Biohazard faz show direto e intenso em Porto Alegre

 
Fria e chuvosa, mesmo assim, a noite da última segunda-feira prometia: por volta das 23h, os nova-iorquinos do Biohazard subiriam ao palco do Bar Opinião, em Porto Alegre. Antes do show, a expectativa era enorme, não só para vê-los pela primeira vez em terras gaúchas, mas também para vê-los de volta à formação original, depois de uma década separados. Além disso, tratava-se de celebrar aquela que talvez seja uma das mais importantes e mais emblemáticas bandas (junto com o Suicidal Tendencies – que, aliás, também já andou por aqui há pouco tempo) da fusão de metal, hardcore e hip hop processada ao longo dos anos 1990. Sem dúvida, o evento seria, simultaneamente, o primeiro contato direto com o grupo e o resgate de um passado relativamente recente (e ainda muito vivo).
 
As expectativas, portanto, eram mais do que justas. “Cara, tô esperando um baita show, na raiz do underground, do faça-você-mesmo, do seja-você-mesmo, na raiz do que é a união de latinos, negros e americanos”, dizia, por exemplo, com inegável entusiasmo, o militante rapper Umberto Cruz. “Vai ser bonito, vai ser bonito. Vou ver daqui, aqui tá bom, porque ali na frente vai ser foda”, nos disse Daniel Villaverde, incansável na cena alternativa local.
 
Após a abertura dos gaúchos da Grosseria, o Biohazard sobe ao palco. E o início foi matador: “Shades of Grey”, terceira faixa do segundo álbum da banda, Urban Discipline (1992). Assim, de cara, Evan Seinfeld (baixo e voz), Billy Graziadei (guitarra e voz), Danny Schuller (bateria) e Bobby Hambel (guitarra) davam então o tom da noite: alto volume, atitude de confronto, energia e agressividade de sobra.
 
Chama atenção o poder, a força e o carisma casca-grossa da banda (as bandanas e as tatuagens daqueles senhores). Não há rodeios, não há nada que não seja apenas a convicção pesada e a imposição de uma sonoridade crua e dura. O show é direto e intenso. Dessa forma, vão se sucedendo os principais petardos do grupo, extraídos, principalmente, dos primeiros álbuns – Biohazard (1990), o já citado Urban Discipline e Mata Leão (1996) –, acrescidos ainda de novidades e covers de Bad Religion e Cypress Hill. Entre uma música e outra, Graziadei dirige-se ao público falando em bom português (aprendido e praticado, com certeza, com a esposa brasileira).
Há um uso muito interessante dos vocais: Graziadei e Seinfield ora se alternam, ora cantam juntos, ora dividem e ora sobrepõem as vocalizações. Criam assim diferentes texturas vocais, onde o canto falado do rap e os grunhidos mais guturais e ásperos do metal são apenas dois pólos numa série de variações e combinações possíveis. De quebra, mantêm-se os riffs rápidos e os solos de guitarra, as marcações competentes de baixo e bateria, dando volume, peso e preenchimento às bases instrumentais. Os grooves e os andamentos mais cadenciados do rap surgem em alguns momentos, dando então lugar aos ritmos acelerados e às batidas mais rápidas do hardcore. Tudo com muita coesão e consistência, afinal são os precursores do gênero, os inventores da mistura. O som do Biohazard é uma fala típica da rua. Aliás, o metal e o rap talvez sejam os gêneros musicais que mais dão vazão ao caos e aos dilemas da vida urbana. O Biohazard sabe bem disso (e sabe como fazer música pesada a partir daí).
 
Em certo momento, chamam ao palco o maior número possível de meninas e mulheres presentes, fãs da banda. O convite é prontamente aceito. Em meio à sucessão de moshs e stage divings, que até ali vinham se intensificando, o público passa a observar aquela curiosa e agradável line up, aquela parede de belas moças, lado a lado, distribuídas ao longo do palco, todas elas vestidas como convém, misturando-se aos músicos da banda, até dificultando vê-los, mas, acima de tudo – e isso, de fato, é o mais importante – tornando o espetáculo ainda mais caótico, pulsante e energético. Talvez essa seja justamente uma das principais marcas da atitude (e – por que não? – da sonoridade mesma) da banda: a proximidade com seu público. Ao final do show, por exemplo, os músicos desceram do palco e foram, literalmente, para a galera, foram confraternizar com todos, beber, distribuir abraços e tirar fotos entre amigos. De fato, uma celebração. Aí se vão vinte anos bem vividos!!
 
Por: Fabrício Nasser
 

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