Entrevista: Fernando Rosa, Senhor F

 

 

Na última quinta-feira o jornalista, produtor e herói do underground Fernando Rosa, o Senhor F, respondeu a uma entrevista exclusiva do POA Show. Durante o papo, falamos sobre música, cena independente, américa latina, política e, obviamente, o festival El Mapa de Todos, que acontece no Opinião nos próximos dias 6, 7 e 8. Confira. 

 

POA Show – Você é uma pessoa com uma trajetória invejável no underground. Conte-nos um pouco sobre sua história, como começou?

 

Fernando Rosa – Sempre ouvi música, desde pequeno. Na juventude, decidi ser jornalista. Depois, acabei juntando as duas coisas. O gosto pelo rock, em especial, e a curiosidade por conhecer o mundo da música. Nos anos noventa, depois de colaborar com a algumas publicações, criei meu próprio espaço, no caso, na internet. Em 1998, criei a então Revista Senhor F, aliando resgate da história do rock nacional com apoio à nova cena independente. Isso acabou resultado em parcerias com o programa Senhor F na Usina do Som, no início da década. Em seguida, em 2001, na criação do evento Noite Senhor F, em Brasília (agora em Porto Alegre), e no Senhor Festival (que deu lugar ao El Mapa de Todos). Mais tarde um pouco no selo Senhor F Discos, em parceria com Philippe Seabra, da Plebe Rude, que lançou artistas como Superguidis. E, recentemente, na consolidação do festival El Mapa de Todos, além dos programas Senhor F na Ipanema FM e Sem Fronteiras na Rádio Câmara da Câmara dos Deputados. Além disso, ainda contribuímos para construir uma plataforma de festivais independentes no Brasil que, após a falência da indústria do disco, ajudou a dar visibilidade para os novos artistas.

 

POA Show – Quais os principais momentos ao longo dos anos de apoio e bons serviços prestados à música no Brasil e no exterior?

 Fernando Rosa – Particularmente, o momento em que percebi a importância de ter, por meio da Revista Senhor F, dado visibilidade para artistas independentes brasileiros de gerações anteriores que não tinham reconhecimento na história do rock e da música nacional. No geral, ter contribuído efetivamente, ao longo dos últimos 10 anos, para o debate e para a construção de uma realidade para a cena musical jovem do país. Emocionalmente, experimentar rodar um país continental como o Brasil, convivendo com diferentes pessoas, costumes e musicalidades.

 

POA Show – Em um meio de atuação tão difícil como é a cena independente, o que te move a continuar esta empreitada?

Fernando Rosa – A revista Billboard descreveu o El Mapa de Todos como um festival “movido à paixão pela música e por ideias”. De certa forma, isso também explica um pouco o sentimento que me faz trabalhar pela construção de novas alternativas para a música. Por outro lado, nunca fui um conformista, seja no sentido existencial, político e, menos ainda, cultural.  

 

POA Show – Há quase dois anos tu comandas (ao lado do Brisa Daitx e do Gabriel, do Opinião) a Noite Senhor F em Porto Alegre. Como surgiu o evento nestes moldes?

Fernando Rosa – A origem da Noite Senhor F é Brasília, 2001, na entressafra entre a falência da indústria e a afirmação da internet como principal meio de divulgação da música. O evento surgiu para organizar, dar foco e promover a cena independente da cidade, afastada dos grandes centros. Em Brasília, foi realizada até o ano de 2008, além de eventualmente ocorrer em outras capitais, como Belém, Goiânia, São Paulo e Florianópolis, entre outras. No final de 2010, com o mesmo espírito, a Noite Senhor F instalou-se em Porto Alegre, em parceria com o Opinião. Já estamos fechando o segundo ano de atividades, acreditando que continuamos mantendo nossos objetivos iniciais.

 

POA Show – Além da Noite Senhor F, você é responsável pelo festival El Mapa de Todos, que reúne nomes de diversos países. Como surgiu esta ideia e como ela foi construída?

Fernando Rosa – O El Mapa de Todos surgiu como uma espécie de desdobramento do Senhor Festival, que ocorria em Brasília, e teve sua primeira edição em Florianópolis, no clássico Bar do Frank, no início da década passada. A base de tudo, no entanto, foi a sintonia com a música latina, principalmente com o rock, que sempre tive, desde a juventude, vivida na região metropolitana de Porto Alegre. O conceito do festival ainda teve como pano de fundo um raro momento vivido pelo Brasil, durante o Governo Lula, de mudança de postura do Brasil na relação com a América Latina. Ou seja, o festival El Mapa de Todos não é apenas um momento de entretenimento, mas um momento de afirmação de um novo processo de integração e construção de uma plataforma comum na região para circulação de artistas, de informação e de produtos culturais. A primeira edição do El Mapa de Todos ocorreu em Brasília e, em 2011, o festival passou a ser realizado em Porto Alegre, agora indo para a terceira edição.

 

POA Show – E esta edição, que acontece nos próximos dias 6, 7 e 8, como se deu a produção, escolha dos artistas, etc?

Fernando Rosa – A curadoria de um festival com o El Mapa de Todos exige acompanhar o que está acontecendo nos demais países, mas também conta com uma boa dose de interferência das circunstâncias que a cercam. Em cada país, existem vários artistas importantes, em ascensão, produzindo boa música, que gostaríamos de convidar para integral o line-up do festival. Mas temos de escolher, em geral, apenas um, e compor um mosaico musical demonstrativo da produção naquele momento e que também seja atrativo ao público local e nacional. Por outro lado, não trabalhamos com a ideia de um evento de “massa” para o festival, o que nos levaria para o universo do “mainstream”, mas sim de fomentar ideias, conceitos e propostas que construam a aproximação entre os povos da América Latina. Até agora, acredito que temos sido felizes na escolha dos artistas, neste ano bastante elogiada pelos sites e blogs latinos.

 

POA Show – Você é um grande conhecedor da música ibero-americana. Que artistas você recomenda ao público?

Fernando Rosa – Vou sintetizar essa resposta, indicando uma lista de artistas que tenho sugerido, com discos lançados recentemente:

Algodón Egípcio – La Lucha Constante (Venezuela)
Bareto – Ves Lo Quieres Ver (Peru)
Buenos Muchachos – Se Pule La Colmena (Uruguai)
Christina Rosenvinge – La Jovem Dolores (Espanha)
Cienfue – La Calma y La Tormenta (Panamá)
Davila 666 – Tan Bajo (Porto Rico)
Dënver – Música, Gramática, Gimnasia (Chile)
El Mato a Un Policia Motorizado – El Nuevo Magnetismo (Argentina)
Fernando Milagros – San Sebastián (Chile)
Francisca Velenzuela – Buen Soldado (Chile)
Franny Glass – El Podador Primaveral (Uruguai)
Gepe – Audiovisión (Chile)
Juan Cirerol – Haciendo Leña (México)
La Vida Boheme – Nuestra (Venezuela)
Lisandro Aristimuño – Mundo Anfíbio (Argentina)
Los Mentas – Unidad Educativa Los Mentas (Venezuela)
Los Negretes – México City Blues (México)
Los Vigilantes – Los Vigilantes (Porto Rico)
Manel – 10 Milles per Veure una Bona Armadura (Espanha)
Mima – El Pozo (Porto Rico)
Monareta – Fried Speakers (Colômbia)
NormA – A (Argentina)
Odio Paris – Ódio Paris (Espanha)
Vetusta Morla – Mapas (Espanha)
Xoel López – Atlântico (Espanha)

 

POA Show – Quais os planos para o futuro no que tange à música?

Fernando Rosa – Afirmar definitivamente o festival El Mapa de Todos como o principal evento de integração por meio da música no Brasil e, ao mesmo tempo, integrá-lo na rede de festivais latinos existente na América do Sul, Central, Espanha e México. Construir uma plataforma de distribuição da música latina no Brasil, e do Brasil na América Latina, para superar a barreira da circulação de produtos culturais na região, ainda balizada pela distribuição do mercado americano. Ampliar o selo Senhor F, com lançamentos de novos discos de artistas contratados, e também de novos artistas.

 

POA Show – Você atua diretamente com o fomento à cultura, música independente, festivais improváveis e outras empreitadas que podem ser classificadas como heroicas. Atualmente vivemos uma transição no Ministério da Cultura. Como você enxerga esta mudança?

Fernando Rosa – Acho positiva, pois busca estabelecer um equilíbrio de ideias e formas de conduzir a cultura no país, depois de um momento difícil experimentado durante a gestão da ministra anterior, agora substituída pela senadora Marta Suplicy.

 

POA Show – Recentemente houve uma divisão na Abrafin. Vários festivais, entre eles o El Mapa, se retiraram da instituição e muito se especulou a respeito. Como se deu esta divisão?

Fernando Rosa – A principal razão foi a diferença de objetivos e de caminhos de cada um dos grupos envolvidos no debate. Um grupo passou a orientar-se mais pela política de redes, pela ampliação de suas atividades para além da música. Outro, do qual faço parte, manteve-se voltado para terreno musical, para produção de festivais e para a difusão cultural. Isso não quer dizer alheamento à realidade da política cultural, mas apenas uma questão de foco.

 

POA Show – O El Mapa de Todos tem uma personalidade musical muito especial entre os festivais que acontecem no Brasil. Existe a ideia de que aconteça mais vezes ou em outras localidades?

Fernando Rosa – A ideia é fixá-lo em um local, no caso em Porto Alegre, e seguir adiante, mas para isso é necessário que a cidade, que o público assim queira. Ano passado tivemos uma resposta apenas razoável de público, embora tivéssemos produzido um evento exemplar, com um belo line-up. Por outro lado, é importante contar com os apoios necessários à realização do evento, o que temos obtido junto à Petrobras, especialmente, à Secretaria de Cultura do Estado, à Força Sindical, ao Instituto Girassol, ao Instituto Cervantes e outras instituições, além da acolhida ampla e calorosa da mídia, em todos os seus segmentos. A cidade, do ponto institucional, por meio da Prefeitura Municipal, da Secretaria de Cultura, no entanto, ainda não foi capaz de reconhecer o festival como algo importante no cenário da cultural local. O que esperamos venha a ocorrer, pois acreditamos que o evento tem muito a contribuir com a imagem da cidade como “Capital da Integração”.

 

POA Show – Como tem sido o retorno do público e dos artistas que participam do evento?

Fernando Rosa – Os artistas, principalmente os latinos, não poupam elogios ao evento pela estrutura, pelo profissionalismo de sua organização (contamos com uma das melhores equipes de produtores, técnicos e comunicadores do país, que inclui Brisa Daitx, Thiago Piccoli, Nayane Bragança, Paulo Finatto, Arthur Credideu, Silvia Duarte e Paty Schmitt, entre outros). Além disso, temos o apoio da estrutura técnica do Opinião, da Veraz Comunicação, e da Produtora Senhor F, que contribuem decisivamente para a qualidade do evento. O público, da mesma forma, ainda que não no volume que acreditamos possível, “comprou” o festival, aplaude se conceito e já incorporou em seu calendário anual de eventos musicais.

 

POA Show – Deixe um convite para o público que comparecerá ao Opinião durante o El Mapa.

Fernando Rosa – Apenas um recado, sem qualquer pretensão: valorize o seu artista preferido, fortalece a prata da casa, local ou nacional, mas abra-se para ouvir o novo, o diferente, no caso, os artistas latinos.

Foto: Divulgação El Mapa de Todos

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