Marillion: apresentando clássicos e novidades no Teatro do Bourbon Country

Dizem que para relatar friamente um fato, é preciso que aquele que o escreve mantenha uma certa “distância protocolar“ de forma que os fatos sejam relatados em face do acontecido e não misturados à emoção ou a sentimentos daquele que os descreve.

Me distanciarei dos fatos. Voltemos ao longínquo 1985. Mais precisamente a Julho de 1985, onde durante as férias escolares de inverno fui apresentado a um estranho álbum onde as músicas pareciam não acabar. Foi assim, que com 9 anos de idade, fui introduzido aos álbuns conceituais (pela mesma que me mostrou o rock progressivo).

Escutar Misplaced Childhood pela primeira vez foi estranho, mas não foi ruim. Comparado a outras bandas progressivas, Marillion é mais simples, quase pop. Alguns dirão que é pop, ou neo-prog, ou sejá lá o que for, nunca gostei de rótulos musicais, não sou músico, e entendo tanto de música quanto de vinhos; sei aquilo que eu gosto, e aquilo que eu não gosto. Se é ruim ou bom, cada um que escolha o seu.

 O tempo passa, a banda muda, o som se renova, ou não. Tem gente que gosta de um Marillion (Fish Era), tem gente que gosta do outro (Hogarth Era), tem gente que gosta dos dois, tem gente que diz que não mudou. Não importa. O Marillion está em Porto Alegre, e é sobre isso que eu tenho que escrever.

Acho que consegui me distanciar o suficiente para escrever sobre o show da turnê de promoção do álbum Sounds That Can’t Be Made que ocorreu no dia 14 de Outubro de 2012, em Porto Alegre no Teatro Bourbon Country.

Sendo que o Marillion é a banda que eu esperei a vida inteira para ver ao vivo, só esperava uma coisa: decepção. O tempo passa, pessoas envelhecem, e a energia necessária para tocar durante duas horas fica lá nos nossos vinte e poucos anos. É o prelúdio do desastre. Sei que vai dar errado, sei que Steve Hogarth não vai segurar a voz (que na minha opinião é melhor que a do Fish, e é fato que ela está mais conservada), sei que a banda vai cansar, sei que o Ian Mosley vai errar o tempo, sei que o Pete Trewavas vai cansar de pular, sei que o Mark Kelly não vai tocar dois teclados ao mesmo tempo, e sei que o Steve Rothery não vai errar, porque afinal, alguma coisa precisa dar certo.

Só que ninguém erra. Não dá nada errado. Todo mundo faz o que deve, como deve e quando deve, durante os 105 minutos de show. E eu me arrepio, o show inteiro. Porque eu esperei 17 anos pra isso, e não vai dar errado logo agora, não deu nada errado.

O show começa com Steve Hogarth cantando Splintering Heart, do mezanino, junto à platéia. A banda vai entrando aos poucos, e finalmente se encontra completa no palco. É de verdade, agora vem todo o Marillion. 17 anos de espera.

Vem quase tudo, toda a história. Eu vejo a lista de músicas e não tem nenhuma do primeiro álbum. Não tem Script, não tem Forgotten Sons, e não tem Garden Party. Nem Garden Party, que fez parte de toda a turnê européia, e é o hino oficial da banda! (Na minha opinião, e das pessoas que estavam no show, é mais importante que Kayleigh).

O show segue com Slainte Mhath, o Marillion, de todos os tempos e vocalistas. Hogarth mantém músicas da fase inicial da banda, e mesmo cantando do seu jeito, é genial. Mostra uma banda completa, formada, inteira, e não como um apoio a um “frontman” (e olha que eu prefiro os primeiros 5 álbuns de estúdio).

Com uma excelente mistura de músicas do álbum novo e clássicos da banda como Beautiful e  The Great Escape, o show segue, agradando, emocionando, envolvendo. Ninguém olha o palco, simples, apenas com alguns efeitos de luz e uma projeção da capa do álbum recente. Não é necessário. Estamos lá pela música, pela capacidade do Marillion de tocar ao vivo a sua música de estúdio. Queremos ver isso, não precisamos de telas mirabolantes, bolas de fogo. Queremos a música.

Queremos tanto, que pedimos. E esse foi, e é, um ponto negativo da maioria dos shows. O público pede uma infinidade de músicas, atrapalhando o show. Espere para ver se a música será tocada ou não, e espere o bis para pedir a sua música. Ouça o show. O público pedia músicas de dois ou três álbuns, e como bem lembrado pelo Hogarth, o Marillion tem 17 álbuns, e parece que as pessoas não os conhecem. Como se diz por aqui, “deu nos dedos”, e foi merecido.

Enquanto todos pediam Garden Party e Easter, fomos presenteados com outros clássicos (“I think you’ll like this one.”): Kayleigh, seguida de Lavender. E todos cantaram junto, como deveria ser, come se esperava que fosse. Todos com os seus “mais de 20 e poucos anos” (40, 50, talvez mais), cantando e se emocionando.

Quando o show estava excelente, acabou. Esperamos a banda voltar.

Na volta, sabíamos o que nos esperava: Easter e Sugar Mice. Afinal, estão em todos os shows, e deveriam estar em Porto Alegre. E aí veio a surpresa geral, a música que não tocou em São Paulo, que não tocou no Rio, e que não deveria tocar aqui.

O show termina elétrico, com Garden Party, e ficamos todos satisfeitos.

Algumas ausências foram sentidas como Afraid of Sunlight, The Uninvited Guest e Man of a Thousand Faces. The Invisible Man estava no setlist, e foi substituida, na última hora por Garden Party. Mas já passa das 22:00h, e já se foram quase duas horas de show, ainda temos que jantar e beijar os filhos antes de dormir. Ninguém que houve Marillion há 20 anos (ou mous, ou quase) vai reclamar. Fãs ficaram satisfeitos. Mas eles podem voltar, sentiremos sua falta.

 Alguns dormiram felizes, outros, como eu, não dormiram, porque a adrenalina não deixou. Há vinte anos eu esperava por isso.

Um último comentário sobre o local do show: foi minha primeira vez no Teatro do Bourbon Country, e não sei se conseguirei ir novamente ao Pepsi On-Stage. O som no teatro do Bourbon é excelente, mas é melhor no meio do palco, ou atrás da “pista VIP”. Ou eles mudam o posicionamento para a pista VIP ou eliminam ela, pois não faz sentido pagar mais para ter um som pior (pelo menos, para quem está interessado na música). Quanto aos outros locais de show em Porto Alegre, ficaram muitos ruins agora. Melhorem!

 O comentário de um amigo, que é mais fã da banda que eu mostra bem o sentimento do show:

“Costuma-se afirmar que o Marillion tem duas fases: a fase do ex-vocalista Fish (que é a que a maioria do povo que vive ainda nos anos 70 / 80 gosta) e a fase atual, que já dura mais de 20 anos (que é para quem vive nos dias de hoje e costuma aceitar melhor viver na realidade).

Tanto é assim que a própria banda, ao se apresentar, prefere diminuir um pouco o setlist com canções dos últimos 5 álbuns (ou simplesmente não colocar nenhuma música lá, como foi o caso do Happiness is The Road) e provocar maior emoção nos fãs de progressivo em geral com coisas da época do Fish.

 E tem que ter Kayleigh. E Lavender. Pra variar um pouco, Easter.

Nada contra, não esperava nada de diferente para essa apresentação em Porto Alegre. Em alguns momentos notava-se que o som estava alto, estridente demais — o que não combina muito com a acústica do Teatro Bourbon. Mas nada disso importa realmente na hora. O que deu pra notar é que a maioria das pessoas saiu de lá com uma impressão (não completamente) diferente da banda, de como os caras ainda mandam bem apesar da idade.

 O que não é esforço pequeno.

A apresentação começa com o Hogarth no mezanino, mais perto do palco, começando Splintering Heart do meio do público. Pra quem vem acompanhando os últimos DVDs da banda é redundante dizer que é um cara carismático, performático — o que surpreende, porque fazer 3 shows em questão de menos de uma semana, tocando músicas "de sempre" deveria ser de amargar para músicos menos humildes.

O único cara "preciso" (no sentido matemático/frasista) foi o Rothery. É o que se espera dele: solos iguais aos discos, saídos como se não tivessem dificuldade nenhuma. O resto da banda (tirando talvez o baixista Pete Trewavas, que é sempre entusiasmado) parecia razoavelmente cansado. Aí é que o repertório ajuda: não tem como não passar emoção ao tocar coisas do Marbles; do Brave; do Misplaced Childhood; do Afraid of Sunlight; do Clutching at Straws.

Sounds that Can't be Made é um disco na linha dos últimos — acima do excepcional, mas dentro do "léxico" pós-Marillion.com; é algo diferente, mas tem a assinatura do Marillion. Como tocar coisas como "Gaza" ou "Montreal" não fariam muito sentido numa apresentação (por serem longas demais), ficou-se com as músicas de trabalho. Que quase ninguém esperava também.

Dado o setlist de São Paulo, eu não esperava Garden Party. Mas o público estava pedindo, e parecia que o show tinha recém-começado apesar de ter passado quase duas horas. São dezessete discos, dá para entender o quanto surpreende.

 E teve Beautiful também. Da época que as gentes ainda escutavam rádio.

Como fã foi uma apresentação surreal — como público acho que não estamos preparados pro Marillion. Até uma próxima vez, se houver.

“ — Fernando Mässen

 

Set List:

Splintering Heart

Slainte Mhath

You’re Gone

Sounds That Can’t Be Made

Beautiful

Power

Fantastic Place

Kayleigh

Lavender

The Great Escape

King

Neverland

Easter

Sugar Mice

Garden Party

Fotos e texto por: Rafael Jeffmann

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1 comentário

  1. marcelo

    Valeu amigo. Sou de cwb mss moro no maranhao tava doido pra ver i marillion mss n deu. A resenha e as fotos foi quase como estar la . . . Foi show

    [Responder]

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