Entrevista: O Teatro Mágico

Na última terça-feira, dia 04 de Junho, o lider e mentor do Teatro Mágico, Fernando Anitelli, concedeu entrevista exclusiva ao POA Show. Durante uma hora o vocalista falou sobre mídia, música, Internet e, obviamente, a trajetória de sucesso da banda. Confira. 

POA Show – O Teatro Mágico é hoje uma banda consolidada, como público fiel que lota as apresentações pelo Brasil. Como surgiu o Teatro Mágico e como foi o início da trajetória da banda?

Fernando Anitelli – Antes eu era um cara com um sonho muito grande de viver de música e eu trabalhava no cartão de crédito do Bradesco. Eu era um cada infeliz. Então, não queira ser um bancário do Bradesco. Teve um momento em que eu tive de fazer essa opção enfática: "to saindo mesmo!", pra me dedicar por completo, com peso, com densidade, pra focar nisso, focar em resultados pra isso. Nessa necessidade de me resolver na minha composição, no que eu quero escrever. Se você trabalha no Bradesco, você sempre tem uma desculpa pra deixar pra mais tarde a sua verdadeira missão. Eu já estava sentindo isso há um tempo e aos 28 anos de idade eu já quis sair do banco. Quando eu saí, fui trabalhar de garçom, lá fora, pra juntar uma grana e gravar um CD. Na época não era fácil gravar CD como é hoje, onde você grava em casa. Não tínhamos uma tecnologia adequada pra isso. Então eu fui, me joguei lá fora, e trabalhei de garçom, toquei em restaurante, em Shopping Center, toquei em praça, com violão aberto… um ano e meio de muita labuta pra poder voltar e conseguir gravar o CD. Quanto eu estava lá fora, em Salt Lake City, estado de Utah, eu estava lendo um livro chamado "Lobo da Estepe". É um livro que fala sobre redenção, sobre coragem, é um romance psicológico do Hermann Hesse, um autor alemão, que foi escrito antes dos anos 70 e tem uma abertura para um horizonte muito bacana, muito bonito. Nesse livro tem a passagem onde o personagem, na busca por quem ele é, encontra o teatro mágico, onde a entrada era para raros. Ele pensa "não, porra, não pode ser pra mim" e vai embora. Ele vai saindo fora mas vê que o sinaleiro acendeu se novo e quando vira está escrito "só para raros". Aí ele pensa "É pra mim. Eu vou entrar". Então ele entra e se depara com os vários personagens que o compõem. Baseado nessa passagem, que eu achei uma coisa linda, eu pensei "porra, queria ter um trabalho, um CD, chamado 'O Teatro Mágico – Entrada Para Raros' onde você abrisse a capinha do CD e encontrasse lá 'Só para raros'". E foi o que eu tentei fazer. Segui trabalhando, voltei pro Brasil, já tinha um monte de músicas, comecei a dar aula de violão, de inglês, montar meu CDzinho, fazer curso de teatro, o tempo foi passando e eu gravei o CD inteiro, voz e violão. "Fernando Anitelli apresenta O Teatro Mágico – Entrada Para Raros". Chegou na última música eu pensei "vou botar um violino nessa música". Aí botei o violino. Um amigo meu do sarau. Se botasse violino naquela outra música ali? E se botasse um ovinho nessa outra? Resumindo: eu regravei o CD inteiro de trás pra frente. Tudo que eu gravei voz e violão sem click, tinha que editar. Conclusão: gravei esse CD, tudo ao contrário. Se você pegar o nosso CD "Entrada Para Raros", que foi gravado no quintal da casa de um amigo meu, tem várias variações de tempo, tem sujeiras em alguns canais. Quando eu fui fazer o show eu falei "cara, eu queria que todo mundo fosse um personagem em comum, que não tivesse essa motivação hierárquica entre o palco e a plateia". Isso é baboseira. É um equívoco romântico achar que o artista é aquele pedestal. É um trabalho como qualquer outro. Com pé no chão. Lógico que mexe com sensibilidade, tem esse caráter, mas ninguém é mais do que ninguém. Essa é a ideia. A ideia foi jogar isso na apresentação. Onde o palco e a plateia fossem um personagem comum. E qual personagem poderia ser comum? Uma coisa só? Pensei no bufão. Aquela coisa do palhaço trovador, inquieto, que critica, mas ao mesmo tempo fala de amor, de humor… aí todo mundo passou a ser um personagem e as pessoas começaram a comparecer transfiguradas. A ideia era justamente tal qual em um sarau mesclar linguagens artísticas. Num primeiro momento a ideia era justamente trazer essa questão lúdica, da palavra, da poesia, do circo… No circo tem música, No circo tem teatro e era dessa maneira que a gente compunha. Começou com 30 pessoas participando do show. É óbvio que um negócio desses não daria certo, então tinha que sempre ir otimizando desde o começo. A cada álbum era um elenco. Então eu sempre tratei o Teatro Mágico como uma companhia artística. A cada álbum tínhamos músicos diferentes, as pessoas que participavam da parte performática de uma maneira diferenciada… então o que marcou nesses dez anos foi a nossa constância e a nossa mutação. Em dez anos buscando uma maturidade musical, filosófica, textual, performática… e foi o que aconteceu. Hoje o Teatro Mágico está consolidado país inteiro. Nesses dez anos temos aprendido que existem duas coisas muito sagradas que sustentam um artista: honrar a sua obra e honrar o seu público. Essas duas coisas sustentam naturalmente. Foi assim que eu criei o Teatro Mágico e tem sido assim nesses dez anos de muita música.

 

POA Show – A imprensa costuma se valer de rótulos, até mesmo por uma questão de referência. Com o Teatro Mágico não é diferente. Fala-se em uma trupe, uma banda, um projeto solo do Fernando Anitelli. Então, ninguém melhor que você para responder: O que é o Teatro Mágico?

Fernando Anitelli – Eu não sei! (risos) Na verdade o Teatro Mágico é isso, uma companhia artística que funciona da seguinte maneira: é um projeto essencialmente musical, composto por uma banda onde todos são personagens e a nossa apresentação é muito performática. Existe um estudo cênico para cada elemento colocado no palco. A questão da dança, dos movimentos, da dança aérea, dos aparelhos criados para determinadas canções… na verdade o que acontece é isso: somos uma banda pop com uma apresentação performática. Lógico que dentro dessa banda "pop" não está aquele pop pejorativo, aquele trabalho muitas vezes mesquinho que a gente ouve, feito de qualquer maneira por uma banda criada há alguns meses. Não. Não é isso. Existe um estudo, uma excelência na composição, no assunto que você vai falar. Existe uma demanda de colocar pro palco questões que afetam a gente. A questão da mulher, da luta pela terra no nosso país, da democracia na comunicação, do amor, não só do amor entre homem e mulher, mas um amor mais universal… a gente também caminha pra esse campo. Então é nesse aspecto que essa banda pop performática se apresenta: Teatro Mágico.

 

POA Show – O Teatro Mágico de popularizou muito pela Internet, sendo considerado, inclusive, um fenômeno. Como foi esse processo e como isso impactou internamente a banda?

Fernando Anitelli – Quando eu tinha uma banda chamada Madalena 19, era um trio. Eu era vocalista e guitarrista. Eu era um cara louco pra poder viver de música, meu pai era um cara apaixonado, coruja, a fim de ver o filho se tornar uma coisa que talvez ele gostaria de ter sido e o meu irmão, sociólogo, Gustavo Anitelli, que também escreve canções comigo, sempre acompanhando. Eu tentando, a gente batendo na porta de gravadora… até que uma disse "agora eu vou ajudar vocês". Eu tinha aquele pensamento de músico, que achava que se apresentar em um programa de fim de semana ou tocar no rádio bastava para ter uma carreira consolidada. E não é isso. Eu pensei "agora minha vida mudou!". O nome da gravadora era "Cascatas Records". (risos) A gente começou a gravar e na oitava música o dono ligou e disse: "Refaz tudo em ritmo de forró e ska". A gente recusou e então, gaveta. Fomos engavetados. Ficamos quase três anos sem poder gravar ou divulgar. Fodeu a banda. Acabou. Ficaram com os fonogramas. A gente estava desiludido e nisso surge o meu pai e diz "Não é um cara engravatado que vai dizer se o seu trabalho é bom ou não. É o público. Sabe o que eu fiz? Joguei a música de vocês na Internet". Naquele momento, com o amor de um pai querendo que um filho desse certo, estava ali o DNA da música livre. Nisso chega meu irmão sociólogo e diz: "Isso que nosso pai falou… ele tem total razão, Fernando. O CD não é mais o material. A partir de agora, você vai acessar pela Internet. Vai ser tudo streaming. A gente já tentou de tudo, não deu certo, a rádio pede jabá, a gravadora quer mudar teu som… cara… divulga teu som. Quem gostar vai ir atrás". A partir de então tínhamos eu, cuidando da parte artística, meu pai, cuidando de fazer os CDs e botar em saquinhos pra vender na barraquinha, e o meu irmão, administrando toda a produção executiva do Teatro Mágico. Desde deste início a gente pensou: vamos cuidar do público. Vamos alcançar o público. Vamos mostrar nossa música pro mundo e vamos cuidar de cada um que tem acesso a nossa música. Vamos ter um som de personalidade, com qualidade. Tem que ser bom, não pode ser diferente! Tem que ter argumento, tem que ter crítica, a gente não pode cantar da boca pra fora. Musica livre. Você pode comprar nosso CD dentro de um saquinho por cinco reais como até hoje é. "Ah, mas eu quero o oficial", é dez. "Ah, mas eu quero o DVD", é vinte. "Quero de graça" tem de graça na Internet. Em qualquer campo você consegue alcançar pessoas. Desde o início a ideia era essa: que a Internet ajudasse como uma ferramenta, como ela é de fato. Tem a mesma natureza que um sarau. A Internet tem natureza colaborativa. As maiores empresas hoje, que ganham milhões, só existem porque a gente tem conta nelas. Yahoo, Facebook, Google, todo mundo. Era fundamental compreender isso e as gravadoras não compreenderam. Não quiseram largar o osso. As gravadoras não compreenderam como trabalhar com a Internet. E aí proíbe. Crime. Até hoje tem um monte de lobby… crime o caramba!!! Nunca foi crime! A gente trocava fita K7! Isso nunca foi crime e sempre ajudou o artista. Até porque quem ganha com venda de CD é a editora e a gravadora. Artista ganha fazendo show. Então eu me vi na seguinte situação: eu estou na mesma situação que um artista de gravadora: eu só ganho fazendo show? Eu sou fazer show. Mas como eu vou fazer show se ninguém conhece o meu som? Então a gente se instalou em um lugar. Fazíamos show a cada 15 dias. E a gente distribuía, praticamente, o CD. Pegávamos e-mail, não tinha Facebook, só comunidade no Orkut. Então a idéia era: Aproxima. Conversa com o público. Quem é você? Leva. Divulga. Copia sim, isso não é crime. E copia não pra me divulgar, mas porque não é crime. A gente tem que debater essa questão criminosa que  colocam na nossa cabeça de que a gente faz pirataria. Hoje, no Brasil, se você pega um CD e grava pro seu computador ou pro seu iPhone você está cometendo um crime chamado "ilícito legal", porque você não pode copiar aquela obra para outro aparelho porque isso é tido como pirataria. Então começam a confundir a cabeça da própria população. Não é crime, você pode copiar sim o meu trabalho. Toda a minha obra. Pode dar de presente pro seu amigo, mas não revender pro seu amigo por um preço mais barato, aí é outra questão. Então, quando o Teatro Mágico surge, ele surge como um expoente diferenciado esteticamente dentro desse universo pop no Brasil naquele momento. O Teatro Mágico não tem absolutamente nada de novidade. Tocar pintado e usar figurino pra se apresentar, desde que o planeta surgiu as pessoas fazem isso. Mas dentro do nosso Brasil, no momento, ano 2000, com rádio e TV cada vez mais massificando as mesmas músicas dos mesmos empresários, um som pasteurizado, quadrado… hoje o forró parece com sertanejo, que parece com funk que parece com rock melódico! Jesus Cristo! E estão querendo o mesmo espaço. Aí o cara pensa: "então vou fazer assim"… Não! Faça exatamente o contrário. Tenha personalidade! Faça diferente. E o nosso diferente era o que? Voltar-nos para o público e para a obra. O diferente passou a ser a coisa mais primordial de todo o contexto: cuide da sua obra e do seu público. É a primeira coisa. Não é o amigo do cunhado do fulano que trabalha do lado da gravadora… isso não leva. Não adianta. Sustentação a qualquer projeto cultural é você ter argumento, é você ter personalidade, responsabilidade, musicalidade, sonoridade… e isso se dá sentindo na pele as questões todas que envolvem quem é você dentro do processo criativo da música. A gente se auto organizando, aprendemos a gerar e a gerir a própria obra. A gente aprendeu que a gente podia ter um site com fotos e vídeos. Tínhamos a TMtv (TV do Teatro Mágico onde fazíamos alguns chats). Ficou claro que acontecia essa transição. Ser independente, na verdade, é depender de muita coisa e você só vai fazer sentido e as pessoas só vão te dar credibilidade se você trouxer resultados. E os anos 2000 nos mostraram que a coisa só funcionaria se a gente trabalhasse de mãos dadas, em rede, em uma construção comum com vários outros, com quem estivesse na mesma situação que a gente. Então era fundamental o que? União. “Católico, evangélico, budista, macumbeiro, corintiano / Espírita ou ateu / Todo mundo busca a paz interna, tâmo aqui pra ser lanterna / Foi assim que Ele escreveu / Palavras e palavras e palavras / E ainda acham que o deus do outro não pode ser meu”. O músico no Brasil é muito separatista. Meu público é meu público, o seu é aquele ali. É incrível como ninguém vai no teatro e a cooperativa de teatro consegue milhões da lei não sei o que, blábláblá, mas num país que é musical, onde as pessoas cantam de norte a sul, os músicos são deslumbrados, não tem uma unidade, são uns concorrentes dos outros, num processo separatista. Então a gente pensou: vamos trabalhar dessa maneira. Vamos ter um site onde as pessoas consigam nossa música de qualquer maneira e falem com a gente direto. Um por que e pra que você faz o seu trabalho. Hoje você fica três meses preso numa casa e é um artista. Porra! Eu fico até preocupado com o uso da palavra artista. Eu penso que somos militantes da música e da arte.

A gente tem que estar cada vez mais acompanhando as novidades tecnológicas, as redes sociais, tudo isso nos ajudou e ajuda muito… a gente tem que regar o nosso publico. As pessoas dizem você chegou lá. Como assim lá? Não existe lá. As dificuldades sempre existem, você vai ter dificuldades de acordo com o tamanho que você esta. Quando você é pequeno você toca num barzinho e concorre com a tv que esta passando o Gre-Nal, com o chopp que chega quente e com a menininha que não te da bola. depois, um pouco maior, se preocupa se a casa tem alvará, se tem estrutura. Em outro patamar maior ainda, mais preocupações. Então não existe chegar lá. Existe você tomar consciência de onde está o seu projeto, como realizá-lo, e sempre formatar essa questão da rede e da integração. E tirar esse romantismo do sexo, drogas e Rock and Roll, estou aqui amanhã vou tocar no rádio… parar com essa coisa… essa coisa desses canais de música que ficam tocando o dia inteiro a mesma coisa do mesmo empresário e que quando a banda parar de fazer aquilo, que é vergonhoso, ela grava um acústico e começa tudo de novo. Então tem que ter essa consciência de que com essa postura diferente se consegue outros resultados.

 

 

POA Show – Como é a relação do Teatro Mágico com a grande mídia e o mainstream?

Fernando Anitelli – Com relação a mídia, a gente se mantém da mesma maneira: conversamos com qualquer mídia. Conversamos com o Blog e conversamos com a TV Globo. A questão é você entender quem é você dentro da mídia. Por exemplo, quando a gente sai em um jornal, sai uma crítica, uma matéria… legal. Quando vamos em uma rádio, muito eventualmente, falamos do projeto, tocamos uma música… depois nem tocam mais. Poucas rádios tocam a gente. Quando vamos a um programa de TV, a gente vai para tocar nossa música e falar do projeto. Então é isso, enquanto fora pra tocar nossa música e falar do projeto, está tudo certo. A gente tem mais é que ocupar esses espaços, pois TV e Rádio são concessões públicas. Deveriam ser trabalhados para o público em uma comunicação para o público. E não é isso que acontece. O que acontece é outra coisa. Então a gente tem, sim, que ocupar o latifúndio da comunicação. Espaços de rádio e TV. Não é protestar contra a TV, gritar que é contra. Aí você está fazendo a maior besteira. Não é assim que se lida. Tem aquele revolucionário de plantão, xiita, que acha que tem que jogar barro na porta da emissora e usa Nike. É contra a Globo e vai lá tomar uma Heineken. Então esse perfil revolucionário completamente estereotipado não funciona mais. Isso não se faz. A gente consegue mudar as coisas com diálogo e com presença e essa presença não pode ser simplesmente virtual. Deve ser presencial. Então a nossa relação com a mídia é uma relação normal. A gente já foi convidado pra ir em um programa onde a gente teria que brincar de estourar a bexiga, enfiar a cara na farinha… não. Isso a gente não vai fazer. Se for pra mostrar a música e falar do trabalho, beleza. A gente já participou do Fantástico, do Jornal Hoje, programas de grande público, mas o nosso som rádio nenhuma toca. Faz votação na Internet, a gente ganha. A gente se apresenta para dez mil pessoas no Credicard Hall, mas não é nem chamado para a virada cultural de São Paulo. Por que será? Aquela máfia. O que acontece é que quando você se relaciona com a mídia, você tem que saber o que você está fazendo ali. Agora a gente está com uma música na novela Flor do Caribe. O Jaime Monjardim conheceu o Teatro Mágico, já tinha gostado do projeto, tinha chamado a gente pra participar da novela Viver a Vida. A gente perguntou como era a participação e ele disse que era como O Teatro Mágico mesmo, pois ele tinha conhecido a banda através da cunhada, que mostrou um DVD. Então a gente foi parar no maior canal de televisão da América Latina. Isso é uma conquista. Isso é você chegar na lua com um foguetinho construído no quintal de casa.

POA Show – E sem significar nenhum tipo de rompimento com a integridade, proposta ou ideologia da banda.

Fernando Anitelli – Exatamente. A gente ouviu muita coisa. Galera, eu não estou comprando o meu espaço para estar aqui. E outra: ouça o que eu estou falando na televisão, antes de querer dizer que eu me vendi. A gente foi no programa da Fátima Bernardes, recentemente, e tocamos a música que está na novela, que é o hino da luta pela terra pelos movimentos campesinos há dez anos. A gente regravou essa música. Eu estou levando pro país inteiro uma música que fala “Ser e ter o sonho por inteiro / Ser sem-terra, ser guerreiro / Com a missão de semear”… eu estou falando isso, não estou falando "rebola, rebola, rebola-bola-bola". Eu estou falando outra coisa. NO programa da Fátima eu falei "Fátima, não é crime baixar música na Internet" enquanto TODOS os artistas vão lá dizer que é crime. Eu vou falar que não. Então antes de falar bosta, ouça o que eu estou falando naquele canal. Eu estou entrando no horário nobre cantando algo que nenhum artista quis cantar. Que artista pop fala do Movimento Sem Terra? "Ah, mas o Emicida levou a bandeira, teve aquele momento"… mas quem tem relação com o MST? Tem toda essa questão. A música está na novela, chama-se "Canção da Terra", do Pedro Munhoz, um gaúcho que a gente conheceu e achou fabuloso, como o Nei Lisboa que é outro cara que eu acho foda, e aí hoje ela faz parte da teledramaturgia, com um pequeno detalhe: como a nossa música é livre, a Som Livre, que representa qualquer coisa de música da Globo, teve o primeiro contrato de música livre do país. A nossa música está na trilha sonora, mas ele pode ser encontrada, baixada e compartilhada na Internet que não é crime. Você conseguir fazer isso é uma conquista, você não está se vendendo. Você está entrando pela porta da frente com o que você canta e colocando em prática a possibilidade da música livre. É histórico. Então o cara que diz "se vendeu!" ele está equivocado, só isso. Se ele tivesse noção do que realmente está acontecendo… nossa canção Xanéu No. 5, que fala exatamente sobre isso: “A minha tv não se conteve / Atrevida passou a ter vida / Olhando pra mim / Assistindo a todos os meus segredos / minhas parcerias, dúvidas, medos / Minha tv não obedece”. A gente continua falando sobre isso, até porque não somos contra a TV. A TV é muito legal, eu ligo lá, passa o jogo, eu vejo, passa um filme, é legal… O problema é o mau uso da TV. É o que fazem com os artistas para promover. É um artista se jogar em uma piscina de sunga para poder mostrar o trabalho dele. Que coisa mais mal educada. E sábado, então? Caldeirão do blábláblá. Se a gente acreditar que o que existe de cultura no nosso país é o que passa na TV no final de semana, a gente tá ferrado, cara! Então é esse espírito que a gente carrega no Teatro Mágico: Manter a independência dialogando com as mídias. Até mesmo com coisas que a gente não concorda, mas tem que conviver, afinal não vivemos em um mundo onde todos vão viver concordando. Não. "Ah, você estava na Globo". Tá. Então não posso ir na Globo mas posso ir no canal do pastor? Posso ir na MTV que é da Abril, que faz a Veja? Posso ir na Bandeirantes? Então essa falta de informação das pessoas faz com que se crie o estereótipo de que se apareceu na TV não é mais independente. Se vendeu. A gente continua independente buscando cada vez mais essa relação próxima com o público, do mesmo jeito.

POA Show – A banda também mantém uma relação de proximidade com Porto Alegre. Como foi construída essa relação?

Fernando Anitelli – Foi do mesmo modo que a gente foi construindo em todos os outros estados: devagar, chegando com amigos e pessoas que a gente mandava CD. Íamos para lugarzinhos menorzinhos, com humildade. Na época tinha uma comunidade no Orkut, Teatro Mágico Porto Alegre, e a gente postava, botava as músicas e o pessoal comentava. Começamos a fazer shows, depois conversávamos com a galera. Essencialmente a apresentação de um artista tem que ser como um goleiro: só pode acertar. Se o seu som for ruim, o público não vai a segunda vez. Tem que ter personalidade, essencialmente isso. E foi assim. Muita gente gostando, falando com a gente… A gente foi voltando de quando em quando… uma rádio ou outra dava espaço pra gente falar do projeto, fazer entrevista… O que acontece é que realmente em algumas cidades é bacana e em outras a galera fica ensandecida. Pessoas são bravas… e isso é fundamental. A nossa sorte (e não somente sorte, também merecimento) é que encontramos pessoas assim nos shows do Teatro Mágico em todos os lugares que a gente foi. Em todo lugar que a gente foi, pelo menos tinha um disposto a ser esse guerreiro que seria um parceiro e lutaria lutar por nós. O público compreendia isso. O público divulgava a gente. O público era o principal divulgador do show. O público pegava nossa música e mandava pra rádio, pra mídia. O público é o principal divulgador. Então a gente passou a se preocupar menos com isso e mais em crescer pra dentro. Fazer um show bom, para um público bom. Porto Alegre foi assim. Foi cada vez mais se maturando essa relação para chegar aonde chegou.

 

 

 

 

 

 

 

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