Sissy: Da Banalização

A arte performática pode conjugar teatro, música, vídeo e poesia. No caso de Sissy!, temos uma performance não-verbal conduzida pelo trabalho essencialmente corporal. Já que a voz é mascarada e o corpo desnudado, a sustentação é dada através das formas, da escrita cênico-corporal. Ao ler a sinopse da performance francesa, é difícil não querer assisti-la, não ficar empolgado com o tema proposto por Nando Messias (protagonista) em seu doutorado prático na Central School of Speech and Drama: o conceito de “sissiografia” do corpo. O título em negrito é um pejorativo inglês para o homossexual afeminado, equivalendo a “bicha”, “veado”, “maricas” ou mesmo “queer”. Todos conhecem a figura masculina detentora de formas femininas ao manifestar-se: do modo de caminhar ao modo de pensar. Inclusive, os meios de comunicação massivos, como a televisão, não hesitam em explorar a já muito desgastada e banalizada imagem do homossexual afetado, mesquinho e arrogante.
Sissy! consegue romper tal barreira?  Alcançar o que vai além da superfície? Não, Sissy! não alça vôo em momento algum. Se existe sucesso no processo de escrita do conceito “sissy” no corpo do performer/dançarino Nando Messias, este sucesso é feio, grotesco. Nando representa o lado ultra-feminino, o transexual fraco e marginalizado: pernas lisas e compridas, salto alto, batom, cabelo negro comprido e corpo magérrimo. Relaciona-se com Biño Sauitzvy, também diretor, que representa o lado masculino, o boxeador forte e opressor: porte musculoso, regata e tênis barulhento.

Concluo, então, que o conflito entre os sexos existe. E aí? Parece-me impossível evocar reflexão ou admiração por um trabalho que se agarra em estereótipos e falha na tentativa de causar riso e emoção. Não interroga nem desconstrói a naturalização dos corpos em papéis e práticas sociais cristalizadas, separando os sexos em blocos distintos.

Poucos foram os momentos em que senti algum lirismo, como a longa coreografia inicial, permeada por uma junção de lábios eterna. Diante da nuvem de apelação, meus olhos embaçados não foram capazes de visualizar a arte sensorial, o indivíduo fragmentado, híbrido. Ainda que, sim, seja possível enxergar técnica e dedicação, faltou a Sissy! vida e profundidade.
 
Por: Guilherme Nervo
Fotos: divulgação
 

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