Roger Waters: Um espetáculo épico no Beira-Rio.

O palco é um lugar sagrado. É onde os grandes artistas se revelam, prosperam e se consolidam. Por conta disso, somado à falência do mercado fonográfico, os shows têm conquistado espaço cada vez mais importante não apenas na vida dos fãs, mas também nas carreiras de seus ídolos. No entanto, alguns artistas conseguem, mesmo com o mercado em crescimento, transcender toda e qualquer expectativa, por mais exagerada que ela seja. E foi um desses shows, grandioso a ponto de atingir o status de épico, que o vocalista e baixista britânico Roger Waters trouxe a Porto Alegre, abrindo sua turnê brasileira, na histórica noite de 25 de Março de 2012.    Já eram 20h40 quando as luzes se apagaram para o momento mais aguardado pelos mais de 30 mil espectadores que tomavam o estádio Beira-Rio: “In The Flesh?”, faixa que abre o álbum The Wall, é recebida com aplausos estrondosos. Boa parte dos gigantescos tijolos já formava, nas laterais, parte do muro, personagem principal do espetáculo. Explosões, no exato tempo de cada acorde da introdução de “In The Flesh” são a deixa para a chegada do lendário Roger Waters, que sobe ao palco sorridente, acenando aos gaúchos. Sua entrada, literalmente cinematográfica, foi registrada com takes típicos dá sétima arte e exibido nas extremidades do muro. Ao final da canção, o som estrondoso de um avião, seguido pela queda e explosão de uma réplica de um pequeno avião militar no palco e a simulação de um bombardeio. Logo na primeira música, a turnê The Wall Live deixou claro que o público estava diante de um espetáculo audiovisual de primeira grandeza. Na seqüência, em “The Thin Ice”, imagens e dados de soldados combatentes mortos foram exibidas no telão ao fundo, para um a um se tornarem, simbolicamente, tijolos no muro.

    O maior clássico do álbum (e da própria carreira do Pink Floyd), “Another Brick in the Wall”, foi o ponto alto do espetáculo, e contou com a presença do coral de crianças do Instituto Canta Brasil. O Beira-Rio explodiu com um dos maiores clássicos da história do Rock. Justificando o título da canção, mais alguns tijolos são adicionados ao muro.  Antes da belíssima “Mother”, Waters se dirige ao público pela primeira e única vez em seu show. Em bom português, o músico agradece: “Estou muito feliz por estar aqui. Em primeiro lugar, quero agradecer às crianças do Canta Brasil. Obrigado. Quero dedicar este concerto para Jean Charles de Menezes e sua família por sua luta pela verdade e justiça. E para todas as vítimas do terrorismo de estado. Nós nos lembraremos de vocês. Obrigado”. Foi ovacionado pelo público, que se emocionou com o discurso.

    Ao longo das canções que se seguiram (“Goodbye Blue Sky”, “Empty Spaces”, “What Shall We Do Now?”, “Young Lust”, “One of My Turns”, “Don't Leave Me Now”, “Another Brick in the Wall Part 3” e “The Last Few Bricks”) mais e mais tijolos eram adicionados ao muro. Ao final, em “Goodbye Cruel World”, Faltava apenas um, por onde Waters cantou a canção antes que o muro se tornasse completo, fechando o primeiro ato, antes do intervalo de 20 minutos.

    O segundo ato, correspondente ao segundo LP, inicia com o muro completo, e a banda executando “Hey You” por trás dele. O público, neste momento, torna-se estrela do espetáculo cantando a canção em sua totalidade. No interlúdio, animações são projetadas no muro, simulando sua destruição. Após “Is There Anybody Out There?”, Abre-se uma pequena janela no muro, revelando uma sala. Na cadeira, em frente à TV, Roger Waters interpreta “Nobody’s Home”. Já o clássico absoluto “Confortably Numb”, que arrancou lágrimas dos fãs, chamou a atenção pela semelhança do timbre de voz do guitarrista Dave Kilmister em comparação com o de seu intérprete original, David Gilmour.

    As mensagens anti-capitalismo, que foram a tônica das animações exibidas no telão, ganharam ainda mais força com o surgimento do tradicional porco voador. Nele, diversas mensagens em português. Entre elas “Tudo ficará bem, apenas continue consumindo”, “Quem morre de fome morre assassinado” e a bem humorada “2,85 é roubo!”, referindo-se ao preço da passagem de ônibus em Porto Alegre.

    Em “The Trial” o destaque fica por conta do final apoteótico com o público bradando “tear down the wall”, antes da destruição completa do muro. Houve tempo, ainda para uma execução intimista de “Outside the Wall” em frente aos destroços, encerrando um dos maiores e melhores shows que já passaram por Porto Alegre.
    O espetáculo The Wall Live supera todo e qualquer tipo de expectativa. A qualidade audiovisual da turnê, aliada à competência da banda e à genialidade de Waters são algo obrigatório para os fãs não apenas do Pink Floyd, mas de música em geral. O show, que ainda passará pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro já era sonho de consumo dos fãs que o tinham acabado de assistir. Sem sombra de dúvida, um dos maiores espetáculos da terra.

Setlist
In the Flesh?
The Thin Ice
Another Brick in the Wall Part 1
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Mother
Goodbye Blue Sky
Empty Spaces
What Shall We Do Now?
Young Lust
One of My Turns
Don't Leave Me Now
Another Brick in the Wall Part 3
The Last Few Bricks
Goodbye Cruel World
(intervalo)
Hey You
Is There Anybody Out There?
Nobody Home
Vera
Bring the Boys Back Home
Comfortably Numb
The Show Must Go On
In the Flesh
Run Like Hell
Waitig for the Worms
Stop
The Trial
Outside the Wall

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine

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  1. Pingback: Roger Waters em Porto Alegre | POA SHOW

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