Lily Braun”, uma versão espetacular da música de Edu Lobo e Chico Buarque.

Enquanto o público cantava, dançava, Fernando Caneca solava com sua guitarra, dedilhava as cordas com a perícia de um cirurgião.

Quando terminou a canção, a jovem cantora dialogou com a platéia. Disse que “era maneiro voltar a Porto Alegre” e mencionou a participação que fez no show de Vanessa da Mata, mês passado, no teatro do Sesi.

Depois das recordações, Maria Gadú chamou ao palco o amigo, carioca, Leandro Léo. Juntos, só com violão, guitarra e voz, cantaram “Hoje a noite não tem luar”, da banda Legião Urbana.

Posteriormente, emendaram com “linda rosa” e “laranja”. Envoltos em um clima de confraternização, simbiose astral, alegria pura, o público festejava, vibrava, aplaudia, cantava, ou seja, era cúmplice de uma noite histórica, mágica.

Já na parte final do show, Maria Gadú cantou “lounge” e “trem das onze”, trazendo uma nova roupagem para o velho clássico de Adoniran Barbosa.

No bis, entre outras, apresentou uma versão mais agitada para “Ne me quitte pás”, de Jacques Brel. Assim, finalizou a passagem por Porto Alegre perto da 1h00min. Um show sensacional com, aproximadamente, 1h30 minutos de duração.

Quando despontou para o sucesso, inevitavelmente, Maria Gadú começou a ser comparada com Cássia Eller. Contudo, entre elas, pelo que pude observar, a semelhança se restringe ao talento.

Fora dos palcos, Cássia Eller tinha um jeito mais explosivo, “abusado”, provocador, enquanto Maria Gadú parece mais recatada, retraída, possui a timidez da mocidade.

Aliás, na verdade, pra mim, não há nenhuma necessidade em compará-las, pelo contrário, só cabe a nós, público, apreciadores da boa música, saudar o aparecimento de mais uma cantora tão talentosa, como Maria Gadú.

E pegando um trecho da letra de “bela flor”: “..Parece a mesma flor/só muda o coração..”.

De qualquer maneira, diante das modinhas atuais, emo-cionais, a cantora mostra que está “acima da média” com um trabalho contundente, bem desenvolvido, e com um repertório sensacional para quem nasceu em 1986. Músicas que valorizam e representam a cultura nacional.

Com a paulistana nota-se a química da arte. A mistura perfeita de letras bem construídas com melodias que encaixaram, como uma luva, na sua voz mansa.  Além disso, a maioria das canções do álbum também é de sua autoria.

Portanto, diante disso, o público que foi ao bar Opinião pode contar, sem medo de errar, que presenciou o surgimento de uma das maiores cantoras brasileiras no futuro próximo.

Aclamada pela crítica, considerada a cantora revelação do ano passado, Maria Gadú, em 2010, sem dúvidas, já pode ser considerada uma constatação categórica. E ela só tem 23 anos..

O show teve promoção da rádio Itapema FM, apoio Lojas Multisom e realização Opinião Produtora.

Por: Silva Júnior

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