El Mapa de Todos: Um dos maiores, melhores e mais abrangentes festivais independentes da América Latina

 

Primeira Noite

Por: Marcel Bittencourt

Um dos maiores, melhores e mais abrangentes festivais independentes da américa latina aconteceu em Porto Alegre nos dias 12, 13 e 14 de Abril. Foi o "El Mapa de Todos", que reuniu artistas de sete diferentes nacionalidades (Uruguai, Argentina, Chile, Venezuela, México e Espanha, além do Brasil) em três noites de muita música e interação cultural.

Os trabalhos começaram com a banda Reino Eletrón, de Passo Fundo. A banda, que já havia se apresentado em Porto Alegre na 2a edição da Noite do Senhor F, foi uma ótima escolha para o início das apresentações. 
Na sequencia, a primeira atração internacional: O chileno Daniel Riveros, conhecido artisticamente como Gepe, é um dos músicos mais importantes de seu país e um dos destaques da cena musical da América Latina, junto com Javiera Mena, que se apresentou na edição anterior do El Mapa de Todos. Dono de uma sonoridade moderna, de destacou pela criatividade dos arranjos.
 
Xoel López, cantor e compositor espanhol, atualmente, desenvolve o trabalho “Canciones Compartidas”, em parceria com o argentino Pablo Dacal e o uruguaio Frany Glass. O Subiram ao palco logo após a apresentação de Arthur de Faria e seu Conjunto. Ao despedir-se, Xoel disse em um bom português "O que mais importa são as pessoas”, traduzindo o clima de integração musical do "El Mapa de Todos".
 
Para encerrar a primeira noite, a apresentação mais aguardada: O genial Frank Jorge fechou os trabalhos com muita competência. Suas composições agradaram em cheio o público gaúcho, que já conhece e admira de longa data. Desta vez, não foi diferente: Frank ganhou o jogo que já estava ganho. 
 
Um encerramento perfeito para a primeira noite de um ótimo festival.

Segunda e terceira noites
 
Por: Fabrício Silveira

O festival El Mapa de Todos, que ocorreu no bar Opinião, em Porto Alegre, nos dias 12, 13 e 14 de abril, deve ser saudado como um dos mais importantes eventos do ano na cidade. Não só pela quantidade de bandas e artistas que reuniu, mas por ter se configurado também como uma espécie de ponto de encontro, uma celebração e, de fato, um mapa daquilo que vem se fazendo de mais interessante, daquilo que é relevante, de algum modo, e/ou mesmo de apostas e tendências recentes que estão surgindo na música pop na América Latina. Embora a adesão do público não tenha sido à altura – ao menos na segunda noite do evento –, e mesmo que no cast do festival estivessem nomes já bastante conhecidos da cena gaúcha, o festival deve ser brindado, deixando-nos com a expectativa de que tenha longa vida e que outras edições possam ocorrer em breve.
 
De Guaíba – RS, a banda Sociedade Bico de Luz abriu a segunda noite, com cerca de uma hora de atraso, e fez uma boa abertura, com o visual no estilo The Hives, muita animação e um pop rock ganchudo, acima da média. O sotaque gaúcho da banda é muito forte, evidente na interação com público, nas letras e no tipo de humor que possuem. E eles até brincaram com isso: “não somos bairristas”, disseram em algum momento, entre uma música e outra, tirando um sarro de si mesmos. Trata-se, enfim, de uma boa promessa, que ainda irá dizer a que veio e mostrar, de fato, a contribuição que dará à cena local.
 
Depois disso, vieram os cariocas da banda Do Amor. A banda faz uma mistura corajosa de indie-rock, Jorge Ben – boa fase –, Gang of Four, e o carimbó paraense, gênero que tem no folclórico Pinduca sua principal expressão. As composições são interessantes: têm refrões fortes, têm boas guitarras (em alguns momentos, certas marcações lembram Gang of Four), são fáceis, são fáceis de fixar e são um convite à dança, embora o público, a essa altura, ainda não estivesse totalmente à vontade para bailar. A impressão que fica é a de que a banda divide-se em suas influências, ou melhor: essas influências todas, tão diversas, nem sempre se aglutinam muito bem. Há uma certa irregularidade no conjunto das canções, como se, numa determinada música, a influência de (e a referência a) Pinduca falasse mais forte e, noutra, a influência indie-rock ganhasse mais importância. Nem sempre essas influências todas se combinam e ficam bem resolvidas nas composições. Na verdade, é como se tivéssemos duas ênfases que vão se alternando. Além disso, em muitos momentos, a referência à Pinduca resulta forçada demais, quase como uma técnica (uma estratégia) nerd para a produção de uma diferença cult. Não se pode negar que a banda remete também a Los Hermanos, seus conterrâneos cariocas, no tom universitário e no modo como explora a música brasileira, apropriando-se dela.
 
Os uruguaios do Contra las Cuerdas foram os próximos e fizeram também um set empolgante, com seu hip hop vibrante e cadenciado, com destaque para a alternância dos vocais. Em muitos momentos, César Gamboa, o DJ do grupo, responsável pelas pick ups também vinha à frente do palco dar o recado cantando, assumindo as rimas junto com Marcelo Gamboa. A certa altura, tivemos a participação de MC Gabriel, um amigo gaúcho que foi convidado a subir ao palco e juntar-se aos vocais. É interessante ainda a proposta do grupo: incorporar elementos e ritmos regionais, como o candômbe e o tango, com pitadas funk.
 
Mais tarde – não muito mais tarde, afinal o tempo entre uma banda e outra foi bastante razoável, sem muita demora –, chegou a hora dos venezuelanos Los Mentas. O grupo chegou cheio de reputação e prometendo muito. Fez um show muito correto e energético, com direito a uniforme e hino na abertura do show. Sim, o show começou com o hino adotado pela banda, que foi cantado em posição de sentido pelos músicos e pelo próprio público. As influências vão do punk-rock ao rockabilly, sempre em boa estirpe, fazendo-se assim uma ótima base para a performance que viria em seguida.
 
Por fim, fechando a noite, Wander Wildner fez um ótimo show, como estamos acostumados a ver, com seu saudoso escudero e comparsa Jimmy Joe nas guitarras, com direito a todos os hits que já estão no imaginário do público gaúcho, com direito a clássicos da Graforréia Xilarmônica e de Júlio Reny. O bom e velho Wander de sempre.
 
Saldo altamente positivo. Dois dados interessantes: embora a presença do público pudesse (ou devesse) ter sido maior, ao menos nessa segunda noite, o evento teve boa acolhida e boa repercussão na imprensa local – o que talvez possa contribuir para que novas edições possam ser viabilizadas; além disso, também foi muito bacana ver o Senhor F., Fernando Rosa, um dos organizadores, um dos principais responsáveis pela viabilização do festival, muito presente, atendendo a todos, posicionando-se na fila do gargarejo, vibrando com as bandas e, de fato, curtindo os shows em meio à galera.

Para a noite seguinte estavam escalados: Watson (BR), Superguidis (BR), El Mato a un Policia Motorizado (AR) e Macaco Bong (BR). Ou seja: teríamos uma noite de muitas guitarras, muita microfonia e muita distorção. Dito e feito.
 
A Watson, de Brasília – DF, fez um bom show de abertura, com pitadas de psicodelia, música brasileira da década de 70 e ares de Mutantes. E as guitarras também já começaram a aparecer e ganhar destaque. Um dos momentos fortes do show, prontamente reconhecido em ato pelo público, foi a homenagem que fizeram à lenda-viva Plato Divorak. Plato teve então uma de suas canções ali executadas. Tributo justíssimo.
 
Na seqüência, também de Guaíba – RS, veio a Superguidis. O show foi impressionante, muito intenso, carregado de bom humor, boas melodias, boas letras, participação do público e guitarras, claro, muitas guitarras. Aliás, Lucas Pocamacha, o guitar da banda, estava estreando ali seu instrumento recém adquirido. E fez bom uso dele. Vale salientar que as letras das canções têm qualidade, são boas sem serem pretensiosas, são divertidas e inteligentes. Não é absurdo dizer que a Superguidis está entre as melhores bandas do Brasil, na praia do indie-rock, na esteira de Nirvana, Sonic Youth e assemelhados. Que continue assim.
 
O show seguinte, dos argentinos El Mato a Un Policia Motorizado, da cidade de La Plata, começou morno, um pouco arrastado demais, sem muito contato com o público. Entretanto, pouco a pouco, o conjunto foi destilando seus climas pesados, algo etéreos, e foi desfazendo-se essa distância. Numa das canções, o grupo contou com a participação de Andrio Maquenzi, da Superguidis, voltando ao palco e fazendo os vocais, inclusive traduzindo para o português um dos refrões.
 
Por fim, o show mais esperado da noite: Macaco Bong. E foi, de fato, um petardo. Talvez tenha sido um show histórico: a banda é afinadíssima, os três integrantes são ótimos músicos e mantém uma sintonia e uma pegada difícil de se ver. Petardo atrás de petardo, com muitas influências, que vão de Hendrix a King Crimson, sons ora mais grooveados, ora mais pesados, ora mais limpos, ora mais sujos mesmo, com solos e mais solos, andamentos quebrados, dinâmicas diversas, sem vocais nenhum. O público aplaudia e acompanhava tudo com atenção, extasiado (ou quase isso). O show foi mais longo do que os anteriores e não foi, em nenhum momento, cansativo.
 
Sem dúvida, este show, sozinho, já teria valido a pena, já teria justificado o Festival inteiro. Nosso desejo, agora, é de que a Macaco Bong possa retornar e que, ano que vem, tenhamos um novo mapa de todos.
 
Fotos: Paulo Capiotti

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