Jorge Drexler retorna ao festival de inverno para grande apresentação

          
A maior atração do festival de inverno deste ano ficou também com a tarefa de dar início aos trabalhos do evento. Jorge Drexler, que em 2008 já havia se apresentado no mesmo festival, brindou os gaúchos com duas apresentações bem diferentes daquelas protagonizadas há dois anos, tanto em seu formato (agora com uma enorme banda) como em repertório, visto que na atual turnê para promover o disco “Amar la trama”, o lado dito animado do compositor ganha muito mais força.
 
O público estava ansioso para ver como soa o novo Drexler, prova disso é que os ingressos para as duas apresentações se esgotaram em pouquíssima horas, e muitos chegaram às seis horas da manhã na fila para garantirem o seu. Outros chegaram às nove horas e esperaram até as três da tarde. Ah, e só para lembrar, a venda de ingressos começou na terça-feira. O que fazem as pessoas que trabalham e querem ir aos shows? 
Bom, mas deixando de lado os “pequenos detalhes”, vamos ao que interessa. Drexler veio acompanhado de uma grande banda, e por grande entenda-se numérica e qualitativamente falando. Eram sete excelentes músicos que garantiram que a alma orgânica do novo disco se mantivesse intacta durante todo o show. E ainda por cima colocasse no mesmo patamar atmosférico as músicas de discos anteriores.
 
A apresentação teve início com “Todos a Sus Puestos”, que serviu meramente para esquentar a banda para o que veio depois. “Una Canción Me Trajo Hasta Aqui” e ”Tres Mil Millones De Latidos” expuseram, de fato, o que pretendia Drexler com seu novo show: mostrar que é um artista desprendido de amarras estilísticas. Que faz da sua música o que bem entende, mas nunca perdendo a identidade que o consagrou e ainda consagra. Os arranjos de metais, coisa nova em sua música, foram a tônica das três primeiras canções e também da próxima, “Cerca Del Mar”, do longínquo Vaivém.
 
Mas a apresentação foi composta também de um momento “Cara B”, em que o músico ficou só no palco e nos brindou com algumas canções do seu repertório mais antigo, como “Milonga Del Moro Judio” e “Salvapantallas”. Confesso que essa última, pelo menos para mim, foi o momento mais lindo do show. Quando um artista consegue comover uma grande platéia apenas armado de seu violão e uma letra que fez para seu irmão, e que possui um grau de intimidade único, e mesmo assim as pessoas não conseguem deixar de se emocionarem, não há outra conclusão a chegar se não que o artista retirou da música tudo que ela poderia lhe dar.
 
Da metade final em diante, a banda voltou ao palco e o ritmo inicial se restabeleceu. Alguns dos destaques desta etapa da apresentação foram as incríveis versões totalmente reformuladas de “Disneylândia” dos brasileiros “Titãs”, que já havia sido gravada no disco “12 Segundos de Oscuridad”, mas neste show foi totalmente reformulada. Na verdade, reformulada pela segunda vez, porque a versão por ele gravada já era bem diferente da original. A releitura em Marimba (instrumento parecido com o xilofone) de “Aquellos Tiempos” também ficou muito legal. Serviu também para mostrar como o público gaúcho é de difícil participação, visto que para que se pudesse escutar a participação que Drexler pedia no refrão da música, só foi possível depois de muito bom humor e paciência do músico em esperar o pessoal resolver participar da canção. Finalizou o show com um de seus grandes clássicos: “Todo Se Transforma” arrancou uma grande resposta da plateia, e serviu para criar o clima para que o chamassem para o bis, prontamente atendido pelo cantor, que voltou sozinho para executar “Soledad”, em seguida a envolvente “La Trama y el Desenlasse” e finalizando com “Sea”. E acho que se não fosse o adiantado da hora e o fato de ser domingo, a apresentação seguiria por mais umas duas horas.

Não é de agora que Drexler tem um bom relacionamento com o Rio Grande do Sul. Desde 2002 que o músico vem se apresentando em solo gaúcho, e isso dá uma certa aura de intimidade com o público, que se representa nos longos diálogos que o cantor teve durante toda a apresentação. Um detalhe, o show teve aproximadamente duas horas e 15 minutos, dos quais uns 20 minutos se resumiram a conversas esporádicas com o público, nas quais o cantor esbanjou carisma e bom humor, inclusive atendendo prontamente ao pedido de “Mundo Abisal” (do disco que está divulgando, devo dizer), feito aos gritos por um fã. Sendo essa canção um dos destaques do show.

O festival de inverno começou em grande estilo. O público lotou as duas noites no teatro do Bourbon Country e pode conferir uma apresentação irretocável de um dos maiores artistas sul-americanos da atualidade e que vem reinventando a música latina e abrindo espaço para uma maior integração artística entre os povos que vivem abaixo da linha do equador.

    
Set list:
1-Todos A Sus Puestos  
2- Una Cancion Me Trajo Hasta Aqui  
3- Tres Mil Millones de Latidos  
4- Cerca Del Mar
5- Transporte
6- Se va, Se va, Se Fue
7- La Nieve En La Bola De Nieve
8- Mundo Abisal
9- Mi Guitarra Y Voz
10- Noctiluca
11- Milonga De Ojos Dorados (Alfredo Zitarrosa)
12- Milonga Del Moro Judio
13- Salvapantallas
14- Aquiles, Por Su Talón Es Aquiles
15- Rio Abajo/Las Transeuntes
16- Disneylândia (Titãs)
17- Toque de Queda
18- Aquellos Tiempos
19- Polvo de Estrellas
20- Frontera
21- Todo se Transforma
Bis:
22- Soledad
23- La Trama Y El Desenlace
24- Sea
 
Por: Angelo Borba
Fotos: Guilherme Santos/PMPA
 

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