Moby: Competência e Versatilidade no Pepsi On Stage

Moby

Não se pode dizer que o inglês Richard Melville Hall seja assim um exímio guitarrista, embora tenha sugerido suas pretensões e algumas de suas influências (ou mesmo admirações) mais secretas ao executar, em certo momento, na noite da última terça-feira, 20 de abril, em Porto Alegre, um dos riffs mais clássicos de Jimmy Page (o lendário guitar hero do Led Zeppelin).

Também não se pode dizer que seja exatamente um grande percussionista, embora tenha se arriscado, e tenha, afinal de contas, se saído bastante bem, na ênfase rítmica, dando ainda mais balanço e cadência ao ritmo dançante que vinha sendo sustentado pela banda que o acompanhava, somando-se ainda às seqüências de bases pré-gravadas que ouvia o público presente no Pepsi On Stage, por volta das 23h 30min., naquela véspera de feriado. Também não se pode dizer com certeza que Moby, o inglês em questão, ainda seja, atualmente, um dos mais inventivos e arrojados DJs em atividade, embora tenha inegavelmente contribuído para a definição e para o reconhecimento da arte de pilotar as pickups e os seqüenciadores eletrônicos.

De todo modo, é inegável que o maior mérito de Moby, evidente em sua apresentação recente em Porto Alegre, é sua versatilidade, a disposição e a naturalidade com que combina e atravessa esses instrumentos e recursos musicais todos, testando-os, fundindo-os, borrando-lhes os limites, atuando bem, sempre com relativo sucesso, em qualquer um deles, seja como guitarrista ou percussionista, seja então como DJ, compositor-arranjador, ou mesmo como vocalista carismático, líder irrequieto à frente de uma banda igualmente carismática e simpática.

Maior mérito ainda é o fato de que Moby – o show demonstrou isso largamente – é uma usina criativa de hits pops, extremamente convidativos e dançantes. As músicas são de forte apelo e forte potencial radiofônico, são melodias que (embora possam parecer similares, em alguns momentos) são facilmente reconhecíveis e muito agradáveis, vêm de pronto à memória. Saliente-se também outra característica interessante da sonoridade construída por esse franzino multiinstrumentista-produtor, de pouco mais de 40 anos de idade: o que temos são climas ou ambientes sonoros muito aconchegantes e muito sensuais, que possuem uma classe que parece remeter aos melhores momentos de David Bowie, por exemplo. Noutras vezes, podem remeter também aos alemães do Kraftwerk ou então aos ingleses do Joy Division (talvez sem o tom melancólico e lamurioso), mais tarde rebatizados como New Order. Seja como for, Moby é responsável por um pop elegante, invulgar e dono ainda de muita vitalidade.

Em síntese, o show em Porto Alegre foi uma demonstração disso tudo. Mais ativo criativamente e em melhor forma do que outros artistas contemporâneos e relacionáveis a ele (tais como Tricky ou mesmo Fat Boy Slim – aliás, onde andam Tricky e Fat Boy Slim?), Moby proporcionou um desfile invejável de hits delicados e dançantes.

Após a instrumental de abertura, extraída de seu mais recente álbum (Wait for Me, de 2009), seguem-se “Extreme ways”, “Mistake” e “In my heart”. Nessa última, vale destacar a performance e a presença imponentes da cantora Joy Malcon, quase roubando completamente a cena, tal o modo como impunha a voz e ocupava a frente do palco (como uma diva negra forjada, na manha e na musicalidade, na melhor tradição do r&b).

Em seguida, entre tantos, o primeiro ápice da noite: “Bodyrock” e “Go”, ambas levemente atualizadas, ambas extremamente empolgantes. A seqüência mantém o clima e os ânimos elevados – “Why does my heart feel so bad?”, “Pale horses” e “Porcelain”. Sem estarem necessariamente lotadas, as instalações do Pepsi On Stage vibravam. Mais do que um show, apenas, o que ocorria ali talvez fosse uma grande comunhão, um reencontro festivo de muitos early clubbers, neo-clubbers, disco-rockers e interessados de toda ordem, saudosos de um passado recente. De algum modo, os personagens, os estilos e a cena da música eletrônica de Porto Alegre, durante a metade da década de 1990, materializavam-se novamente ali, em suas vibrações mais fortes, mais graves e agudas.

Àquela altura, Moby já havia se desculpado por não falar português como gostaria (“Sou um americano ignorante que não sabe falar português”, disse ele), logo executando acordes de “All apologies”, do Nirvana; àquela altura já havia também autografado a capa de um vinil, entregue, na frente do palco, por um fã mais insistente. Àquela altura, músico e banda sentiam-se já muito à vontade. O público, por sua vez, deleitava-se.

E o show ainda continuaria. “We are all made of starts”, “Flower”, “Lift me up” e “Natural blues” foram as próximas, compondo um panorama abrangente e bastante representativo de uma carreira de quase vinte anos, cerca de dez álbuns e alguns milhões de discos vendidos em todo mundo. Antes de “Raining again”, “Disco lies” e “The stars”, houve uma rápida pausa para serenar um pouco os batimentos e inserir uma carinhosa homenagem a Lou Reed (“um dos músicos novaiorquinos que mais admiro”, Moby sentenciou): a matadora “Walk on the wild side”.

Antes de finalizar, no entanto – e o pedido de bis parecia mesmo inevitável e merecido –, as pulsações aceleraram novamente, com “In this world”, “Honey” e “Feeling so real”. A inclusão de “Whole lotta love”, do Led Zeppelin, entre as duas últimas apenas reforçou a imagem de um artista eclético, que tem na música eletrônica uma âncora criativa, mas que se permite transitar pelo rock, pela soul music ou até mesmo pela bossa nova. Tudo em nome de uma música pop de qualidade, que não pode ser facilmente descartada nem ignorada.

Por: Fabrício Nasser

Fotos: Karina Kohl

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