Bob Dylan: Casa cheia para receber uma lenda viva

          Noite de terça-feira e Porto Alegre recebe, pela terceira vez, o cantor americano Bob Dylan. Dono de uma extensa discografia e de uma importância histórica inegável, o compositor de 70 anos lotou o Pepsi On Stage para uma apresentação bastante singular, que dividiu opiniões. Apesar da proibição expressa, vinda do próprio Dylan, quando ao acesso de profissionais de imprensa, o POA Show esteve lá para reportar esta apresentação histórica.           Poucos minutos antes das 21h, as luzes se acendem no palco para a entrada de Dylan ao som de "Leopard-Skin, Pill-Box Hat". Acompanhado de sua banda, Bob Dylan foi ovacionado pelas sete mil pessoas que lotaram o Pepsi On Stage para prestigiar o ídolo. Em seguida, contornando rapidamente um pequeno contratempo com a guitarra, Dylan emenda um de seus clássicos mais emblemáticos: “It’s All Over Now Baby Blue". Logo no início chamou atenção a incontestável qualidade do som, perfeitamente audível em todos os seus detalhes. Sem sombra de dúvida um dos melhores sons já apresentados no local. A iluminação, no entanto, deixou a desejar: apenas luzes amarelas vindas da beira do palco projetavam as sombras dos músicos ao fundo, de onde vinha um toque extra de charme proporcionado por alguns spots de luz negra. E assim foi durante toda a apresentação, salvo os momentos onde Dylan e sua banda se despediram do palco.

           Na seqüência, "Things Have Changed" fez jus ao título com um arranjo totalmente modificado (ainda mais gritantemente diferente do que as músicas que a antecederam no setlist), transformado-a em um country de, infelizmente, gosto duvidoso. Aos 70 anos Bob Dylan abusa do direito de fazer o que bem entende, alterando as canções sem dar a mínima para a opinião de quem quer que seja. Nada diferente da postura que pautou sua carreira de já data de meio século.

           O repertório foi baseado em clássicos indispensáveis que permeiam sua discografia, sendo o conceituadíssimo “Highway 61 Revisited” o grande privilegiado, com quatro canções: "Desolation Row" e “Ballad of a Thin Man”, além da faixa-título. Estas canções agradaram o público heterogêneo que compareceu ao Pepsi on Stage, mas foi apenas em "Like a Rolling Stone", quando o show já se encaminhava para o final, que a platéia gaúcha demonstrou sua força. O brado "How does it feel / "How does it feel" ecoou fortemente e fez o Pepsi On Stage explodir com um dos refrões mais clássicos do Rock and Roll. Em seguida, a saideira "All Along the Watchover", também com arranjo modificado, foi a despedida com pouco menos de 90 minutos de show.

           Para o bis, pedido incessantemente, Dylan retorna para seu maior clássico, "Blowin' in the Wind". Esta, não apenas alterada, mas difícil de reconhecer, não fosse por sua poesia gravada no inconsciente coletivo. Com uma hora e meia, Dylan se despede dos gaúchos.

           Bob Dylan, com seu clássico mau humor que, de uma forma estranha, lhe atribui carisma e gera identificação com seu público, fez um show básico, que emocionou seus fãs mais pela idolatria e pelo reconhecimento de sua obra e genialidade do que pelo próprio conteúdo apresentado. Seus erros (ora quase imperceptíveis, ora nem tanto assim) na guitarra e na harmônica, ou sua voz que sofre os efeitos da idade não importam, por um simples fato: trata-se de Mr. Bob Dylan, alguém que influenciou uma imensa gama de artistas com seu estilo minimalista e sua complexidade lírica que lhe dá status de gênio.

           Um dos artistas mais importantes da história esteve em Porto Alegre. Pode não ter sido uma excelente apresentação, mas foi uma excelente oportunidade de estar cara a cara e se emocionar com uma verdadeira lenda viva.

Por: Marcel Bittencourt

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