Anneke Van Giersbergen e Danny Cavanagh: um encontro memorável!

             

            Porto Alegre foi palco de um raro encontro musical na noite de quinta-feira, dia três de junho. Digo raro porque, apesar de Anneke Van Giersberrgen (Água de Annique e ex-The Gathering) e Danny Cavanagh (Anathema) já terem consolidado uma parceria musical há alguns anos, é pouco provável que este show, no formato intimista que possui, volte ao Brasil nos próximos anos. É sempre bom lembrar que suas bandas ainda existem, e logo eles retornarão aos seus projetos principais. Portanto quem viu, viu, quem não viu pode ainda ter a oportunidade de vê-los se um dia eles voltarem a Porto Alegre, provavelmente separados, com suas próprias bandas.

 

              A ideia de juntá-los em um mesmo palco, tocando para um mesmo público, não poderia ter sido mais acertada. Apesar de terem origens em cenários diferentes do metal, o caminho dos dois tem certo “ancestral comum” na história do heavy metal “deprê” dos anos 90. Ambos os grupos, The Gathering e Anathema, ganharam notoriedade fazendo um tipo de som que pouco resta na música que fazem hoje, evoluindo para uma sonoridade mais limpa, um pouco distante do heavy metal, e conquistando público em outros nichos musicais. Ou seja, na verdade, os dois tem muitas coisas em comum, e a química ocorre de forma natural.
 
              Ficou a cargo de Danny abrir os trabalhos da noite. Subiu ao palco do Revolution Pub acompanhado apenas do seu violão para dar o seu “boa noite” ao som de “Deep” e de cara já ganhou o público. Ao final da música, era visível a expressão de felicidade em seu rosto pela receptividade que obtivera. Emendou com “Fragile Dreams” e “Lost Control”, que também foi muito bem aceita. A partir da quarta música a coisa mudou um pouco de figura. Quando Danny sentou-se ao teclado para a execução de “Angélica”, o burburinho da conversa do público ficou mais evidente, e o músico pode experimentar um pouquinho das boas maneiras do sul. Começou ali um ligeiro desconforto.

              Com a experiência que anos de palco já lhe deram, seguiu em frente no seu set list cuidadosamente planejado para tentar contentar os fãs mais velhos e os mais novos, e dentro do que pode se esperar de 40 minutos de show, ele foi muito feliz nas suas escolhas. Ficaram de fora canções dos primeiros discos, que de fato se tornariam muito difíceis de serem transportadas para um universo acústico.

              Após o set de Danny, era chegada a vez de recebermos a holandesa Anneke, que há muito era aguardada. E foi como se os presentes ali naquele cenário quisessem demonstrar esta ansiedade de qualquer forma. Quando a cantora subiu ao palco, o espaço do bar parecia pequeno para comportar tamanha euforia. Depois de quase três minutos de um barulho ensurdecedor, Anneke conseguiu dar um tímido “boa noite” e já começar, ao teclado, os primeiros versos de “Lost and Found”. Terminada a música, mais barulho e aplausos que de tão fortes, chegaram a deixar a moça meio perdida, parecendo estar deslocada.

              Anneke seguiu a mesma lógica de seu antecessor no quesito escolha do set list. Mesclou de forma bem proporcional os seus sucessos a frente do The Gathering e os da sua carreira com o Água de Annique. Praticamente todas as suas músicas foram muito bem recebidas, como My electricity (disparado o momento auge) e Beautiful One.

              O tempo todo era possível perceber uma expressão em seu rosto de encantamento com o público e ao mesmo tempo de intimidação. Pois mesmo o burburinho tendo diminuído em sua apresentação, era possível notar que em alguns momentos em que o clima da música exigia algo mais intimista, esse clima era quebrado por algumas pessoas que insistiam em ficar conversando durante a apresentação. Diferente de Danny, ela levou muito mais na boa, mas às vezes deixava escapar certo tom de ironia em alguns comentários.

              Para a terceira parte do show, tivemos os dois juntos no palco. Abriram com um cover que, de certa forma, tem a cara do tipo de música que fazem em suas carreiras hoje. Falo sobre “Teardrop”, do Massive Atack. Uma banda que não tem nenhum pezinho no heavy metal, mas possui uma aura muito parecida com a que Anneke e Danny vem buscando de uns anos pra cá.

              Presentearam a platéia com “A Natural Disaster”, que ficou muito legal, em uma versão bem parecida com a original, gravada no disco homônimo. E ainda por cima fizeram um medley pra ninguém botar defeito, com “Parisienne moonlight” e “Leaves”. Esta última transportou a plateia ao período do clássico Nighttime Birds, quando Anneke ganhou o mundo com sua voz doce nessa bela canção.

              Logo após este momento, tivemos uma situação no mínimo constrangedora: antes da execução de “The Blower`s Daughter”, Anneke pediu encarecidamente para que o público se esforçasse para fazer um pouco de silêncio, pois eles estariam gravando um vídeo desta música. Aqueles mesmos três minutos do início da apresentação de Anneke foram multiplicados por dois até que alguns, poucos, diga-se de passagem, entendessem o pedido. Ou devo dizer, respeitassem o pedido?

              Mesmo com alguns problemas, e é importante ressaltar que estes vieram do público, a qualidade da apresentação não foi comprometida. Tanto Anneke quanto Danny, foram extremamente profissionais e mantiveram o nível durante toda a apresentação. Nos apresentaram um set list impecável e demonstraram imenso prazer em receber tanto carinho do público (Anneke bem mais que Danny).

              Fica o desejo de vê-los novamente, com banda ou sem, e uma pontinha de sensação de vergonha por uma minoria que tinha assuntos extremamente importantes para tratar durante o show. É fato que o povo brasileiro é mais espontâneo, mas essa espontaneidade, se não dosada da maneira correta, pode gerar certo desconforto.
Poderíamos pensar em incorporar ao pedido de desliguem o telefone antes de quaisquer apresentações, o de “tratem de assuntos importantes antes ou depois do show”.
             
 
 
Set List,  Danny:
1-    Deep*
2-    Fragile Dreams*
3-    Lost Cntrol*
4-    Angélica*
5-    One Last Good Bye*
6-    Wish You Were Here (Pink Floyd)
7-    Flying*
 
Set List, Anneke:
8-  Lost And Found**
9-  Trail of Grief**
10- Shrink (The Gathering)
11-  I Want**
12- My Electricity (The Gathering)
13-  Beautiful one**
14- Physical**
15- Sunny Side Up**
 
Set List, Danny e Anekke
16- Teardrop (Massive Attack)
17- Hey Okay (Água de Annique)
18- A Natural Disaster (Anathema)
19-  Parisienne Moonlight/Leaves (Anathema/The Gathering)
20- The Blower`s Daughter (Damiem Rice)
21- Joline (Dolly Parton)
 
Bis:
22-  You Learn Abouti It (The Gathering)
23-  The Blower`s Daughter
 
*Anathema
**Agua de annique

Por: Angelo Borba
Fotos: Débora Sydow
 
 

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3 Comments

  1. Pingback: Tweets that mention Anneke Van Giersbergen e Danny Cavanagh: um encontro memorável! | POA SHOW -- Topsy.com

  2. R.

    É incrível como o pessoal insiste em conversar nos shows. No da Cat Power foi a quase a mesma coisa (digo quase pq nesse da Anneke e do Danny foi beem pior).

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