Lobão elétrico é muito rock n’ roll em Porto Alegre

 

O Festival de Inverno deste ano contou com uma abertura importante: Lobão. Ele abriu as atividades do festival com um bate-papo informal no teatro Renascença, onde o cantor e compositor teve quase duas horas pra conversar com o público sobre assuntos diversos, mas os seus preferidos estavam lá: Chico, Caetano e Gil. Não é novidade para ninguém que há um bom tempo essa crítica aos ícones da MPB vem fazendo parte da pauta do Lobão, criando uma aura de polêmica em todas as entrevistas que o músico concede. Um exemplo disso foi quando um rapaz pediu o microfone pra perguntar qual era a opinião do Lobão sobre Los Hermanos e Malu Magalhães. O músico, que não é bobo, disse que não acrescentaria em nada para a discussão. Outra participante da plateia começou um discurso inflamado supostamente acusando-o de estar mais pessimista com relação a política no Brasil se comparado ao discurso que o músico tinha há dez anos. A resposta foi imediata: “Mas é claro, já se passaram dez anos, estranho seria se eu tivesse a mesma posição, a gente tem que aprender com a realidade”.

Mas mesmo diante de críticas acaloradas, Lobão consegue manter uma simpatia que só os mais bem dotados intelectualmente conseguem ter. Dono de um vocabulário riquíssimo, onde cria alguns de seus verbos, e desenvolto na sua oração, consegue fazer até os fãs de Chico, Caetano e Gil ficarem em dúvida sobre a qualidade dos seus ídolos. Quando alguém pedia a palavra para alguma pergunta, já começava na defensiva, “Eu até gosto do Chico, mas…”, esse é o efeito Lobão.

Mas e sobre o show? Bom, não foi muito diferente daquele apresentado no Bar Opinião em setembro do ano passado, mas contou com algumas particularidades, como o ilustre convidado Luiz Carlini da mítica Tutti-Fruti, banda de apoio da Rita Lee depois de sua saída dos Mutantes.

Lobão trouxe uma banda de “responsa” para o show em Porto Alegre, dando maior arrojo e peso para versões de “O jogo não valeu” e “Mal de amor”, que abriram a apresentação. Desde o início ficou claro que seria uma apresentação de Rock, de verdade, Rock com todas as letras em maiúsculo. Durante a execução de “Decadence Avec Elegance” o músico virou para sua baterista, Michele Abu, e sinalizou, como quem dissesse “mais peso, isso é Rock n’ Roll!”. De fato, o que se viu e ouviu foi uma banda muito forte.

Seguiram com “Bambina”, que sofreu uma alteração, ficando mais dançante, mas também muito legal. Devo dizer que gostei mais dela assim do que em sua versão acústica. “A Queda” e “A Vida é Doce” também foram responsáveis por alguns dos melhores momentos da apresentação    , sem contar “El Desdichado II” que foi introduzida por Lobão como uma música feita para um amigo. A canção possui um poder de fúria de dar inveja a qualquer compositor que por alguma vez já tentou exprimir esse tipo de sentimento. Incrível!

Finalmente chegamos à participação de Carlini, que foi acompanhado pela banda, verdade seja dita. Tocaram clássicos do rock brasileiro como “Ando Meio Desligado” dos Mutantes, e “Ovelha Negra” música da Rita Lee na época em que tocava com o Tutti-Fruti. Carlini mostrou porque é tido como um dos maiores guitarristas do Brasil. Esse trecho do show acabou servindo pra preparar o terreno para o momento mais tranquilo, menos denso da apresentação, onde começaram a aparecer os clássicos.

Claro que não poderiam faltar canções como “Me Chama”, cantada em uníssono pelo público, “Noite e Dia”, “Rádio Blá”, que teve a letra um pouco alterada, sim, ela ficou um pouco mais direta do que na versão gravada no acústico MTV, “Vida Bandida” e pra finalizar com muito alto astral, “Corações Psicodélicos”.

Foi uma apresentação muito acima da média, de um artista que mesmo com suas opiniões controversas, também está acima da média, não só do que é produzido em termos de rock no Brasil, mas da música em geral. O problema é que os fãs, dos dois lados da trincheira, não conseguem separar a aura polêmica que ronda Lobão da sua obra. E acaba que esse debate de idéias se transforma no centro de toda a questão, o que não deveria ser.

O Lobão é a antítese do que Chico, Caetano e Gil fizeram pela construção de uma identidade musical nacional, mas ao mesmo tempo é o seu melhor complemento.

Por: Ângelo Borba

Foto: Franciele Caetano

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