Paul McCartney: um Beatle em Porto Alegre

Em um ano de ouro para os shows em Porto Alegre, com grandes nomes como Metallica, Guns n’ Roses, Aerosmith, Green Day e Black Eyed Peas, 2010 se encerra com outro show histórico. A diferença é que trata-se do maior show da história da cidade: Paul McCartney, um Beatle. Responsável por boa parte do material genial da maior banda de todos os tempos, o cantor inglês de 68 anos fez, no Estádio Beira-Rio, o mais histórico dos shows no estado do Rio Grande do Sul.

Antes mesmo de chegarmos ao histórico domingo, Porto Alegre já vivia o espírito do show: ingressos esgotaram-se rapidamente, fãs esperavam no aeroporto e no hotel onde Paul ficara hospedado. Fotos e vídeos das rápidas aparições de Paul McCartney surgiam no Twitter quase que em tempo real. Fãs formavam fila no estádio dias antes e uma intensa movimentação fez parte das cerca de 36 horas que antecederam a apresentação. Realmente não era um evento comum. Era um Beatle, pela primeira vez entre nós.
 
O show começou com um pequeno atraso de poucos minutos. O Beira-Rio lotado explodiu no exato momento em que as luzes se apagaram para “Venus and Mars/RockShow”, dos Wings (banda que Paul formou com sua ex-esposa Linda McCartney após o fim dos Beatles). Muitas pessoas das mais diversas idades, incluindo-se aí integrantes de bandas gaúchas bastante populares, foram às lágrimas com a presença de Paul McCartney.Na sequencia, outra canção dos Wings: “Jet”. 
 
“Boa noite Porto Alegre! Boa noite, Brasil!” cumprimentou Paul, gentilmente, antes do primeiro grande sucesso dos Beatles: “All My Loving”. A primeira reação mais acalorada do público confirmou o que já era imaginado: aquela era uma noite, fundamentalmente, de fãs dos Beatles.
 
“Obrigado gaúchos”, agradeceu, para em seguida falar lentamente: “Esta noite vou tentar falar português”. E corrigiu-se, algumas vezes: “Português”. “Drive My Car” emocionou mais uma vez os fãs dos garotos de Liverpool. A gigantesca estrutura contava com três telões enormes, um em cada lateral, mostrando os músicos, e um maior ao fundo com animações, fotos e imagens clássicas da carreira de Paul McCartney. Acrescentou muito ao espetáculo. Outro fator determinante foi a qualidade da banda que acompanha Paul. Os teclados de Paul “Wix” Wickens, criam um clima muito especial. O guitarrista Rusty Anderson destaca-se pelos solos excelentes (especialmente em “Drive My Car”), Brian Ray (que alternou entre a guitarra e o baixo) e seu bom gosto também fizeram bonito. Mas o grande astro da banda é o baterista Abe Laboriel Jr., que além de tocar bateria e cantar muito bem, é um verdadeiro showman com suas caras e bocas. Uma banda nota 10 para um artista nota 10.
 
O repertório de quase três horas foi completo: canções da carreira solo de Paul dividiram espaço com outras do Wings e até mesmo do Firemen (parceria com Youth, também lembrado com as ótimas “Highway” e “Sing The Changes”). Mas a maioria das pessoas estava lá pelos clássicos dos Beatles, e para estas o set list foi impecável.
 
“Blackbird”, executada apenas por Paul ao violão responde por um dos momentos mais emocionantes da noite. “Long and Widing Road”, com Paul ao piano, da mesma forma. “Eleanor Rigby” conseguiu o que parecia impossível: ficou ainda mais grandiosa. “Something”, dedicada ao amigo George Harrison, arrancou lágrimas. E pela primeira vez no Brasil Paul McCartney tocou “Ob-La-Di-Ob-La-Da”, que fez as pessoas dançarem ao som da melodia alegre e inocente.
 
Bastante carismático, Paul se esmerou em falar português. Repetiu algumas palavras até obter a sonoridade correta (Paul falou “Brasil”, e não “brzel” e português e não “port guess”). Ainda ganhou a galera ao dizer “Obrigado gaúchos!” algumas vezes. Mas nada levantou mais a galera do que o “Mas bah tchê!”, pronunciado antes de “Blackbird”.
 
O show começa a encaminhar-se para o encerramento com outra lista de clássicos: “Back In The USSR”, “I’ve Got A Feeling”, “Paperback Writer” e “A Day In Life” (que antecedeu um trecho de “Give Peace a Chance”). Quem já havia se emocionado até agora, teve uma dose ainda maior desse tipo de sentimento com Paul ao piano para “Let It Be”.
 
“Live and Let Die”, um dos maiores clássicos da carreira solo de Paul e parte da trilha sonora de 007 respondeu por um dos pontos altos da apresentação que por si só já era épica. Uma imensa quantidade de explosões e fogos de artifício iluminaram o Beira-Rio e arrancaram gritos dos presentes.
 
A primeira parte da apresentação foi encerrada com chave de ouro com “Hey Jude”, a canção mais esperada da noite. Não poderia ser diferente, o canto de 50 mil pessoas cantando o clássico refrão foi uma das coisas mais bonitas que a cidade já presenciou. Paul despede-se pela primeira vez. Aqui os mais afoitos começaram a deixar o local.
 
No bis, mais emoções para os fãs dos Beatles: Paul McCartney retorna ao palco com uma grande bandeira do Brasil. Outro membro da banda trazia uma bandeira do Reino Unido. O canto “Ah, eu sou gaúcho” surgiu com força e foi repetido por Paul. Foi ovacionado.  
 
“Day Tripper”, “Lady Madonna” e “Get Back” compõem o primeiro bis. No segundo retorno, a belíssima “Yesterday” e uma grande surpresa: a performance de “Helter Skelter”, do clássico “White Album”. A canção, dona de uma energia visceral, exige muito dos gritos de um vocalista. Paul, no entanto, cumpriu esse papel muito bem, ainda mais considerando-se o fato de Sir Paul estar no palco aos 68 anos.
 
“Tem umas pessoas aqui dizendo que é para eu assinar o braço para que possam tatuar. Não é culpa minha!”, justificou-se. “Venham aqui!”, chamou Paul. Duas meninas subiram ao palco para ganharem, ambas, autógrafos de Paul McCartney em seus braços. Um momento histórico na vida das garotas. Surpresa geral.
 
“Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (reprise)” e “The End” encerraram a apresentação. Com quase três horas no palco, Sir James Paul McCartney se despede para não mais voltar, deixando seu público de 50 mil pessoas plenamente satisfeito.
 
Não existe uma forma válida de transcrever. Não existe texto que possa retratar com fidelidade o significado de ver parte dos Beatles (para muitos, a mais importante e criativa delas) no palco. Paul McCartney é o que mais se aproxima de um show dos Beatles. É o mais próximo que pessoas que nunca tiveram essa oportunidade podem chegar.
 
Os shows citados anteriormente (Metallica, Guns n’ Roses, Aerosmith, Green Day e Blacy Eyed Peas) foram, todos eles, ótimos. Mas não tem peso suficiente na disputa pelo título de show do ano. O nome dos Beatles e o talento de Paul como cantor e compositor ainda lhe garantem o primeiro lugar. Acabou a disputa.
 
A histeria é justificada. A emoção é perfeitamente compreensível. A grandiosidade de sua obra e do que os Beatles representam está no inconsciente coletivo. São o principal capítulo da música popular do século XX.
 
Talvez Porto Alegre jamais volte a receber um show com tamanho valor histórico. Mas, mesmo assim, o domingo 07 de Novembro vai ficar marcado não apenas na história da cidade, mas nas mentes e corações daqueles que lá estiveram.
 
Teremos sorte se houver um próximo.  
 
 

Set List

1- "Venus And Mars/Rock show"
2- "Jet"
3- "All my loving"
4- "Letting go"
5- "Drive my car"
6- "Highway"
7- "Let me roll it / Foxy lady"
8- "The long and winding road"
9- "Nineteen hundred and eighty-five"
10- "Let 'em in"
11- "My love"
12 – "I've just seen a face"
13- "And I love her"
14- "Blackbird"
15- "Here today"
16- "Dance tonight"
17- "Mrs. Vandebilt"
18- "Eleanor Rigby"
19- "Something"
20- "Sing the changes"
21- "Band on the run"
22- "Ob-la-di, ob-la-da"
23- "Back in the U.S.S.R."
24- "I've got a feeling"
25- "Paperback writer"
26- "A day in the life / Give peace a chance"
27- "Let it be"
28- "Live and let die"
29- "Hey Jude"
30- "Day tripper"
31- "Lady Madonna"
32- "Get back"
33- "Yesterday"
34- "Helter skelter"
35- "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise)"
36- "The end"

 

 

 
Por: Marcel Bittencourt
Fotos: Juliano Conci/Divulgação RBS e Franco Rodrigues/Divulgação RBS
 

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