Móveis Coloniais de Acaju: Para levantar defunto

Sou um daqueles que vêem as comparações entre Móveis Coloniais de Acaju e Los Hermanos com certa desconfiança, entre outras coisas por achar que as duas bandas têm mais diferenças que semelhanças. Dito isso, preciso iniciar o texto justamente com uma comparação entre eles: a partir do lançamento do Bloco do Eu Sozinho, o Los Hermanos iniciou um processo de “recomeço”, no sentido de precisar reconquistar o público por causa de alguns incidentes com a sua gravadora na época (não vou entrar em detalhes, mas o assunto já foi fartamente explorado, basta procurar no Google). Durante esse processo, foi possível ver claramente a evolução no seu público, tanto em número de pessoas quanto em grau de devoção. De poucas centenas de pessoas no Manara até duas noites lotadas no Opinião, a banda iniciou um processo de boca-a-boca que fez com que seus shows fossem paulatinamente tendo mais gente e suas músicas fossem cantadas por todos.

Pois bem, chegamos ao Móveis.

No início de dezembro do ano passado eles fizeram um show no Porão do Beco. Lugar acanhado, com pouca estrutura (ainda mais para uma banda com nove integrantes) e pouca lotação. Passaram-se apenas quase cinco meses e eles retornaram à capital gaúcha, agora no Opinião, casa de shows muito maior que o Beco. Na sua nova apresentação, misturaram músicas do primeiro (Idem) e do segundo (C_mpl_te) álbuns e contaram com um público apaixonado, de dar inveja a muita banda “não-independente” com anos de carreira. Para se ter uma ideia, além de pular o tempo todo, a plateia presente cantava TODAS as músicas. Não duvido que o próximo show deles em Porto Alegre seja em um Opinião abarrotado de gente.

Logo nas primeiras músicas já dava para entender porque a Móveis Coloniais de Acaju é considerada como a detentora de um dos melhores (se não O melhor) shows do Brasil; todos os integrantes (à exceção lógica do baterista) se agitam – e agitam* – muito, tornando o show muito dinâmico e divertido. O vocalista André Gonzáles não para um minuto, sempre pedindo a colaboração da plateia em coreografias diversas. Falando em coreografias, durante a música Copacana, Xande Bursztyn (trombone) deu um mosh e depois começou a tocar no meio do público, até ser acompanhado pelo vocalista, enquanto a banda baixava o volume da música para que fosse coordenada uma roda – já conhecida pelo público dos shows do Móveis (que você pode conferir no vídeo abaixo**). Muito legal mesmo.

Quanto ao setlist, a banda soube dosar muito bem as músicas do primeiro disco com as do segundo, e não apostou em covers, com exceção da última música, “Se essa rua fosse minha”, em uma versão ska frenética. Aliás, é interessante notar também que, após o bis, a banda ia saindo do palco quando alguns integrantes, visivelmente emocionados pela participação do público, decidiram tocar mais duas músicas – o que foi evidentemente muito bem-vindo pela plateia.

Donos de uma das melhores presenças de palco da atualidade e de uma musicalidade que mistura música brasileira, metais, ska e “ritmos do Leste Europeu” (a famosa “feijoada búlgara”, segundo seus integrantes), a Móveis Coloniais de Acaju alcança hoje facilmente o posto de uma das bandas independentes mais importantes do país. E, em épocas de bandas chorosas e/ou acústicas, com um show feliz e de levantar defunto.

Por: Valter Junior


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2 Comentários

  1. Anderson Lima

    Após ler o Review do show da Móveis, preciso apenas registrar aqui para os que tem alguma dúvida.
    Nunca vi (não sei se existe em território nacional) uma banda que consiga manter uma sinergia tão grande com o seu público quando está no palco. E olha que já fui e vou em muitos shows…
    A presença de palco da banda é fantástica e a qualidade musical dispensa comentários.
    A banda claramente está cruzando a linha de “uma das bandas independentes mais importantes do país” para o “hall dos gigantes”.
    Não pensem duas vezes em ir vê-los ao vivo em sua próxima passagem pela capital.
    Abraço.

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