Thurston Moore e Kurt Vile em Porto Alegre

Existem artistas de quem gostamos muito, mas sabemos o quão remotas são as possibilidades de um dia vermos. Normalmente, este motivo está ligado ao aspecto econômico, seja por falta de grana de quem quer ver ou por falta de “viabilidade comercial” de quem poderia contratar, visto que algumas apresentações representam risco de fracasso financeiro. Então, paciência. Thurston Moore, ex-líder da maior banda alternativa de todos os tempos, o finado Sonic Youth, e também gênio deste gênero musical, é um ótimo caso de figura cultuada por um grande número de admiradores, mas que é configura um desses riscos. Kurt Vile foi destaque na maior parte das publicações importantes sobre música na Europa e nos Estados Unidos, sendo saudado como uma espécie de Neil Young ou Lou Reed moderno, mas aqui não passa de um ilustre desconhecido. Mas contrariando os contras, os dois estiveram no palco do Opinião para fazer a alegria dos fãs outrora desesperançosos. A casa não estava lotada, mas um ótimo público compareceu. Gente que talvez desconfiasse que seria a única vez em que seria possível ver uma junção de artistas tão representativos e de gerações diferentes em uma mesma noite de quarta-feira, quando o que se tem é quase só futebol.

    Kurt Vile e seus companheiros do The Violators sobem ao palco para iniciar não um show de abertura, mas uma apresentação completa (ou muito próximo disso, com certeza).  Aos poucos foram conquistando a atenção do público que ainda não os conhecia. Os aplausos foram crescendo sucessivamente, e na terceira música do set eles foram calorosos. Claro, tratava-se de uma de suas músicas “mais conhecidas” e mais bacanas, “Jesus Fever” (tem um clipe bem legal, vale a pena conferir). O público que ainda chegava durante o show de Kurt, acabava se deparando com uma apresentação que ganhava corpo e ia conquistando pela qualidade do material apresentado. Nenhum dos músicos é um grande instrumentista, exceto o baterista, muito técnico e de bom gosto, mas possuem um ótimo repertório e sabem fazer uma verdadeira apresentação de Rock. Pra que mais que isso?

    O embalo folk/rock n’ roll de “Society is my Friend” era para ser a última música do show, mas como ainda sobravam uns poucos minutos para Kurt, o músico resolveu se despedir sozinho com seu violão e fechou de vez essa bela apresentação com “Dead Alive”.  Satisfação estabelecida, para público e banda. A noite começara em grande estilo.

    Era próximo à meia-noite quando a atração principal subiu ao palco. Thurston entra em cena de forma simples. Certo, ele não é uma estrela. O público o saúda com o devido respeito, mas não há muitas cerimônias, de ambos os lados. Depois da banda no palco, ainda demoraram alguns minutos até que começasse a apresentação. Terminados os últimos ajustes (sim, em cima do palco, qual o problema?), começa a apresentação.

Uma música que fala sobre fumar marijuana, buscar discos de jazz e se apaixonar pela vendedora, abre os trabalhos: “Never Day”. A maioria sabia, ou deveria saber, que o show era da carreira solo de Thurston, e isso significava que o material do Sonic Youth não entrava obrigatoriamente nessa, e vindo de quem anda sempre na contramão, era de se esperar que somente o material solo fosse tocado. Isso não quer dizer que as microfonias, barulheiras e dissonâncias típicas de sua ex-banda não estariam presentes. Foi assim que ocorreu, de maneira mais (in)esperada no final de “Orchand Street”. Quase dez minutos de esquizofrenia controlada. A partir de agora poderia se esperar qualquer coisa.

    Thurston Moore promove nessa turnê, o seu elogiadíssimo último álbum, “Demolished Thoughts”. Um álbum bem diferente do que fazia tanto no Sonic Youth como na própria carreira solo. Menos sujo, mais polido e musical do que nunca. Mas como o set list se concentrou também nos seus dois álbuns anteriores (alguns contam três, incluído o inclassificável disco de remixes e participações, Root), tivemos espaço para a sujeira habitual, mas esta estava reservada para o fim. Por hora, o clima era de harmonias mais doces, violão e violino davam o tom. “Fri/End” e “In a Silver Rain with Paper Key” abriram espaço para a nova, no velho estilo, “Groovie” e “Linda”. Daí pra frente, passando por “It’s Only Rock n’ Roll (But i Like It”), dos Stones, a grunge “Cindy (Rotten tanx)”, e a psicodelia de doze minutos da lisérgica “Ono Soul” (originalmente com duração de 3 minutos e meio), o clima era de total subversividade sonora. É estranho como tanta gente enxerga beleza nisso.

    “Circulation” retomou o rumo da apresentação para algo mais palatável, mas não menos belo. Mas foi com “See – Through Playmate” e “Pretty Bad”, ambas do seu primeiro disco solo, que Thurston se despediu. Apesar dos 53 anos, o sangue ainda pulsa jovem.

    Fim de duas ótimas apresentações, ainda mais para quem achava que nunca veria esse dois grandes artistas na capital de seu estado, perto da sua casa e por um preço justo. Pode se dizer que foi uma noite histórica. No micro mundo do melhor e mais avançado que a música independente ainda oferece, justiça seja feita, pode se dizer que foi histórica, sim. Porém, mais do que isso, porque o cientificismo do termo histórico não representa o que se espera de uma bela apresentação de rock. Foi uma noite memorável, de deleite, do início ao fim.

Por: Angelo Borba

Fotos: Marcel Bittencourt

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