Rock de Galpão: Uma inusitada mistura de Rock e Música Tradicionalista Gaúcha

           
Primeiro de Julho. Em uma noite quente em pleno inverno gaúcho não foi apenas a temperatura que surpreendeu. Uma inusitada mistura de Rock e Música Tradicionalista Gaúcha esquentou ainda mais a noite de quinta-feira. Neto Fagundes e a banda Estado das Coisas deram uma nova roupagem aos maiores clássicos da música gaudéria.

            Pouco depois das 21h as luzes se apagam para o início do espetáculo. Um cenário com várias referências ao galpão, com direito a feno, cabeça de gado, roda de carreta e alguns móveis rústicos, foi enriquecido por uma iluminação criativa e de muito bom gosto. Pendurados no alto do palco havia ainda vários utensílios típicos da vida campeira que, exposto a iluminação, criava belas projeções no fundo branco do palco. Esse conjunto de fatores visuais deixou claro, logo de cara, o quanto o espetáculo foi pensado e produzido com cuidado.

            A banda Estado das Coisas, formada por Tiago Ferraz (voz e guitarra), Rafa Schuler (guitarra), David Fontoura (baixo), Guilherme Gul (bateria) e Alexandre “Mestre Kó” nos teclados, acompanhada ainda pelo gaiteiro Paulinho Cardoso, sobe ao palco para o ponta-pé inicial. Em seguida, Neto Fagundes, um dos mais populares cantores gauchescos (popularidade que foi alavancada ainda mais por sua participação no cast do programa “Pretinho Básico”) toma o microfone para “Era Uma Vez”, de Aparício Silva Rillo. A canção ganhou um tom pesado e soturno, principalmente com a interpretação de Neto. Na seqüencia, a milonga “Semeadura”, de Vitor Ramil, esbanjou energia em um arranjo espetacular alternando os climas Rock e Milonga com forte presença da gaita e das guitarras pesadas.

            Muito eloqüentes, Neto Fagundes e o vocalista Tiago Ferraz se comunicam muito com o público, sempre em tom de gratidão pela presença e, principalmente, de respeito e admiração pelo Rio Grande do Sul. Os grandes nomes da música gaúcha, artistas que assinam a matéria-prima do projeto, foram devidamente homenageados. Cesar Passarinho, Jayme Caetano Braum, Os Fagundes, Rui Biriva, Elton Saldanha e Teixeirinha, entre outros, foram lembrados no repertório e nos discursos que permearam a apresentação.

            “Castelhana” levantou o público presente com seu ritmo forte e seu refrão dançante. A canção, uma das mais populares do repertório do Rock de Galpão e da própria música campeira, foi, sem dúvidas, a mais bem recebida até ali.
 
            Após “Merceditas” (que contou com a participação de Hique Gomez no violino), Neto Fagundes deixa o palco para duas canções executadas apenas pela Estado das Coisas. Destacaram-se no repertório “Vento Negro”, clássico dos anos 80 imortalizado pelos Almôndegas e a inacreditável versão sem erros de “Bochincho”, de Jayme Caetano Braum. A extensa letra foi declamada com muita personalidade por Tiago ao longo de mais de 8 minutos. Fortes e merecidos aplausos encerraram a epopéia do guasca que se metera em confusão.

            Já com quase uma hora e meia de show, o espetáculo se encaminha para o final. O excelente guitarrista Rafa Schuler executa um solo de guitarra que só pode ser classificado como impressionante. Arrancou mais aplausos ao solar com a guitarra na nuca. Todo esse virtuosismo serviu para introduzir uma versão totalmente blues para o “Canto Alegretense”. Neto manda parar tudo e chama seu pai, Bagre Fagundes, um dos autores.

          Ovacionado, Bagre, figuraça da música gaúcha, sobe ao palco completamente pilchado e portando uma pequena gaita ponto. Cumprimenta a todos, não sem provocar um pouco mais a rivalidade entre gremistas e colorados (N. do R: Bagre é, dos Fagundes, o colorado mais fanático). Bagre elogia a versão, mas mostra como se faz portando uma pequena gaita ponto. Assim, com oito músicos no palco a banda conclui a canção com um “Sol Maior de gavetão mais possível”, assim definido por Neto Fagundes.

           No entanto, o “Canto Alegretense” não encerrou os trabalhos. “Querência Amada”, de Teixeirinha (artista gaúcho que mais vendeu discos na história) também agradou. O final apoteótico foi com uma versão do Hino do Rio Grande do Sul, que todos cantaram de pé. A bandeira do Rio Grande do Sul erguida por Neto foi a imagem do que representou a noite no Teatro do Bourbon Country. Ainda houve tempo para um bis, mesmo com mais de duas horas de show. A escolhida foi “Castelhana”

           Logicamente em uma cultura tão rica, sempre algo ficará de fora. Alguns se surpreenderam com a ausência da belíssima “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor”, talvez a mais emblemática das canções de amor ao Rio Grande. Mas não tem problema. O que importa é que o estado mais frio do Brasil recebeu uma calorosa homenagem dos gaúchos do Rock de Galpão.


Era uma Vez
Semeadura
Haragana
Cevando o Amargo
Nas Manhãs do Sul do Mundo
Castelhana
Entardecer
Merceditas
Vento Negro
Bochincho
Guri
Eu Sou do Sul
Origens
Canto Alegretense
Querência Amada
Hino do Rio Grande do Sul

Bis: Castelhana.

Por: Marcel Bittencourt
 
 

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