Entrevista: Bebeto Alves

 

POA SHOW – Tu estás lançando uma caixa com quatro CDs (um duplo ao vivo com os Blackbagual, um de trilhas, dentre elas para cinema e teatro e um só de inéditas), como se deu a ideia deste trabalho e o que almejas com uma cartada tão ambiciosa, se considerarmos a crescente falta de interesse do público em comprar CDs?

BEBETO ALVES – Pois é, na verdade eu nunca me posicionei em termos de um mercado, se fosse assim acho que seria um artista com características muito diferentes. Eu não sou muito de “anunciar” o que pretendo fazer, pois eu dou margem sempre a uma possibilidade de “improviso”, digamos assim. Na verdade quando gravamos o disco ao vivo ano passado era para servir de musical para o filme que está sendo produzido pela Estação Elétrica. Quando vimos o resultado das gravações, o Corsetti (sempre o Corsetti!) me falou: – Pô, vamos lançar isso em disco, Bebeto, por que não?  E eu, desta vez, sem relutar, acenei positivamente.  Mas aí, justamente, é que entra essa coisa da inquietação. Achei que só um disco retrospectivo não iria contribuir em nada pra aplacar a minha necessidade imperativa de provocar a mim mesmo e a uma cena que precisa ser provocada constantemente. Aos poucos fui formatando uma ideia de me livrar de certas coisas, de abrir espaço, de limpar a área. Pensei que tinha de arriscar novamente. Foi quando me veio a idéia de fazer um pacote com tudo o que estava orbitando em meu espaço criativo. Primeiro o disco de trilhas, que é um trabalho que gosto muito, que curto produzir e pouquíssimas pessoas conheciam ou sabiam que eu desenvolvia esse trabalho. São inúmeras trilhas compostas para diversos tipos de situação. Fiz uma compilação, escolhi as que mais dialogavam com as minhas canções e cheguei ao “Cenas”. “O Maravilhoso Mundo Perdido”, o de inéditas, em formato acústico foi uma ejaculação precoce. Poderia ter me demorado mais nas preliminares, namorado um pouco mais, mas, de repente, me veio a idéia anárquica de um disco quase demo, um disco que eu ficasse só, desnudado, pele e osso, algo assim. Nunca tinha feito nada semelhante e achei que, justamente, essa seria a maior provocação, tanto para mim, como um desafio estético e também, porque não, técnico, quanto para o público em uma dimensão de conhecimento e aproximação maior que um artista músico pode oferecer. Se eu guardasse um pouco mais esse material, certamente ele seria outra coisa. Foi assim que surgiu o 3D e não me arrependo nenhum pouco, pelo contrário, acho que eu sempre almejei e continuo almejando um reconhecimento do público, na mesma proporção em que me imolo na construção de ser um artista provocador e um ser humano em desenvolvimento. Ando em paralelo.

POASHOW –  Em 2008 lançastes o disco “Devoragem”, um grande álbum e, para mim, o teu melhor trabalho, e o mesmo fora eleito por vários críticos de música do RS como um dos melhores lançamentos do ano, sendo reconhecido também fora do estado. Quais foram os frutos obtidos com aquele disco? Como enxerga o papel da crítica no atual cenário musical?

BEBETO ALVES – Pois é, o “Devoragem” é um disco que traduz minha excitação com idéias muito contemporâneas de um mundo novo, ou, em fase terminal que estamos vivendo, depende do ponto de vista e de sua dose diária de esperança. Não é um disco propositivo, apesar da faixa “O Demolidor”. Mas situo ele em uma interpretação de uma idéia de modernidade tardia ou pós-modernidade. Ele questiona, mas não aponta pra lugar nenhum. Ele confere, nomina, se diz, aponta, mas não descobre saídas. Mas é um disco de resistência sim, aliás, como todos os discos que gravo, acho que são peças de resistência, de busca de identidades, de reconhecimentos, de traduções. Eu não sei, eu nunca acho que meu trabalho é lido como eu gostaria que fosse, ou, percebido como ele realmente é, de que material ele é feito. Mas, o que se pode fazer… Olha, para ser justo, eu citaria um grande crítico, e talvez mais do que um crítico, um observador que tem levado a vida a nos interpretar, nos descobrir, nos desvendar. O Juarez Fonseca, um homem respeitado em todo o país, é o único jornalista no Brasil que pode nos redimir. Ele viu tudo nascer e continua a escrever cada vez melhor. Se existe realmente um papel destinado à crítica, o Juarez tem feito valer. Não é um cara que se acomodou, que tenha se tornado burocrático. Vejo no texto do Juarez uma necessidade também, como nós artistas, em se recriar, isso é muito legal. Mas, entendo a tua pergunta. Não sei, realmente não sei. Estamos vivendo um mundo em demolição e que, ao mesmo tempo se reconstrói. Acho que o texto do Juarez é uma possibilidade da crítica se constituir de uma outra forma, por isso o citei antes.

POASHOW – O novo disco (“O Maravilhoso Mundo Perdido”) conta com vários momentos de grande inspiração, em faixas como “Ruas” e “Te Cuida”, porém a escolha de um formato acústico imprimiu uma característica mais minimalista ao disco, não privilegiando tanto os arranjos e experimentos que marcaram o teu álbum anterior. Por qual motivo se deu essa mudança?

BEBETO ALVES – Bom essa pergunta já estaria contemplada na primeira questão que colocastes, no início da entrevista, mas, talvez, possa acrescentar mais uma coisa. O que mais me moveu em gravar esse disco foi mesmo o desafio em fazê-lo dessa forma: praticamente só violão e voz. Se não tivesse o cuidado que teve nas gravações, na execução e interpretação poderia passar por um “disco demo”: um esqueleto, uma pré-forma. Mas, com ele, e só ele me permitiu experimentar fazer canções na hora de gravar, como foi o caso da canção título e da canção composta para o meu amigo Cao Trein, que morreu no final do ano passado. A música que fiz para o Cao ainda foi um experimento mais radical, pois eu só tinha escrito em forma de poesia várias coisas sobre a impressão da morte dele sobre mim, enquanto eu me dirigia para a sua cremação. Entrei no estúdio, falei para o Rodrigo: – grava aí Rodrigo! E saí cantando sem saber para onde eu estava me dirigindo. E foi assim, um único take e era isso. O que mais eu poderia fazer por esse amigo? Só poderia me jogar de um precipício mesmo para fazer justiça a nossa vida e amizade. Ser o mais honesto que eu poderia ser, o mais verdadeiro. Outra coisa que acho bacana nesse disco, como provocação, é a guitarra que imito com a boca na “Tira-Mancha”. O disco está cheio dessas pequenas coisas que passam despercebidas em sua intenção.

POA SHOW – Sendo um artista que está na estrada há mais de trinta anos, como tem lidado com as fortes mudanças que os músicos/compositores têm enfrentado na divulgação de sua arte?  

BEBETO ALVES –  Cara, já passei por tanto e por tantas que eu não saberia te precisar. Mas sinto que muita coisa está mudando a esse respeito da mesma forma que o comportamento do consumo e da comunicação relativo aos artistas e seus trabalhos. Acho que a Internet abriu essa possibilidade. Por exemplo, este site já é um fenômeno desses novos tempos e da mesma forma o interesse do público se manifesta de maneira incomum também. As rádios não são mais os veículos que determinam o que as pessoas vão ouvir ou deixar de ouvir, se ouve menos rádio, se vê mais YouTube, e por aí vai. Mas acho que não é só isso, alguns artistas têm seu próprio selo e eles mesmo negociam seus produtos e fazem suas próprias promoções e comunicação. Ouve um redimensionamento, se criaram nichos, segmentos. Creio que, apesar dos pesares, o momento é mais propício aos artistas e a sua arte, no sentido da liberdade. Outro tipo de envolvimento se dá com o público, propiciando uma leitura mais clara e mais arejada da intenção e conceito das propostas artísticas. Acho o momento bem interessante, temos de aprender a lidar com esses novos formatos de relacionamento entre público e artistas. O público sempre teve sua parcela de importância e responsabilidade e vai continuar sendo assim, mas hoje, de uma maneira direta, sem atravessadores, no bom e no mau sentido.

POA SHOW – Grandes compositores gaúchos, ainda em atividade, como Nelson Coelho de Castro, Nei Lisboa e Vitor Ramil continuam produzindo obras de ótima qualidade, e fora o Vitor, mas nem tanto assim, os outros dois parecem não obterem mais o mesmo êxito comercial de anos atrás.  Que espaço enxerga para artistas como vocês na atual cena? Achas que tem conseguido renovar seu público?

BEBETO ALVES – Eu acho que esses artistas ainda continuam queridos por um público fiel. O que sinto é uma grande mudança nessas relações (divulgação e espaço). Se antes esses artistas precisavam de veículos para se comunicarem, hoje precisam é ter consciência das ferramentas à disposição e se disporem a trabalhar com elas. Acho que de todas as maneiras continuamos expostos e temos de saber de que jeito, de que maneira a gente quer se fazer entender com essas novas tecnologias. Certamente a linguagem mudou e temos de descobrir como nos fazer entender. Creio que, ao escrever sobre isso, nesse momento, para mim fica claro que temos um caminho novo e que pode sim nos auxiliar em todo o tipo de relação a que nos propusermos, mesmo nas relações comerciais, quando somos donos de nosso próprio nariz, somos donos do bolicho. Pessoalmente vejo um interesse crescente por parte do público pelo meu trabalho. Nunca fui um artista escolhido pelo público para ser “a sua cara” mas, sim, de tempos em tempos, gozei de um sucesso ou outro, quando músicas minhas se projetaram no playlist das rádios. Porém, tive momentos difíceis de total falta de reconhecimento e entendimento em relação ao que estavam me propondo. Nunca facilitei muito as coisas, por nada não, mas pelas minhas escolhas, pelas mudanças e quebras de paradigmas que eu sempre propus. Nunca fui um artista “confortável” para o público, pelo contrário, meu trabalho sempre arranhou, causou estranhamento, se indispôs, mas como verdade e com muita honestidade. Eu não fabriquei isso, esse é o meu caráter Acho que as pessoas começaram a perceber isso.

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3 Comentários

  1. Neko Visentini

    Ola pessoal do Poa Show e um abração para este grande músico e compositor do meu Rio Grande, Bebeto Alves que sempre apreciei o trabalho dele desde os vinis com sucessos como Nas ruas de Porto Alegre (acho que é este o nome da música) e tambem tirei o chapéu pra ele quando ele lançou o Chamamessero com letras do Mauro Moraes, gostei muito tambem. Sou músico prático, venho no caminho dos festivais dos anos 80 3 um pouco de 90 aí no RS e tambem sempre cantando nos bares. Hoje moro em Florianópolis e desde 2005 lancei 2 cds de músicas próprias, compus minhas músicas nativas quando morava por aí mas sempre tive na veia o MPB OU MPG. É uma grande verdade que o Bebeto falou dessa nova era ou novo mundo, hoje em dia temos a internet e a tecnologia nas mãos para nós mesmos alvancar o nosso trabalho através dos sites, blogs e muito mais. Eu sinto dificuldade ainda de fazer isto, colocar a minha música para o público e ver qual a aceitação, estou no myspace com as minmhas obras e agora vou abrir para que possam gravar, no ano passado eu pensava que só poderiam ouvir o meu novo cd comprando de mim mas vejo que errei, estou por arrumar o myspace para que todos que ja entraram para me escutar possar gravar. As lojas quase não vendem mais cd, quem tem cd próprio como eu tem que se virar vendendo a cada show. Não sei onde vai dar tudo isto mas só sei que a batalha é individual, só uma coisa, ta brabo de competir com essas coisas sertanejas, acho que o povo está sendo enganado pela tv, que pena. Vamos aceitar as mudanças. Um abraço.

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  2. tatiani moreira da silva

    Coisa louca esse Bebeto! Sou uma fã que o descobriu tardiamente e por acomodação conhece pouquíssimo de sua obra.É a primeira vez que pesquiso sobre ele sendo que o descobri há uns 18 anos no rádio, comprei 2 cds e fui num show mas, nem por isso sou menos fã.A palavra que o define para mim é VICERAL. A vóz dele fala muito, o estilo, seus figurinos, gestos, irreverência, sensibilidade, onipotência com humildade se isso é possível, antagonismo, fé para arriscar, expor-se, ser, enfim… por quê só agora estou pesquisando-o?!? Parabéns, você já nasceu brilhante, artista, prá lá de único e … me dá um autógrafo!?!

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  3. Mirza

    Amo Bebeto. Fiquei louca pra ir a POA comprar o álbum escutar o ‘inéditas’, escutar aquela voz rouca, sensual… Besos from Santana.

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