Mallu Magalhães em Porto Alegre..

No dia 29 de setembro de 1992 o Brasil inteiro parou. Todas as atenções estavam voltadas para o Distrito Federal. Em Brasília, no Congresso Nacional, era votado o pedido de impeachment do primeiro presidente eleito democraticamente pelo povo, no caso, Fernando Collor de Mello.

No mesmo dia, em São Paulo, a família Magalhães comemorava o aniversário de um mês de Maria Luiza, a caçula da família. Passados quase 18 anos, o Brasil continua aprendendo a votar, enquanto Maria Luiza tornou-se uma artista. Agora atende pela alcunha de Mallu Magalhães.

Portanto, antes de qualquer coisa, cabe ressaltar o talento da jovem. Afinal, com 17 anos de idade, Mallu é um fenômeno. Ela está tão acima da média, para sua geração, que acaba não sendo compreendida pelos seus pares, pelo menos na idade.

Contudo, vamos falar do show.

A sexta-feira começou nublada em Porto Alegre. O céu cinzento trazia consigo chuvas esporádicas. A sensação térmica era típica de outono, na casa dos 18 graus.

Gradativamente, no turno da noite, a temperatura foi caindo. O termômetro da Av. Borges de Medeiros registrava agradáveis 15 graus, fora o vento na nuca.

De todo modo, dentro do bar Opinião, o clima era outro. O relógio apontava 21h45min e Carlinhos Carneiro, ex-Bidê ou Balde, e atual Império da Lã, fazia às vezes de mestre de cerimônia musical.

De terno cinza, alinhado, ele cantava músicas próprias e algumas versões. O estilo era bossa nova, voz e violão.  Também estava acompanhado de outros dois músicos. No repertório tocaram de Raul Seixas a Lupicínio Rodrigues.

Como sou natural da região da campanha, tive vontade de pedir para ele cantar a música que fala “A minha avó é de Bagé..”.  Essa música é motivo de orgulho na rainha da fronteira.

Contudo, não tive coragem de me manifestar e, um pouco antes das 22h, ele deixou o palco. O público presente, fiel, manifestou-se através dos aplausos.

Antes de começar o show principal, o guitarrista, Kadu Abecassis, foi até o microfone e avisou os presentes que eles fariam parte de uma gravação. A paulistana gravara trechos do show para o próximo clipe.

Então, quando os ponteiros marcavam 22h15min, para os aplausos do público, Mallu Magalhães subiu ao palco do bar Opinião. Na sua companhia, uma banda composta por sete músicos. Entre eles, os de sempre: Kadu Abecassis (guitarra), Jorge Moreira (bateria), Thiago Consort (baixo) e André Lima (teclados).

A banda também contava com três instrumentos de sopro (sax, trompete, trombone). Não consegui pegar o nome de todos, porém, saúdo o trio destacando Luis Neto no saxofone.

Após as saudações de praxe, onde a cantora agradeceu a presença dos gaúchos, o show começou com a vibrante “My home is my man”, canção do novo cd, intitulado Mallu Magalhães, e que será o próximo clipe da cantora.

Mallu trajava um vestido cinza brilhante. Talvez para amenizar o frio de Porto Alegre, usava meia-calça, de cor preta, e calçava salto alto. No cabelo, tinha uma flor branca que dava um toque angelical e relembrava sua mocidade.

Ao seu lado, a banda estava alinhada, nos trinques, todos de terno e gravada. No fundo do palco, atrás da bateria, um sol alternativo, estilizado, anarquista, complementava a cenografia.

Desse modo, depois das primeiras impressões, o show continuou com “make it easy”, “sem fé nem santo”, e “compromisso”, todas do seu segundo álbum.

Nessa altura da apresentação, a banda mostrava toda sua competência. O destaque estava no guitarrista, figuraça, Kadu Abecassis. Aliás, na aparência, e estilo, até lembrava o Beatles George, na fase em que o mesmo ostentava cabelão e bigode.

Outro destaque era o baterista, Jorge Moreira, que em “compromisso” tirava batidas marciais, típicas do quartel, de sua bateria inquieta.

Depois de começar mostrando canções de seu novo álbum, Mallu cantou “vanguart”, do primeiro cd. No final da música, foi aplaudida com entusiasmo pelos gaúchos.

Na seqüência teve “te acho tão bonito”, também do novo cd. Na música, os instrumentos de sopro trouxeram um clima de melodia mexicana aos presentes. Baita som.

Inclusive, é necessário ressaltar a sonoridade da banda. Uma baita banda.

Na metade da apresentação a cantora ficou sozinha no palco. Então, com voz e violão, cantou “Don’t think twice it’s all right”, de Bob Dylan, e “Eu preciso dizer que te amo”, do Cazuza.

Antes de cantar Cazuza, Mallu disse que pensou em tocar essa música porque Porto Alegre era a “Capital do rock”. Por isso, achou que os presentes iriam gostar. E, de fato, gostaram.

Quando Mallu está cantando, esquecemos que ela é uma adolescente.

Depois ela emendou “É você que tem”, uma bela balada romântica. A canção demonstra o atual momento da cantora. E ela tem uma maturidade precoce.

Na letra, “É você que tem/ nas tuas mãos/ meu choro de mulher/ Tem meu ver/ O meu sonhar/ E o que quiser”…

Quer dizer, aos 17 anos, a paulistana possui uma característica comum aos grandes artistas: a sensibilidade.

No fim da canção, os aplausos tomaram conta do bar Opinião. A apresentação prosseguiu com “Soul mate”, “versinho de número um” e “tchubaruba”, outro momento de grande agitação dos presentes. Nessa altura, Mallu acompanhava a música com o som peculiar de seu banjo.

Na parte final do show, “Shine Yellow” foi à vibração de todos. Uma bela canção, talvez, o primeiro ska gravado por uma cantora brasileira.

A estadia da jovem por Porto Alegre terminou com uma seqüência rumorosa. O clima de rock e faroeste foi estabelecido em “Don’t you look back” e “You know you’ve got”, duas belas canções.

Na última música, como ela mesma ressaltou, era o momento para extrapolar os limites. Desse modo, os metais se uniram ao baixo, guitarra, teclado e bateria. Juntos invocaram os precursores do rock.

Isto é, trouxeram ao bar Opinião “Whole lotta shakin’ going on”, clássico interpretado, nos primórdios, por Jerry Lee Lewis, Elvis Presley e Little Richard.

No bis, além das músicas, o público ainda cantou parabéns para o guitarrista, Kadu, que, no palco, completara mais um outono de vida..

Assim, depois do cerimonial, com aproximadamente 1h30min de show, Mallu despediu-se dos gaúchos às 23h50min.

Apesar da energia do show, o público foi tímido. Aproximadamente 300 pessoas deslocaram-se até o bar Opinião a fim de prestigiar a cantora.

O fato inusitado é que a única “de menor” no bar, com certeza, era a artista principal. O público presente era composto, na maioria, de jovens, senhores e senhoritas.

Mallu é fruto da geração internet. Uma juventude que cresceu em contato direto com o mundo, na rede, interligada. Uma geração que nasceu, praticamente, tendo a obrigação de falar inglês.

Uma “obrigação” para, pelo menos, virar-se no mundo virtual.

Além disso, o fato de fazer músicas em inglês pode, mais adiante, abrir portas internacionais. Essa é uma das possibilidades geradas pelo mundo virtual.

De qualquer maneira, a paulistana consegue expressar na música, seja em inglês ou português, seus sentimentos, suas alegrias, as angústias, os medos.

Antigamente, fazer sucesso no exterior era uma “pretensão” de qualquer artista..Hoje em dia, com os youtubes e afins, é apenas questão de qualidade e tempo.

Contudo, como é jovem, Mallu Magalhães terá tempo suficiente para alcançar seus objetivos e, através da música, demonstrar toda sua arte.

Ela tem personalidade, originalidade, autenticidade e, sobretudo, para melhorar, excelentes referências na música.

E este novo cd, denominado Mallu Magalhães, simbolicamente, também é o último registro da cantora na clandestinidade dos “de menor”.

Eu, por exemplo, com 17 anos, era um guri “cagado”. Mallu, desde os 15 anos, é uma artista conhecida nacionalmente. Uma menina prodígio.

Enfim, a partir de agosto, chegará à maioridade. Com ela, outras responsabilidades. Ela ainda tem muitas coisas para aprender e, assim, crescer, evoluir..

A jovem guria poderá tirar carteira de habilitação, freqüentar, caso goste, algumas casas noturnas, adquirir cartão de crédito e comprar, tranquilamente, caso queira, bebidas alcoólicas, entre outros.

Ou seja, ela deve estar ansiosa. Todavia, o tempo passa rápido demais. E bons ventos estão lhe esperando, pois, na música, o caminho já está bem visualizado.

Por: Silva Júnior

Fotos: Rafael Jeffman


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2 Comments

  1. Heryk Slawski

    Nooooooooooooooooooossa! Muito bom esse Post *___*
    Fui no show e tenho 17 anos tbm e tinha um tio do meu lado com uns 40 anos que sabia todas as letras dela. Foi muito engraçado.

    Mallu foi novamente demais. Você sai dum show dela querendo ver outro imediatamente 😀

    Abraço e belo post!

    [Responder]

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