Maria Rita: trazendo a Porto Alegre a turnê “Redescobrir”.

                Noite de sábado e Porto Alegre é agraciada com um show mais do que especial. Além do retorno do Auditório Araújo Vianna (que reabriu oficialmente na quinta, dia 20, com um grande festa com a participação de artistas gaúchos, mas que neste sábado recebera seu primeiro show de um artista de fora do estado), Maria Rita, filha de Elis Regina, volta a Porto Alegre com o show “Redescobrir”, onde interpreta exclusivamente o repertório da mãe.  Uma noite emocionante para público e artista, que mostraram carinho e cumplicidade, tudo temperado com muita música de qualidade.

                Já eram 21h15 quando as luzes se apagaram e o vídeo promocional do patrocinador apareceu nos telões. Ovacionada, Maria Rita entra em cena. Grávida de sete meses, vestindo uma longa túnica branca e, ainda, extremamente emocionada, a Maria Rita canta a primeira do repertório da noite, “Imagem”, enxugando lágrimas. Sob aplausos estrondosos, a canção ganha um charme especial, com o belo trecho falado (“Enquanto a nossa meta não for atingida / Continuamos gritando o nosso canto / Enquanto nossa música não voltar ao que é / Nós lutamos, faz escuro, mas nós cantamos / O amanhã tá breve / Vamos cantar logo, logo o que é nosso / Porque mais que nunca / É preciso cantar o que é nosso”) ouvido em playback, na voz da própria Elis. Um início charmoso e especial, para um repertório não menos brilhante. Na sequencia, “Arrastão” também foi bem recebida, porém o primeiro clássico da noite foi que arrancou os aplausos mais emocionados até ali: “Como Nossos Pais”, uma das canções mais conhecidas do repertório de Elis Regina, agradou a todos. A beleza do palco, a iluminação cuidadosamente planejada e a qualidade de sua banda chamam a atenção desde as primeiras músicas.

                Em um longo discurso (o primeiro de vários naquela noite), Maria Rita agradeceu o carinho dos fãs gaúchos: “Vocês sempre me recebem bem assim, né?”. E lembrou, ainda, da emoção de se apresentar no Araújo: “Fiquei sabendo há poucas horas que aqui foi onde aconteceu uma vigília naquele 19 de janeiro” (N. do R.: data da morte de Elis, 19/01/1982) e anuncia as próximas canções, como parcerias importantes da carreira de Elis Regina: Angela Maria, Cauby Peixoto e Tom Jobim. Não foi difícil prever que viriam a seguir excelentes interpretações para “Vida de Bailarina”, “Bolero de Satã” e, especialmente, “Águas de Março”, uma das canções mais aplaudidas da noite.

                A partir dali, o que Maria Rita proporcionou uma viagem no tempo através do repertório da mãe: “Saudosa Maloca” ganhou um arranjo melancólico como sua letra, distanciando-se do samba de Adoniran Barbosa. Clássicos absolutos como “O Bêbado e o Equilibrista”, “Se Quiser Falar com Deus” e “Alô Alô Marciano” embalaram as lembranças do público, formado por pessoas das mais diferentes faixas etárias. A surpresa ficou por conta de “Doce Pimenta”, a única canção do repertório que não foi gravada por Elis. Maria Rita explicou: “Essa foi a única canção que não foi gravada pela minha mãe em disco. Porém… essa maravilha de Youtube… tem lá. Foi um especial de TV onde ela canta com a Rita essa música de Rita Lee. Aliás, as duas ficam mexendo uma com a outra e a música que, originalmente, tinha uns três minutos passa a ter… sete”, completa, arrancando risos.

                Encaminhando a apresentação para o final, Maria Rita fala, ainda, sobre a grande amizade, cumplicidade e respeito que sempre existiu entre Milton Nascimento e Elis Regina. E foi com uma trinca de canções de Bituca que a cantora encerrou a primeira parte da apresentação, que já contava com mais de duas horas. Após “Morro Velho” e “O Que foi Feito Devera”, a empolgante “Maria Maria” fez com que o público levantasse de seus assentos para dançar e cantar celebrando a memória de Elis. Maria Rita deixa o palco, porém o público não faz menção de ir embora.

                Após vários pedidos, a cantora retorna para uma versão de “Fascinação” e uma surpresa: “Romaria”, que não constava no repertório oficial da turnê. Para encerrar com chave de ouro, “Madalena” e “Redescobrir”, que terminou com seus músicos tocando apenas instrumentos de percussão e deixando o palco em fila indiana, numa criativa e simpática forma de se despedir do público.

                Durante o show foram sanadas todas as dúvidas com relação aos aspectos técnico do novo Araújo. Som perfeitamente audível, luz impecável e o palco amplo e visível são gratas surpresas do novo Araújo Viana. Já a mobilidade discutível e os assentos tradicionalmente desconfortáveis continuam como marcas do local. Quanto ao show “Redescobrir”, foi uma deliciosa lembrança da época em que Elis era a maior e melhor cantora da música brasileira (título que muitos a atribuem ainda hoje). Apesar de longa, foi uma bela noite de música, em todos os sentidos. Que esse show especial ainda percorra muitas cidades e retorne a Porto Alegre.

Afinal, o show de todo artista tem que continuar.

 

SETLIST

Imagem

Arrastão

Como Nossos Pais

Vida de Bailarina

Bolero de Satã

Águas de Março

Saudosa Maloca

Agora Tá

Ladeira da Preguiça

Vou Deitar e Rolar

Querelas do Brasil

O Bêbado e o Equilibrista

Menino

Onze Fitas

Me Deixas Louca

Tatuagem

Essa Mulher

Se Quiser Falar com Deus

Zazueira

Alô Alô Marciano

Aprendendo a Jogar

Doce de Pimenta

Morro Velho

O Que foi Feito Devera

Maria Maria

 

BIS

Fascinação

Romaria

Madalena

Redescobrir//

 

Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Fabiana Menine

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