Seel Pulse: os regueiros da Rainha

 
A noite de quarta-feira começou com céu aberto para os gaúchos e temperatura típica de outono, na casa dos 20 graus. Em frente ao bar Opinião, desde cedo, centenas de pessoas aglomeravam-se para prestigiar os britânicos do Steel Pulse que, este ano, comemoram 36 anos de estrada e muitas mensagens positivas na bagagem. Com diversas passagens por Porto Alegre, incluindo as mais recentes, 2008 e 2009, a banda encabeçada por David Hinds trouxe ao Opinião basicamente a mesma energia.
 
No entanto, pouco depois das 23hs, o público pode conferir uma das bandas promissoras do reggae nacional, os porto-alegreenses da Brilho da Lata. Composta por Frodo, Seco, Alemão, Pablo, Chula, Marcelo Rasta e Anderson Chachá, a banda é apontada como a mais nova revelação do reggae gaúcho, trazendo outros estilos e influências, porém, mantendo a essência do reggae, com parceiros tradicionais do cenário gaúcho como, por exemplo, Paulo Dionísio, da banda Produto Nacional. Quer dizer, podemos dizer que está renascendo o movimento reggae na capital dos gaúchos. Formada em 2008, em Porto Alegre, a Brilho da Lata emplacou algumas músicas nas rádios e apesar do pouco tempo de carreira já mostra uma inegável maturidade musical, além de uma boa sintonia com o público. Então, abrindo o palco à noite, tocaram músicas como “fim de mês”, “mar alto” e “em busca do óbvio”. Nesse momento, a entrada do público nas dependências do bar ainda permanecia congestionada, digamos assim, pelo grande público que, na Rua José do Patrocínio, fazia uma espécie de pré-aquecimento antes do show. Aproximadamente 1.500 pessoas fizeram-se presentes para apreciar o reggae europeu de raiz africana. Criada em 1975, no bairro de Handsworth, subúrbio de Birmingham, Inglaterra, a banda encabeçada por David Hinds subiu ao palco já na quinta-feira, pontualmente às 00:50, sendo ovacionada pelo público que, nessa altura do campeonato, preenchia as dependêncios do bar Opnião. Além de Hinds, nos vocais e guitarra base, os ingleses vieram a campo com a seguinte escalação: Nos teclados e vocais Selwyn Brown, nos teclados, sem vocais, Sidney Mills, na guitarra solo Donovan Mckitty, na bateria Wayne Clark, no baixo Amlak Tafari e Keysha McTaggart no acompanhamento vocal. Time de sete.
 
E a bola rolou com um medley de sucessos da banda, enquanto David Hinds ainda permanecia dentro da coxia. Assim, após o “tira-gosto” inicial, Hinds surgiu no palco com sua aparência peculiar, dreads que vão até as pernas, regata branca, óculos Ray-Ban e chapéu de jogador, de volêi de praia, dos anos 90. Mostrando desenvoltura ele saudou a platéia com “Boa noite Portou Alegri”, um figuraça. E foi transitando pelo palco que ele cantou a primeira música, “Rally Round”, levando o público ao espírito do espetáculo. Depois vieram, mais ou menos, pela ordem: “Ku klux Klan”, “Chant a psalm”, “Roller Skates” e “handsworth Revolution”, música que leva o nome do primeiro álbum da banda, de 1978, e que simbolicamente representa a identidade do grupo. Handsworth é o berço de tudo, local onde o Steel Pulse nasceu. Além disso, a música aborda o tema da segregação social e racial na Inglaterra do final dos anos 70. Inclusive, na terra da Rainha, os ingleses tiveram dificuldades no início de carreira, justamente, pelo teor de suas letras.
 
Paralelamente, o público correspondia com a mesma categoria, cantando os refrões e interagindo com a banda. Falando em interação, cabe ressaltar que Hinds conversou diversas vezes com a platéia, sempre em inglês, o que dificultou, no meu caso, certo entendimento. Nada que não fosse contornado através das músicas. O show também teve “Steppin Out”, “bad man”, “babylon the Bandit” e “Táxi Driver”. Sinceramente, como espectador, senti falta de “reggae fever” e “African Holocaust”, talvez, tocadas no bis. Infelizmente não fiquei até lá. Assisti ao show de 2009, no qual fiz a resenha aqui para o Poashow, e fiquei com a impressão que vi exatamente a mesma coisa, ou seja, na visão de um leigo, porém, admirador do estilo musical, faltou alguma novidade, algo diferente das outras passagens por Porto Alegre. A banda encerrou a apresentação com 1h30min de apresentação, pontualmente, às 2h20min. Quanto a qualidade do show, não é à toa que a banda venceu todos os obstáculos e firmou-se como grande referência do reggae mundial. Destaque para o guitarrista solo, Donovan Mckitty, e para o tecladista, Selwyn Brown, que mostravam-se mais à vontade no palco. A sensação de “faltou algo mais” pareceu absorver o público que, após o fim do show, não cantou com tanto entusiasmo o famoso “mais um, mais um”.. Talvez pelo adiantado da hora, passava das 2h, talvez pela intensidade da celebração musical. Antes de partir, Hinds agradeceu o público com “Oubrigado Porto Alegri”, enquanto a banda finalizava a última música. Os ingleses tem no currículo mais de 20 álbuns gravados, porém, desde 2004, quando gravaram African Holocaust, não entram em estúdio para um álbum novo. Quem sabe seja isso que esteja faltando para a banda, para fechar essa lacuna, um álbum inédito trazendo uma mensagem mais atual da banda, mais contemporânea. Isto é, não precisa mudar o discurso, longe disso, ainda mais porque a luta pela justiça e igualdade, proposta pela banda, sempre continuará, mas digo algo novo, criativo, com novos elementos sonoros, que mostre a idendidade atual do grupo oriundo do gueto e que, hoje, já não enfrenta os mesmos problemas do início de carreira.
 
De qualquer forma, a revolução de Handsworth ainda segue marchando..
 
Por: Silva Junior
Fotos: Tadeu Panato
 

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