El Mapa de Todos: Integração e versatilidade em um dos melhores eventos do ano.

Quando pessoas se juntam em torno de um ideal, as coisas tendem a acontecer, mesmo com as dificuldades e as pedras no caminho. Quando se trata de música, eleva-se isso a nona potência. Apesar dos obstáculos, um improvável festival, com 15 artistas de 7 países e ingressos de humildes vinte reais por noite, aconteceu no Opinião: o El Mapa de Todos, festival ibero-americano de música, teve em sua edição 2012 três noites inesquecíveis com um pouco do que se produz de melhor na América Latina.

06 de Novembro – Palco Cidade Baixa em Alta

General BoniMores

    Na terça-feira, dia 06, os trabalhos abriram com um público ainda pequeno para o show da General BoniMores. A banda de Passo Fundo surpreendeu os que chegaram cedo com um Indie Rock cheio de energia, de dar inveja às bandas da capital. Com um repertório próprio, baseado em seu disco de estreia, a banda fez um dos melhores shows do festival. Simples e diretos, demonstraram competência e humildade, dando seu recado com sucesso e deixando uma excelente impressão para um retorno à cidade.

Algodon Egipcio

    O projeto Algodon Egipcio causou estranheza no público com sua proposta sofisticada e moderna. Valendo-se de diversos elementos eletrônicos, além de guitarra elétrica e uma textura que passeia por diversos estilos, o projeto do artista venezuelano Cheky levou ao palco um show muito singular. Não arrancou grandes reações do público, porém isso em nada desabona a criatividade e a versatilidade artística do projeto. Um show bacana, para quem entendeu a proposta.

Esteban

    Já com a casa tomada por um público bastante jovem, era chegada a hora de Esteban, projeto de Rodrigo Tavares (músico que ganhou fama e notoriedade como baixista do Fresno). O sexteto apresentou composições próprias e emocionou o público, levando alguns às lagrimas. Impecáveis na execução, a banda chama a atenção, também, pela cumplicidade com seu público: apesar de não frequentar mais os playlists das grandes FMs como nos tempos de sua ex-banda, Tavares consegue arrancar os primeiros coros mais fortes da noite, especialmente com “Canal 12”. Além disso, serviu pra que muitos deixassem de lado o preconceito e enxergassem que ali existe não apenas o ex-baixista do Fresno, mas um artista completo, um compositor competente e um guitarrista de mão cheia, como se pode perceber em “Sinto Muito Blues”, que encerrou a apresentação.

Franny Glass & Banda

    O uruguaio Franny Glass subiu ao palco do Opinião acompanhado de sua banda de apoio pouco depois da meia noite. Apostando na simplicidade e no conteúdo de suas canções, também emocionou o público que ficou para prestigiá-lo (além, obviamente, dos que vieram especialmente para vê-lo). Glass mostrou-se muito feliz e grato pela oportunidade e deu ao público mais um excelente show, provando que nem só de Jorge Drexler vive a musica da província cisplatina.

Apanhador Só

    Com um público um pouco maior do que o da atração anterior, a banda gaúcha Apanhador Só encerrou a noite. A banda, que vem atingindo status de cult, ouviu seu público cantar suas canções plenamente e encerrou a primeira noite do festival. Destaque para o inusitado instrumento utilizado pela banda: uma bicicleta.

07 de Novembro – Palco Peabiru

The Tape Disaster

    A noite de quarta, dia 07, seguiu o protocolo de apresentar bandas gaúchas para a abertura dos trabalhos. Desta vez, a instrumental The Tape Disaster ficou responsável por esquentar o pequeno público que chegou às 21h. O som instrumental da Tape funcionou perfeitamente para dar início a noite mais roqueira do festival.

NormA

    Os argentinos da NormA fizeram o que se espera de um show de Rock: simples e direto, o quarteto detonou seu pos-punk e levantou o público que começava a se aglomerar na pista do Opinião. Extremamente bem ensaiados, deixaram a sensação de show curto e se dever cumprido. Uma ótima banda de Rock que merece voltar a Porto Alegre o quanto antes.

Bide ou Balde

    Já com a casa cheia, os gaúchos da Bidê ou Balde fizeram um show incendiário. “O nome da banda é Bidê ou Balde e o nome do ritmo é Rock”, anunciou Carlinhos Carneiro, o carismático vocalista da Bidê. A partir dali, o que se viu foi um show eletrizante com os maiores sucessos da banda. Carlinhos, como era de se esperar, pulou e berrou as letras como se não houvesse amanhã, além de dar trabalho à segurança caminhando por cima da grade que separava o público do palco e correndo pela pista do Opinião, em meio ao público. Um dos melhores shows do El Mapa, sem dúvida alguma.

Bareto

    Se o show da Bidê candidatou-se fortemente ao título de melhor show do festival, o show seguinte não deixou nada a desejar. Astros no Peru, o Bareto transformou a pista do Opinião em uma autentica pista de cumbia. Aliás, a palavra “Cumbia” foi bradada diversas vezes pelo animado vocalista Mauricio Mesones. Um momento interessante da impecável apresentação dos peruanos foi a versão de “Mulher Rendeira”, que virou “Mujer Hilandera” e agradou ao publico que já se mostrara conquistado pela sonoridade marcante e pela execução primorosa das canções do Bareto. Um show que pode e deve retornar em breve à capital.

El Cuarteto de Nós

    Por fim, dando continuidade à sequencia de excelentes shows e encerrando a segunda noite do El Mapa de Todos, El Cuarteto de Nós trouxe ao palco do Opinião, novamente, seus hits e canções emblemáticas que encantam o público gaúcho e justificam o maior público do festival.  

Medialunas

    O rock alternativo do duo Medialunas abriu a terceira e última noite do El Mapa de Todos, na quinta, dia 08. A exemplo que aconteceu nas duas noites anteriores, o que se viu foi um bom show para poucas pessoas. Barulhentos e melódicos ao mesmo tempo, a banda que vem circulando por diversas cidades e sendo bem recebida por público e imprensa especializada, mostrou que um som que remete a primeira metade da década de noventa e foi intensamente aplaudida. Mais um bom nome que surge na cena do Rio Grande do Sul para demonstrar que nem só do chamado “rock gaúcho” vive a cena independente gaúcha

Denver

    A banda chilena Denver se apresentou sem baterista (acompanhados por uma bateria eletrônica) e fez o show mais fraco de todo o festival. Sem nenhuma empatia e com um talento(?) questionável, chamou muito mais a atenção por conta da vocalista do que por sua música.

Autoramas

    Os cariocas do Autoramas, donos de uma carreira sólida e extensa no underground, fizeram um bom show de Rock, trazendo o som das guitarras de volta ao El Mapa. Macaco velho, o vocalista Gabriel (aquele mesmo, do Little Quail and the Mad Birds) conduziu o público e desfilou clássicos da cena independente como “Nada a Ver”, “Mundo Moderno”, “Você Sabe” e “Fale Mal de Mim”, que chegou a ter clip veiculado na MTV (quando esta ainda justificava seu nome). A prova cabal de que os Autoramas escreveram seu nome na história do underground ficou por conta da ausência de alguns clássicos como “Carinha Triste” e “Autodestruição”.

Juan Cirerol

    O show mais aclamado da noite foi também o mais surpreendente: munido apenas de seu violão e de uma voz potente e característica, Juan Cirerol, o Bob Dylan mexicano, conquistou os aplausos mais fortes da derradeira noite do festival. Sua alegria contagiou o público, que foi conquistado já na primeira canção. Os aplausos de Cirerol foram, disparadamente, os mais estrondosos do festival, o que é surpreendente para um artista pouco conhecido no Brasil. A alegria e o carisma de Juan Cirerol o colocam em posição de pleitear o título de melhor show do El Mapa de Todos 2012.

Nenhum de Nós

    Atração mais pop e banda de maior expressão comercial em todo o festival, o Nenhum de Nós teve a missão de encerrar a edição 2012. O começo já foi espinhoso: um copo de cerveja atingiu o vocalista Thedy Correa. Com o show parado, Thedy não perdeu a oportunidade de passar uma lição de moral no(a) imbecil que teve esta atitude infeliz. Voltando a programação normal, o Nenhum de Nós fez o que sabe fazer de melhor: desfilar hits e sucessos de todas as fases de sua carreira (como “Paz e Amor”, “Vou Deixar Que Você Se Vá” e, obviamente, “Camila Camila”), mesclados com material de seu álbum mais recente, “Contos de Agua e Fogo”. O grande momento da apresentação foi a participação de Brisa Daitx, um dos produtores do festival, na belíssima “Sobre o Tempo”.

El Mapa de Todos

    Três noites, quinze shows, dezenas de músicos, centenas de espectadores e um sentimento de que tudo passou rápido demais. Este foi o El Mapa de Todos, festival de música Ibero-americana que trouxe a Porto Alegre ótimos artistas por um preço mais do que honesto (se dividirmos, cada show custou apenas quatro reais, o preço de uma água mineral no Opinião). Se você vacilou, não comparecendo a nenhuma das noites, restam duas notícias: a ruim, você perdeu excelentes shows. A boa é que ano que vem tem de novo. É uma boa oportunidade de largar o típico descaso porto-alegrense com relação à nova música e prestigiar estes que não são artistas grandes, mas são, com certeza, grandes artistas.

    Que venha o próximo!


Por: Marcel Bittencourt

Fotos: Paulo Capiotti

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